O Tronco do Ipê/II/II

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O Tronco do Ipê por José de Alencar
Alvíssaras

Chegava Alice ao quintal quando ali entrava pela porta do pátio o Sr. Domingos Pais.

Mas de que maneira entrava?

Horizontalmente, em postura de natação e com um arremesso que o levou até o meio do terreiro, onde estrebuchou um momento e esparramou-se.

O infatigável compadre fora por ordem de Alice buscar a toda a pressa na vila cravo e canela; chegava mui satisfeito da comissão, quando ouvindo alarido no quintal, botou o rucinho para a porta. Era o momento em que as raparigas corriam julgando ser Mário.

O rucinho, animal pacato, de uma pachorra inalterável, parou logo; mas o Sr. Domingos Pais com o entusiasmo em que vinha saiu-lhe pelas orelhas e aboborou-se no chão. As pretas o rodearam pensando que estivesse morto, pois a trouxa não dava sinal de si.

De repente porém o compadre pôs-se em pé, mui fresco e lampeiro, como se nada lhe tivesse acontecido. Deu conta da incumbência, e passou a provar dos bolinholos e doces arrumados nos tabuleiros, emitindo sua opinião a respeito de cada espécie. O homem também entendia de massas e era forte em receitas.

— Está bem, Senhor Domingos Pais; vá cuidar da capela. Os arcos ainda não estão prontos.

— Faltavam-me uns seis palmiteiros. Aquele peralta do Martinho não sei onde se meteu!... Já disse ao feitor que mande cortá-los. Agora mesmo no caminho vi uma touceira deles bem bonita.

— E o coreto da música?

— Isso é lá com o carpinteiro.

— Não incumbi ao senhor de apressá-lo?

— Mas aquele sujeito, D. Alice, é um malcriadão muito atrevido. Com ele não me meto.

— Eu lá vou daqui a pouco.

— Tudo o mais está pronto; as colchas pregadas; as galhetas cheias; as velas aos castiçais!... Ah! é verdade; ainda não recebi as rosetas e as palmas para enfeitar o bocal...

— O Lúcio e o Frederico estão cortando.

— Então já sei que os castiçais este ano ficam sem enfeite.

— Por que razão?

— Ora, rapazes... Ainda mais quando vem moça da Corte.

— Não seja falador, Senhor Domingos Pais! Eu dei tarefa a cada um, e Adélia me prometeu que havia de puxar por eles.

— Veremos, disse o compadre lançando o olhar para uma bacia que tiravam do forno. Como estão cheirosos estes manuês! São feitos só com o leite do coco, sem o bagaço?... É a minha receita. Devem estar excelentes.

Em ato contínuo esvaziou cinco ou seis forminhas.

— Nhanhã, o Senhor Domingos Pais dá conta da bacia.

O compadre eclipsou-se antes que a menina acudisse ao chamado e visse a devastação feita por ele nos preparativos da festa.

— Que maçante!

A mãe Paula, a cujo cargo estava a criação das aves e gado miúdo, já há pedaço esperava encostada na ombreira da porta do quintal que a moça reparasse na sua presença. Afinal, vendo que perdia seu tempo, resolveu-se a falar.

— Nhanhã não vem apartar?... Depois fica tarde.

— Ah, é verdade, mãe Paula. Espere um instantinho, enquanto vou mudar a roupa. Está vendo! Deitei um vestido bonito para esperar o Senhor Mário, que vem de Paris acostumado a ver as moças do tom e fiquei neste estado!

— Que pena! Está perdido!

— Nhanhã tem tantos! observou a Eufrosina afagando o vestido já com olhar de sucessora.

— Agora Mário pode chegar quando quiser que me há de achar como eu estiver. Sou roceira!... exclamou Alice a rir.

— Sai daí, nhanhã! exclamou Paula atuando a menina com a familiaridade da preta velha. Não zomba da gente!

Alice subiu correndo os degraus da escada. Tinha a linda moça em seus movimentos aquela mesma gentileza e vivacidade, que em menina a faziam titilar de impaciência e travessura. Aprontava o seu trajo com a mesma rapidez e garridice do passarinho que rasa a água e se espaneja.

Momentos depois saía ela de seu toucador com um vestido de cassa de listras azuis; seu chapéu à pastora ligeiramente pousado sobre os anéis soltos dos cabelos loiros, e uma bolsa de palha no braço.

Tirando uma chave na gaveta do toucador, foi Alice ainda uma vez examinar o aposento preparado para Mário, e de cujo arranjo não consentiu que ninguém mais se incumbisse senão ela.

Tudo aí estava em seu lugar; a cama de mogno encomendada para a Corte, a secretária francesa, o guarda-roupa e as estantes. Ao lado do lavatório pendia a toalha de rosto, aberta em labirinto, e na cabeceira do leito dois travesseiros de seda azul debuxavam o crivo das lindas fronhas e o M bordado no centro de um florão oval.

Algumas flores de jasmim espalhadas pela cobertura da cama e sobre o mármore do lavatório tinham impregnado os móveis de um perfume natural e suavíssimo.

Todos os dias Alice visitava o quarto que já estava pronto desde muito, e de cada vez tinha sempre, ou uma cousa a endireitar, ou um esquecimento a reparar. Naquele dia levava uma almofadinha de alfinetes, que deixou sobre a cômoda.

Antes de examinar os trabalhos rústicos necessários à festa, a menina lembrou-se de passar pela varanda, a fim de ver o estado em que estavam os preparativos da sala, incumbidos aos hóspedes. Não deixava de dar-lhe algum cuidado a falta dos recortes de papel para os castiçais da capela e a profecia que o Sr. Domingos Pais fizera a este respeito.

Na varanda talvez não se trabalhasse tanto, porém com certeza falava-se mais do que em qualquer outro ponto. Além dos hóspedes, que haviam almoçado na Casa Grande, estavam mais o vigário e o subdelegado. O primeiro viera como de costume na antevéspera para examinar se os paramentos e necessários da capela estavam completos e nada faltava para a missa. O segundo aproveitara a companhia do reverendo para fazer sua visita especial ao Conselheiro Lopes.

Próximo à janela, em uma banquinha oval, Adélia enfeitiçava o Lúcio e o Frederico sentados a um e outro lado. Os olhares dos dois moços pareciam abelhas em torno de um botão de rosa, guardado por manga de vidro. A elegante carioquinha descrevia com entusiasmo os seus primeiros bailes, que tinham sido os daquele inverno. Arrebatados pela melodia da voz tão meiga, pelo gracioso deslace da boca mimosa, e pelo gesto faceiro que parecia gravar n'alma cada pensamento, os moços estavam como enlevados. As mãos imóveis abandonavam as tesouras sobre as folhas de papel ainda intactas.

Junto ao piano, D. Luíza tinha com D. Alina uma conversação muito interessante para ambas; pois versava a respeito de Adélia e de Lúcio. As duas mães suspeitavam que havia entre eles uma afeição nascente que as contrariava, pois a viúva sonhava para seu filho a mão de Alice, assim como a mulher do conselheiro deitava os olhos sobre o Frederico, que achava um genro muito do seu gosto.

Sem confessarem, nem os receios, nem as esperanças que nutriam, as duas senhoras se adivinhavam, e indiretamente dispunham o espírito uma da outra em seu favor. O conselheiro era amigo íntimo do barão, e D. Alina, diziam que tinha seu condão sobre o Comendador Monteiro, pai de Frederico.

No sofá discutiam o conselheiro, o vigário e o subdelegado; tratavam de política.

Os sete anos decorridos tinham arredondado a bonita calva do conselheiro, mas não tinham realizado as tão lisonjeiras esperanças ministeriais; os amigos e colegas a quem já tocara a pasta alguma vez, diziam constantemente:

“Em vez de perder, ganhaste. Não imaginas a posição humilhante em que se acha colocado um homem de caráter, quando tem a desgraça de ser governo neste tempo e neste país.”

Mas o nosso conselheiro era homem prático, e gostava de conhecer as cousas por experiência própria, sobretudo quando ele via frequentes exemplos de reincidirem uma e duas vezes na humilhação, os mesmos que lhe faziam tão feia descrição do ministério.

O vigário e o subdelegado não tinham feito diferença; a não ser que o primeiro esquecera metade de seu latim e criara mais algumas roscas na papada, e o segundo perdera completamente a ligeira tintura de código e lei de reforma, mas em compensação ganhara uma tal destreza eleitoral que seria capaz de empalmar uma chapa ao próprio satanás encarnado em votante.

O conselheiro perorava e para não perder os hábitos e maneiras parlamentares, apoiava as mãos sobre o recosto de uma cadeira, onde nos momentos de entusiasmo estalava o lápis apertado entre o polegar e o indicador da mão direita.

Era esse o aspecto da varanda no momento em que Alice apareceu à porta.

— Muito bonito! exclamou a menina que se aproximara sutilmente da banca. Assim é que se trabalha?

Lúcio e Frederico apanhados em flagrante, lançaram mão das tesouras, e atrapalhados começaram a recortar uma tira de papel. Quanto a Adélia, sua confusão traiu-se apenas por um ligeiro rubor, que ela desvaneceu com um sorriso faceiro e um gracioso momo de desdém.

— Acaba-se num instante! replicou Frederico mais senhor de si.

— Eu já tinha acabado, mas D. Adélia...

— Desculpe-se comigo, se lhe parece!

— Com licença! Deste modo antes não fazer! Ora vejam se isto tem figura de palma. Parece mais um nariz...

— É o do Lúcio? acudiu Frederico rindo.

— Está engraçado!

— Pois basta de retratos. Onde está o molde que eu deixei? Aposto que já perderam. Se eu duvido!... Ora!... embaixo da mesa, e rasgado. Quem fez isto?

— Eu não fui! dizia Adélia muito vermelhinha.

— Foi ela mesma! exclamaram os dois a rir.

— Ah! foi a senhora? Pois por castigo há de dar uma prenda.

Dizendo isto, Alice tirou um dos brincos da amiga e escondeu-o no bolso, ameaçando-a travessamente com o dedinho mimoso.

— Tenho muito que fazer! Os senhores, vejam lá!... Se vadiarem outra vez, não se queixem amanhã à noite, quando eu os deixar sem pares para a quadrilha. Vêm muitas moças!

A ameaça aterrou os dois, com a lembrança do logro que sofreriam, ficando fora das contradanças; pois era a filha do barão quem ordinariamente escolhia os cavalheiros para suas amigas e convidadas.

— Olhe, D. Alice, até o jantar dou conta da minha tarefa! disse o Lúcio tesourando rijo no papel.

— Eu cá muito antes disso!

— Mas os recortes bem feitos, senão é mesmo que esperdiçar papel. Uma cousa tão fácil!...

Tomando a tesoura, a menina com a graciosa agilidade que tinha em todos os seus movimentos, recortou uma palma lindíssima toda rendada.

— Assim estragas as mãos, Alice! disse Adélia.

— Bem; logo volto. Quanto a V. Ex.a Sr.a Monitora, faça favor de ter mais cuidado com sua classe, do contrário fica demitida e vai... vai passear comigo.

— É verdade!... disse Adélia erguendo-se. Mas acredita, Alice, já não se usam esses enfeites de papel; na Corte não se vê mais disso em uma sala do tom. Agora há umas rosas de cristal, que são lindas!...

— Não estamos na Corte, minha faceira, mas na fazenda; e também temos cá nossas modas.

— Ora!

— Sério!... Quando éramos crianças, se enfeitavam os castiçais com estes recortes; hás de te lembrar que éramos nós e Mário quem ajudava ao Sr. Domingos Pais. Que anos fazem!... Pois essa é a minha moda, é a moda de meu tempo de menina, quando brincávamos tão contentes e felizes. Não quero outra!

— D. Alice!... Escute!

— O quê?

— Não basta as palmas inteiras e assim enrugadas com o cabo da tesoura? Anda mais depressa!

— Não, senhor; quero umas enrugadas e outras rendadas também.

— Pois sim, rendadas, com uma carreira de cortes.

— Ai! ai!... Três carreiras! Tal e qual como o modelo.

Enquanto Adélia punha o chapelinho de tafetá cor-de-rosa, Alice chegou-se ao piano. Sua presença vexou D. Alina também apanhada em falta, pois devia estar presidindo ao arranjo dos quartos dos hóspedes.

— Já está tudo pronto, D. Alina?

— Ainda não, minha flor, mas não tarda. Vim perguntar uma cousa a D. Luizinha, já vou... Ah! qual há de ser o do tal Mário?

— O Sr. Mário não é hóspede; tem seu quarto próprio; respondeu Alice secamente, e carregando na palavra senhor.

— Quando chega ele? perguntou D. Luizinha.

— A cada instante. E a nossa música do Natal, acertou?

— Estava ensaiando.

— Mas os versos, aposto que estão prontos. Não é verdade, Senhor Lopes?

O conselheiro tinha desfraldado os panos à eloquência; assim interpelado de chofre, engasgou-se como um deputado noviço quando recebe à queima-roupa um aparte de escachar no meio do recitativo de um improviso anunciado com duas semanas de antecedência.

— Os versos?...

— Querem ver que já os esqueceu!

— Qual! Estão prontos; só falta escrever, replicou o orador apontando para uma grande folha de papel ainda em branco, posta sobre a mesa.

Era Alice a primeira influência do colégio eleitoral, que o barão trazia no bolço; bastava esse título, quando não houvesse o de futura credora, para que o deputado condescendesse com todos os caprichos da moça. Todavia achou que era mais cômodo esgravatar na memória para lembrar-se de alguma cantiga de seu tempo de estudante. Estava nessa ocupação quando o interromperam os dois visitantes.

— Bom-dia, senhor vigário, já viu a capela?

— Para lá vou agora.

— O sr. barão está melhor, D. Alice? perguntou o subdelegado.

— Melhor, obrigada.

— Queira recomendar-me a ele.

— O senhor não janta conosco?

— Eu sei?

— Janta, pois então! disse o vigário. Voltaremos com a fresca.