O Sertanejo/II/II

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O Sertanejo por José de Alencar
Segunda Parte, Capítulo II: A montearia

Tinha nascido o sol.

Aos primeiros raios que partiam do oriente e se desdobravam pela terra como uma vaga de luz, a natureza, rorejante dos orvalhos da noite, expandiu-se em toda a sua pompa tropical.

A cavalgada atravessa agora uma zona, onde o sertão ainda inculto ostenta a riqueza de sua vária formação geológica.

De um lado, para o norte, os tabuleiros com uma vegetação pitoresca e original, que forma grupos ou ramalhetes de arbustos, semeados pelo branco areal e divididos por um interminável meandro.

Do outro lado, o campo coberto de matas, no meio das quais destacam-se as clareiras, tapeteadas de verde grama e fechadas por cúpulas frondosas, como rústicos e graciosos camarins.

Além a várzea, levemente ondulada como um regaço, e coberta de grandes lagoas formadas pelas águas das chuvas recentes.

Do seio dêsse dilúvio, surge uma criaçãovigorosa e esplêndida, que parece virgem ainda, tal é a seiva que exubera da terra e rompe de toda a parte nos abrolhos e renovos.

Alí são as carnaúbas que flutuam sôbre as águas, como elegantes colunas, carregadas de festões de trepadeiras, donde pendem flores de todas as côres e aves de brilhante plumagem.

Mais longe as touceiras de cardos entrelaçam suas hastes crivadas de espinhos e ornadas de lindos frutos escarlates, que atraem um enxame de colibrís. Aí dentro da selva espêssa, fez a nambú seu ninho, onde piam os pintinhos implumes.

Era então fôrça do inverno.

Por toda esta vasta região, na qual um mês antes fôra difícil encontrar uma gota d’água a não ser no fundo de alguma cacimba, rolam as torrentes impetuosas de rios caudais formados em uma noite.

A terra combusta, onde não se descobria nem mesmo uma raiz sêca de capim, vestia-se de bastas messes de mimoso, que a viração da manhã anediava como a crina de um corcel. E eram já tão altas as relvas do pasto, que inclinando-se descobriam as reses alí ocultas.

A vegetação incubada por muito tempo desenvolvia-se com tamanho arrôjo, que mais parecia uma explosão; sentiam-se os ímpetos da terra a abrolhar essa prodigiosa variedade de plantas que se disputavam o solo, e acumulavam-se umas sôbre outras.

Eram como cascatas de verdura a despenharem-se pelos vargedos, confundidas num turbilhão de fôlhas e flores, e sossobrando não só a terra, como as águas que a inundavam.

A superfície de cada uma dessas grandes lagoas efêmeras, produzidas pelo inverno, tornara-se um solo fecundo, onde mil plantas palustres erguiam seus pâmpanos formando uma floresta aquática.

Os cavalos em bandos e os magotes de éguas, soltos pela várzea, nitriam alegremente ao avistar a comitiva, e a seguiam por algum tempo rifando de prazer, enquanto os poldrinhos curveteavam travessos à cola das mães.

Ao tropel dos animais surdiam das touceiras de panasco os novilhos e garrotes mansos, que deitavam a correr pelo campo; mas o gado mocambeiro esgueirava-se pelas moitas, e escondia-se manhoso à vista dos vaqueiros.

Não era somente na terra, mas também no espaço que a vida sopitada durante a maior parte do ano, jorrava agora com uma energia admirável.

Havia festas nos ares: a festa suntuosa da natureza. No meio da orquestra concertada pelos cantos dos sabiás, das graúnas e das patativas, retiniam os clamores das maracanãs, os estrídulos das arapongas, e os gritos dos tiés e das araras.

Agora era um bando de jandaias que atravessava o espaço grasnando e ralhando, em demanda de outra carnaúba onde pousar. Passava depois a trinar uma multidãp de galos de campina, à cata do milhal; ou um enxame de chechéus que pousava em um jatobá sêco, e cobrindo-lhe os galhos mortos e nus de dôlhas, formava uma copa artificial com a sua luzida plumagem negra marchetada de ouro e púrpura.

As jaçanãs esvoaçavam por cima das lagoas e pousavam entre os juncos. Os currupiões brincavam nos galhos da cajazeira; e a industriosa colônia dos sofrês construia os seus ninhos em forma de bolsas penduradas pelos ramos da árvore hospitaleira.

Nada, porém, mais gracioso e alegre do que os periquitos verdes, de bico branco, e tamanhos de um beijaflor, que adejam em bandos de cem e mais, chilreando, como uns garotinhos, que são, dos ares.

Na côr parecem esmeraldas a voar; e no mimo e gentileza figuram os silfros dêsses campos, que tomassem aquela forma delicada para esconderem-se ao seio das magnólias silvestres.

A essa hora em que o capitão-mór com sua família seguia pelos tabuleiros em busca das margens do rio Quixeramobim, outra cavalgada, que partira de ponto diverso, caminhava na mesma direção, e no passo em que ia, com pouco devia cortar o rumo da primeira.

Compunha-se esta segunda do capitão Marcos Fragoso e seus hóspedes e parentes. Também êles vinham encourados; mas a vara de ferrão, a tinham dado aos pagens para carregá-la, como outrora com as lanças usavam os cavalheiros de tratamento.

O dono do Bargado trazia consigouma grande porção de vaqueiros sob as ordens de José Bernardo, seu vaqueiro principal. Essa récua de sertanejos com os pagens formavam-lhe uma comitiva respeitável, que sem nenhuma aparência de escolta, era mais numerosa do que a do capitão-mór.

Vinham logo após a comitiva uns comboieiros, tocando animais de carga. As canastras suspensas às albardas, que ainda se usavam então e vez das cangalhas, continham os aprestos necessários para o lauto almôço, depois da montearia.

joão Correia e Daniel Ferro seguiam adiante divertindo-se com os macaquinhos vermelhos, que saltavam pelos ramos a fazer-lhes caretas, ou que suspendiam-se pela cauda soltando uma surriada de mofa.

Ourém que ia ao lado de Fragoso, quebrou afinal o silêncio com estas palavras, que pareciam completar reflexões anteriores:

— E para quando fica a nossa ida à Oiticica, primo Fragoso? Aquela que nos anunciou na mesma noite de nossa chegada? Não me parece já tão firme em sua resolução, e não sei se lhe diga, que acho-lhe pouco jeito para casado.

— Também a mim parecia isso impossível, respondeu Fragoso a rir. Mas depois que vi D. Flor, o impossível é viver longe dela; e desde que não há outro meio...

— Mas então que espera?

— Tenho pensado, primo. Êste Campelo é de uma desmarcada soberba. Êle andou outrora em competências com meu pai; e teria acabado seu inimigo, se a morte não o livrasse do homem que podia fazer-lhe frente neste sertão.

— Receia que lhe recuse a mão da filha?

— É muito capaz. Não reparou que até agora ainda não veio dar-me a boa-vinda, que é de rigor entre vizinhos? Contentou-se em mandar-me o seu guarda-costa ou ajudante, como o chama; e isso a-pesar-da hospitalidade que fomos pedir0lhe ao passar por sua fazenda.

— Talvez porisso entendesse que estava dispensado de vir pessoalmente, pois já nos havia mostrado o seu agasalho.

— Não; é pura sobranceira, que usa com a gente dêste sertão. Julga-se acima de todos. Eu já o sabia por informações e acabei de certificar-me. Se não fosse a formosura e prendas da filha, que me cativaram, já teria rompida. O meu vaqueiro, pensa o primo, que me obedece? A cada ordem que lhe dou, sai-se com êste mote: « O sr. capitão-mór proibiu.» — Depois de nossa cjegada, recomendei-lhe que abrisse a reprêsa da várzea, para que as chuvas não alagassem o caminho, como o primo tem visto, que é? — «e entendesse de minha parte com o capitão-mór; e êste sabe o que lhe disse? — «Seu patrão que me fale, êle mesmo». Veja o que podem em mim os olhos de D. Flor.

— Tudo isto, primo Fragoso, é razão para abreviar êsse negócio e decidí-lo quanto antes. Em sabendo suas intenções, o homem há de mudar.

— Compreende, primo Ourém, que se tal acontecesse, era uma afronta que eu, Marcos Fragoso, não sofro e ninguém, por mais poderoso que êle se julgue. Também tenho orgulho; e na minha família a paciência não é virtude de raça. Ainda ninguém ofendeu um Fragoso, que não recebesse o castigo.

— Neste caso tornemos ao Recife.

— Está assim tão apressado?

— Confesso que não tenho nenhuma curiosidade ver pôsto em auto cá no sertão o rapto das Sabinas, disse Ourém motejando.

Êste remoque excitou alguma surpresa em Fragoso, que fitou o semblante de seu primo com desconfiança. Não se apercebeu disto o Ourém, cujas palavras não tinham oculto sentido.

— Estou que não chegaremos a tal extremidade, replicou Fragoso no mesmo tom de gracejo. A-pesar-de toda a sua arrogância, o capitão-mór Campelo não há de ser tão difícil de contentar.

— Para mim é fora de dúvida. Onde irá êle achar melhor aliança.

— Em todo o caso eu estou prevenido.

— Faz bem. É o meio de enganar a esperança.

— E de impedir que se malogue, acrescentou Fragoso vivamente.

— Não diga tanto.

— Pois eu afirmo.

Desta vez foi Ourém que fitou o olhar no rosto do primo para ler aí a explicação de suas palavras. O sorriso de Fragoso ainda mais o embaraçou.

— O primo tem algum propósito?

— Não perguntou quando íamos à Oiticica? Pois já estamos em caminho.

— AH! Então esta montearia?... Que ela era em honra de Diana caçadora, eu sabia; mas não suspeitava que teríamos um eclipse da lua, logo pela manhã. Assim Endimião prepara-se a arrebatar do céu a deusa?

— Pretendo entender-me com o capitão-mór na volta; conforme o que êle resolver, amanhã estaremos em sua fazenda, para fazer-lhe o pedido com as cerimônias do costume e que êle não dispensa; ou iremos caminho do Recife.

— Desta alternativa é que eu não tenho receio. Havemos de tornar ao Recife, mas depois das bodas.

— Quem sabe? Podem fazer-se lá, observou Fragoso com o mesmo sorriso malicioso que já uma vez excitara o reparo de Ourém.

— Também é verdade, sem que haja necessidade de me estar o primo Fragoso a falar por alusão e com palavras encobertas.

— Pois quer mais claro, primo Ourém?

— O rapto das Sabinas de que falei há pouco efetuou-se no meio de uma festa. Lembra-se?

— Muito pouco. Fui mau estudante de latim e já não sei por onde anda o meu Eutrópio.

— Os romanos convidaram os seus vizinhos para assistirem a uns jogos marciais; no meio do espetáculo os surpreenderam, e tomaram-lhes as filhas.

— A que vem agora a história romana neste sertão? Não me dirá?

— Olhe; as suas meias palavras seriam capazes de fazer-me desconfiar que esta montearia tinha o mesmo fim.

— E que lhe parecia o alvitre?

— Muito romano, primo, e bem vê, que eu, na minha qualidade de togado, sou pelos meios conciliadores, cedant arma togœ, como disse o velho Túlio.

— Não tenha susto. Tudo se há de fazer em boa e santa paz, eu o espero. Demais o capitão-mór não é homem com quem se arrisquem tais surpresas, pois anda sempre com boa escolta.

— No quer acho que obra como varão prudente, tornou Ourém, aproveitando o ensêjo para uma citação de Camões, que era seu poeta favorito:

«Eu nunca louvarei O capitão que diz, eu não cuidei.»

Tinham os dois chegado à beira de uma coroa de mato, onde já os esperavam Daniel Ferro e João Correia, parados ao pé de uma marizeira colossal.

Era alí o ponto designado para o encontro com o capitão-mór.

Ao cabo de breve espera, ouviram o tropel dos animais; e os cavaleiros correram pressurosos a saudar as senhoras que já apareciam por entre o arvoredo do tabuleiro.

Depois de trocadas as mais corteses saudações, seguiram juntas as duas cavalgadas.

— Temos uma excelente manhã para a nossa montearia, sr. capitão-mór, disse Marcos Fragoso.

— Excelente, em verdade, respondeu Campelo circulando com o olhar os horizontes, como quem ainda não se apercebera do tempo que fazia.

Arnaldo, a-pesar-de preparado para o encontro, não pôde conter o movimento de repulsão que arrancou-lhe a chegada de Marcos Fragoso. Como, porém, estava afastado, ninguém reparou no seu gesto, nem percebeu o olhar com que êle marcava o destruidor de sua felicidade.

Desde então, o sertanejo que já se mostrava esquivo, afastou-se ainda mais e, a pretêsto de não estorvar o caminho aos outros, desviou-se para o lado e seguiu por dentro do mato.

Um só instante, porém, não tirava os olhos de Marcos fragoso. Atento ao seu menor gesto, cogitava entretanto consigo no que podia ocorrer nesse passeio, cujas consequências êle ia conjeturando.

Como bem se presume, o sertanejo desde a noite em que ouvira a conversa do Fragoso e seus amigos na varanda da casa do Bargado, não perdeu mais de vista o homem a quem êle considerava seu maior inimigo.

Nessa observação o auxiliava muito o velho Jó, que nos longos anos vividos no deserto adquirira a sagacidade de um índio.

Depois da volta de Arnaldo à fazenda, o capitão-mór nunca mais falou do velho, nem aludiu ao fogo da capoeira. Era fato que parecia não ter existido para êle. E como não fosse crível que o capitão-mór deixasse ficar sem punição um caso tão grave, a gente da fazenda teve como certa a morte do solitário. Havia quem afirmasse que êle fôra devorado pelas chamas, pois ainda lhe encontrara um resto dos ossos queimados. O João Coité, porém, protestava, jurando por todos os santos, que Jó andava ao redor da casa em figura de lobishomem, e que êle já o tinha encontrado uma vez.

Livre, pois, o velho das perseguições que sofria, consentiu Arnaldo que êle deixasse furtivamente a gruta onde o abrigara, para ocultar-se nas vizinhanças do Bargado e trazê-lo ao corrente do que alí se passava.

O Marcos Fragoso não deu mais um passo que o sertanejo não soubesse; seguia-o como sua sombra, e por mais de uma vez o vira aproximar-se da Oiticica na esperança de fazer-se encontrado com D. Flor.

Foi assim que êle descobriu a Bonina, e atinou com a razão do sumiço inexplicável da novilha, cujos rasto o Inácio Góis e a sua gente não puderam descobrir.

Tinha sido uma proeza do Aleixo Vargas, que laçara a novilha no pasto e a levara aos ombros até o curral da fazenda do Bargado. O Marcos Fragoso aplaudira a lembrança; e preparou-se para no dia seguinte conduzir êle mesmo a fugitiva, toda enfeitada de nastros de fitas, e restituí-la à sua gentil senhora.

A porteira do curral, porém, amanheceu aberta; e não houve mais notícia do animal. Os cães de vigia não tinham latido durante a noite para dar sinal, de modo que não se compreendia como se dera a fuga. O Moirão persignou-se; e assentou para si que alí andavam artes de Arnaldo ou bruxarias, o que vinha a dar no mesmo.

Quando, pois, três dias antes chegara à Oiticica o convite do capitão Marcos Fragoso para uma montearia, Arnaldo adivinhou que o mancebo desejava, antes de pedir a mão de D. Flor, mostrar ainda uma vez à donzela sua bizarria e captar-lhe a admiração.

Nessa mesma noite, porém, observou êle uma circunstância que o pôs de sobreaviso.

Tinha chegado à fazenda do Bargado na véspera um bando de gente armada; vinha dos Inhamuns, donde com certeza a fôra chamar um próprio, que o Arnaldo vira partir oito dias antes.

Além disso notou o sertanejo nessa e nas seguintes noites uma arrumação e movimento d’armas de toda a casta, que mesmo para aqueles tempos de falta de segurança, eram desusados, e indicavam preparativos de alguma expedição.

Na véspera tornara êle já noite alta à sua rede na copa do jacarandá, bem convencido de que o Fragoso tramava alguma coisa; e essa convicção ainda o dominava naquele momento.

Também não lhe escapou a quantidade de vaqueiros e pagens que formavam a comitiva do dono do Bargado; entretanto não era isso que mais o inquietava; porém o receio de um perigo vago e indefinido, que êle sentia agitar-se em tôrno de si, mas que não podia apreender.