O Selvagem/Parte synthetica/II
1.º Da declinação. — Como em portuguez, os nomes se declinam por meio de preposições que, como vão sempre depois do nome, chamaremos posposições, exemplo: Deos, Tupã́na; o genitivo de possessão se conhece porque a cousa possuida é posposta ao possuidor, como no inglez; casa de Deos, Tupã roca; para Deos, Tupã supé, ou Tupã arãma; em Deos, Tupã upé; com Deos, Tupã irúmo; de Deos, Tupã çuí; por Deos, Tupã recé, ou Tupã́na rẹcẹ́.
2.º O lugar para onde se exprime pela posposição keté que alguns dizem ketí, kití. Eu vou para minha casa: Xasó ce róca ketẹ́. Rupí, por onde: vou a casa pelo rio: Xasọ́ ce róca hetẹ́ paraná rupí.
3.º O lugar de onde alguma cousa vem, pela posposição çuí; eu venho do Icarahy: Xa iúri Caraí çuí; alguns dizem xií.
4.º O lugar onde alguma cousa está se exprime pela posposição upé ou opé; eu estou na cidade, Xa ikọ́ mairí upé. Quando a cousa está dentro, como de gaveta ou caixa, por pupé: o anzol está dentro da caixa: pinà oikọ́ patuá pupẹ́. Em riba — áripe; o castiçal está em riba da mesa: canéatinga-rerú oikọ́ mi̙rá péua áripe. No chão, sobre o chão; i̙ui̙ rạpe; i̙ui̙ significa chão, terra.
5.º Adjectivo. O adjectivo segue o substantivo e declina-se pelo mesmo meio das posposições; o mesmo se dá respeito aos pronomes pessoaes. N’alguns lugares o dativo é expresso por um u no fim: Ixẹ́u para mim, indéu para ti etc.
O pronome pessoal da 3ª pessoa do singular faz no dativo ixupé, para elle.
O adjectivo se une ao substantivo independente de verbo, assim: minha espingarda é boa — ce mukáua atú; se dissessemos: ce mukáua oikọ́ catú, o sentido seria — que a minha está agora boa; exprimiriamos por tanto um attributo actual, e não uma qualidade permanente, como melhor veremos na pratica.
6.º Dos Numeros. Os numeros são 4, a saber: iepé, um; mokóin, dous; moçapi̙ra, tres; erundi̙, quatro. Com estes 4 elles compõe os mais.
O numeral distribuitivo se forma repetindo o numeral; assim: um a um: iepé iepé; dous a dous mokóin mokóin.
7.º Demonstrativo. Ha tres: quahá este, nhãhã aquelle; nhãhã amũ aquelle outro. Servem tanto para o masculino como para o feminino.
8.º Dos numeros: O plural de todos os nomes se fòrma accrescentando-lhes esta particula itá, que corresponde ao nosso s. Casa óca, casas ócaitá; parente anãma; parentes anãmaitá. Este itá é o etá da costa, que se vê escripto nos cathecysmos.
9.º Só distinguem generos nas cousas animadas, e estas ou tem palavras proprias para designar o macho e a femea: como irmão mũ, irmã rendẹ́ra, ou então, quando querem designar o sexo masculino, seguem o nome da palavra apgáua, que significa macho, ou da palavra cunhã femea, assim: cão — iauára apgáua, cachorra iauára cunhã.
10. Dos interrogativos. Toda proposição interrogativa tem intercalada uma d’estas particulas: tahá, será, tá
Quem, qual? auá; que cousa, o que? : mahã́. Tanto um como outro é seguido da particula — tahá Quem está ahi: auá tahá oiko ápo? O que você está fazendo: mahã́ tahá remunhã re iko? O que você vio por ahi: maha tahá re mãẽ rupi? Os interrogativos de tempo, lugar, numero, occasião, razão, são os seguintes: mairamé, quando; mamé, onde; mũíra, quantos? maí, como; mahá rêcê, por que. Quando você vem? mairamé tahá re iúri? Quantos remeiros vieram? Mũíre iapucuiçára oúri? Como te chamas? Maí tahá ne rera?
11. Do comparativo e superlativo. — O comparativo forma-se com a posposição pi̙re. Pedro é melhor do que João, Pedro catu pi̙re João çuí — litteral: Pedro é bom mais João de. O superlativo forma-se com a posposição ètê, a qual toma r quando é antecedida de vogal; bonito, pọranga; muito bonito, pọranga retê.
12. Do augmentativo e diminutivo. — Os adjectivos turucu, grande, e mirĩn, pequeno, são de um uso muito frequente nesta lingua. Este turuçu em composição perde a primeira syllaba e fica açú ou uaçú, assim: peixe, pirá; balêa, piráuaçú; mar, pará; oceano, paráuaçú. Este nome passou para muitos de logares e plantas na lingua brazileira, assim: Taquara, Taquaraçú. O diminutivo é mirin; maracujá-mirin, maracujá pequeno; rio grande, paraná; os canaes do rio grande que ficam apertados entre ilhas paranãmirin. Um outro diminutivo é o i no fim do vocabulo: taquara, taquari, taquara pequena, fina: páo, i̙mi̙rá; vara, páo fino: i̙mi̙rai.
Pouco, quáiai̙ra; muito, turuçú: é o mesmo augmentativo que empregam tão bem neste sentido, por ex.: eu quero beber caxaça, Xá ú putari kãuin; ponha pouco, Enun quaiai̙ra. Ponha muito: Enun turuçú.
13. Dos verbos. — Os verbos pessoaes tem particulas prefixas que indicam as pessoas. Ós grammaticos jesuitas não comprehenderam isto, porque no tempo em que escreveram a philologia estava muito atrazada, e por isso qualificaram estes prefixos de artigos. Estes prefixos tem o mesmo valor que tem as terminações dos verbos em portuguez, latim, francez, etc.; a differença está em que nas nossas linguas a particula está no fim, ou segue a raiz, ao passo que no Tupí e em quasi todas as linguas indigenas do Brazil ella está no principio do verbo, ou antecede a raiz. Convem não confundir a particula pessoal com o pronome pessoal.
Cada pessoa de verbo decompõe-se: 1º, no pronome 1a pessoal; 2º, no prefixo pronominal; 3º, na raiz attributiva: Eu levo, xe araço; tu, Inẹ́ reraçọ́; Elle, Ahé oraçọ́; Nós, Ianẹ́ iaraçọ́; vós, Pẽen peraçọ́; Elles, aetá oraçọ́.
Quando se falla a lingua oùve-se, na primeira pessoa, esta palavra: xaraçọ́: xe é o pronome pessoal da primeira pessoa, cujo e contrahe-se para deixar ficar o som do a; a é o prefixo pronominal da primeira pessoa; raçọ́ é a raiz. No portuguez é a mesma cousa: Eu levo; eu é o pronome pessoal; lev é a raiz, e o é o suffixo pessoal da primeira pessoa. A differença, pois, entre o portuguez é apenas a da posição da raiz. Para não fazer distincção entre a escripta e a pronuncia eu escreverei como todos escrevem, isto é, em vez de Xe araçọ́, escreverei Xa raçọ́, neste e sempre que tiver de empregar a primeira pessoa dos verbos pessoaes.
Aetá, pronome da terceira pessoa do plural, é uma contracção de ahé, elle, e etá ou itá que é signal de plural; vide a regra, n. 8.
No uso dos pronomes pessoaes ha numerosos idiotismos que, com os exercicios que se seguem, ficarão perfeitamente entendidos, e de que aqui não tratamos para não prejudicar a simplicidade destas regras.
14. Dos tempos. — O presente indefinido forma-se pela união do prefixo pessoal á raiz: Xa mehén, re mehén, ahé omehén, iane iạmehẹ́n, peén pemehẹ́n, aitá omehen, eu dou, tu dás, elle dá, nós, vós, elles dão. O presente definido forma-se pela posposição do auxiliar ikó, ser ou estar: assim: eu dou ou estou dando, Xa mehẹ́n xa ikó: re mehẹ́n re ikọ́, ahé amehẹ́n oikó; iané iamchén iaikó; peẹ́n pemehẹ́n pe ikọ́; aitá omchen ikô Eu estou dando, tu, elle, nós, vós, elles.
15. O passado forma-se addicionando a particula ãn ou ãna ao presente indefinido. Eu dei, Xa mehẹ́n ãna.
16. O futuro forma-se addicionando a particula curi ao presente indefinido: eu darei, xa mehen curi.
17. Com o presente, passado e futuro póde-se em ultima analyse fallar uma lingua, e d’ahi vem talvez que alguns grammaticos antigos disseram que a lingua não tem outros tempos, o que não é exacto. O que se dá é que as raizes de tempo ainda não estão incorporadas ao verbo, ou á raiz attributiva, como succede nas linguas de flexão. Ha os outros tempos, que se formam da maneira seguinte:
18 O preterito imperfeito forma-se do presente definido, interpondo, entre o verbo e o auxiliar, a particula ramé, a qual significa quando: Xa mehén ramé xa ikọ́ eu dava ou quando eu dava.
19. O futuro imperfeito forma-se do futuro, ajuntando-lhe este mesmo ramé: Xa munhan curi ramé, quando eu fizer.
20. O futuro perfeito forma-se do perfeito assim: Xa munhãn ãna curi-ramé, quando eu tiver feito.
21. O mais que perfeito forma-se do presente indefinido com a addição de ramé: xa munhãn ramé, quando eu fizer, e tambem se eu fizer.
22. Nunca usam do infinito impessoal senão nos verbos impessoaes; o que se vê nos cathecismos e sermões dos jesuitas com esta fórma é equivoco proveniente do prejuiso de que todas as grammaticas deviam necessariamente ter as mesmas fórmas que as das linguas aryanas por elles conhecidas; assim, esta oração: para ir para o céo é bom dar esmolas, elles dizem por esta duas fórmas: para gente vae ao céo é bom dá esmolla — míra oçọ́ arãma i̙uáka ketê catú retẹ́ omehen Tupãna potáua; ou então dizem: para nós vamos para o céo é bom nós damos esmolla. — Iaçọ́ arãma i̙uáka ketẹ́ catú retẹ́ ia mehẹ́n Tupãna putána.
23. Sempre que quizermos traduzir os infinitos portuguezes, usaremos d’este arãma com as particulas ãna, ou curí, segundo for passado ou futuro.
O leitor familiarisar-se-ha sem grande trabalho com essas differenças, por meio dos exercicios. Alguns soldados desertores tenho encontrado que, sem a menor educação litteraria, e só por terem vivido nas aldêas, fallam correctamente a lingua; e pois isto nada tem de difficil.
24. Idiotismos. O verbo putári querer, tem um mui singular modo de figurar na oração; sempre que elle vem junto com outro verbo, é esse outro verbo que recebe o prefixo pronominal, ao passo que elle fica invariavel, assim: eu quero ir para o Amazonas:
Xa çọ́ putári Suriman ketê, litteral: eu vou quer Amezonas para.
Quando querem dizer que vão mandar ou ordenar qualquer cousa ajuntam kári ao verbo, o qual é por sua vez verbo, que significa mandar; eu vou mandar chamar o meu povo: Xaço xa cenóin kári çe míraitá.
25. Fórma reciproca, passiva e activa dos verbos. O reciproco é formado pelo prefixo iú unido ao verbo.
O verbo neutro fica activo ajuntando-lhe o prefixo mu (mo); apagaste o fogo? Remuéu ána será tatá? O fogo apagou-se: tatá uéu ána.
26. Negações. A fórma negativa nos verbos obtem-se antepondo a negação intí, ou intí mahã; eu quero Xa putári eu não quero, intí xa putári, ou inti mahã xa putári.
Um adjectivo ou substantivo fica negativo ajuntando-se-lhe o suffixo i̙ma; catú bom, catui̙ma, sem bondade; akãga cabeça; akãgai̙ma sem cabeça ou louco; aqúa entendimento, aquai̙ma idiota; teçá olho eçai̙ma cego.
27. Conjugação de nomes. É uma particularidade d’esta lingua o poder-se exprimir os nomes no presente e no passado, e nisto ella é igual a todas as linguas indigenas americanas, e diversa de muitas linguas européas: cabeça akánga; cabeça que foi mas d’aqual resta alguma cousa que já não é cabeça, caveira, akanguêra.
A pelle do animal em quanto está no corpo d’elle e tem vida, pí, depois de tirada do corpo pirêra; a carne do animal emquanto está no corpo com vida soó, fóra do corpo: çoó quêra.
Conclusão. Para não complicar estas regras, que são as principaes, deixamos para o fim da parte pratica , as relativas a formação de nomes e alterações que elles soffrem segundo são absolutos ou relativos, porque, depois de ter passado os exercicios, a regra ficará clarissima, ao passo que, exposta agora, pareceria difficil.
Devemos observar que as vezes escreveremos alguns nomes de diversas maneiras; assim: etá e itá, que um e outro são a mesma cousa e signal de plural — e o fazemos de proposito porque se os ouve geralmente de ambos os modos. O a nasal escreveremos algumas vezes an, outras ã como akanga e akạ́ga, — cabeça — para familiarisar o leitor com pronuncias que são ora mais ora menos carregadas segundo as localidades em que se usa da lingua.
M, P, B frequentemente se substituem n’esta lingua. Aconselhamos a quem a quizer estudar, que leia sempre alto, e habitue-se a julgar do sentido das palavras pelo som que ouve e não pela letra que ve.