O dia de ano-bom de 1835

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O dia de ano-bom de 1835
por Gonçalves de Magalhães
Poema publicado em Suspiros Poéticos e Saudades.


Vai-te, vai-te... Sepulta-te, não surjas
Do abismo do passado,
Ano, que para mim um século foste
De contínuos tormentos.

Vai-te, vai-te... Nem mais lembrança tua
A mente atribulada me enegreça;
Desaparece, passa como a nuvem,
Que o fúnebre palor da lua aumenta
Em sossegada noite;
Como um sonho, que agita a fantasia
De adormecido enfermo;
Ou como um pensamento malformado
No delírio da febre.

Mas como te olvidar, se a consciência
Ao grito da vontade se rebela?
E acintosa a memória inda conserva
Tua lembrança triste?
E sem cessar traidora fantasia
Malgrado meu me está representando
Mil desgostosas cenas?

Eterna ficará tua lembrança
À minha alma presente,
Para d'amarga vida despertar-me
Os passados reveses,
Como ao lado do altar pendente voto
O naufrágio recorda, e o salvamento.

Como depois de borrascosa noite,
Rutila alva serena,
Do seio do futuro inexaurível,
Novo ano, sai, assoma mais fagueiro,
E as lágrimas estanca,
Que pela dor mil vezes arrancadas,
Do coração aos olhos me subiam.

Faze que esta ilusão que a alma consola,
Esta esperança, último refúgio
Que na desgraça o malfadado encontra,
Núncio me seja de um melhor futuro.
Sê meu Íris de paz, e o meu santelmo.
Assaz desditas minhas juz me outorgam
De merecer-te ao menos um sorriso;
Assaz para um favor sofrido tenho.

Esta que ora desfruto paz serena,
Este descanso que piedosa destra
Concede a meu espírito agitado,
Este celeste sopro
De alma ventura que respiro agora,
Esta luz que me aclara,
Já deixa-me entrever porvir brilhante,
E o horizonte da Pátria me apresenta,
Da longe Pátria, tão por mim chorada.

Vem, ano-novo, vem; traze-me alegres
Notícias de meus pais, da Pátria minha.
Traze-me este consolo,
Este consolo ao menos, que me afague
Na distância em que vivo.
Outra ambição não tenho, outra... E o que pode
Minha alma cobiçar de mor valia?
Coração como o meu, ermo de inveja,
Exempto de vaidade, a pouco aspira;
Só de nobres desejos se alimenta.

E tornarei a ver-te, oh Pátria cara?
Teus montes saudarei? tuas florestas?
Teus rios? e o teu céu azul sem nódoa?
Ainda abraçarei os pais anosos?
Mas em que dia? Quando? Como tarda!

Vem, ano-novo; vem, minha esperança!
Por ti eu suspirava.
Qual um amante pelo bem amado.
Vem, oh núncio de paz; vem consolar-me.
Oxalá que não toques ao teu termo
Antes qu'eu volte ao paternal albergue.

Roma