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O Canto do Guerreiro

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O CANTO DO GUERREIRO[1]

I.


Aqui na floresta
Dos ventos batida,
Façanhas de bravos
Não gerão escravos,
Que estimão a vida
Sem guerra e lidar.
— Ouvi-me, Guerreiros,
— Ouvi meo cantar.

II.


Valente na guerra
Quem ha como eu sou?
¿Quem vibra o tacápe[2]
Com mais valentia,

Quem golpes daria
Fataes — como eu dou?
— Guerreiros, ouvi-me;
— Quem ha como eu sou?

III.


Quem guia nos ares
A frexa implumada.
Ferindo uma preza
Com tanta certeza
Na altura arrojada
Onde eu a mandar?
— Guerreiros, ouvi-me,
— Ouvi meo cantar.

IV.


Quem tantos imigos
Em guerras preou?
¿Quem canta seos feitos.
Com mais energia,
Quem golpes daria
Fataes — como eu dou?
— Guerreiros, ouvi-me:
— Quem ha como eu sou?

V.


Na caça ou na lide,
Quem la que me affronte?!

A onça raivosa
Meos passos conhece,
O imigo estremece,
E a ave medrosa
Se esconde no céo.
— Quem ha mais valente,
— Mais dextro do que eu?

VI.


Se as matas strújo
Co’os sons do Boré,[3]
Mil arcos se encurvão,
Mil setas lá vôão,
Mil gritos rebôão,
Mil homens de pé
Eis surgem — respondem
Aos sons do Boré!
— Quem é mais valente,
— Mais forte quem é?

VII.


Lá vão pelas matas;
Não fazem ruido:
O vento gemendo,
E as matas tremendo
E o triste carpido
D’uma ave a cantar.

São elles — guerreiros,
Que eu faço avançar.

VIII.


E o Piaga[4] se ruge
No seo Maracá,[5]
A morte lá paira
Nos ares frexados,
O campo juncado
De mortos é já:
Mil homens viverão,
Mil homens são lá.

IX.


E então se de novo
Eu tóco o Boré,
Qual fonte que salta
De rocha empinada,
Que vai marulhosa,
Fremente e queixosa,
Que a raiva apagada
De todo não é,
Tal elles se escôão
Aos sons do Boré.
— Guerreiros, dizei-me,
— Tão forte quem é?

Notas

  1. 1 Estes cantos para serem comprehendidos precisão de ser confrontados com as relações de viagens, que nos deixárão os primeiros descubridores do Brazil e os viajantes Portuguezes, Francezes e Allemães, que depois delles se seguirão.
  2. 2 Tacape — arma offensiva, especie de maça contundente, usada na guerra; nos sacrificios.
  3. 3 Boré — instrumento musico de guerra, pouco menor que o Figli; — dá apenas algumas notas, porem mais asperas, e talvez mais fortes, que as da Trompa.
  4. 4 Piagè — piaches — piayes ou piaga (que mais se conforma á nossa pronuncia), era ao mesmo tempo o Sacerdote e o Medico, o Augure e o Cantor dos indigenas do Brazil e d’outras partes da America,
  5. 5 Maracá — entre os Indios, o instrumento sagrado, como o Psalterio entre os Hebreos, ou o Orgão entre os Christãos; era uma cabaça ervada, cheia de pedras ou bazios, e atravessada por um hastil ornado de pennas multi-cores, que lle servia de cabo. O antigo viajante Rolonx Baro testemunha da veneração que os Indios he tributavão, chamavaa «Le diable porté dans une calebasse» o diabo dentro d’uma cabaça. A esta palavra vão alguns modernos buscar a etymologia da palavra — America.