O incenso do altar

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O incenso do altar
por Junqueira Freire
Poema publicado em Inspirações do Claustro.


I

 
Os sons do fácil órgão:
      A voz dos corifeus
As orações dos crentes:
      O susto dos ateus:
Tudo apregoa e prova:
      — Aqui domina Deus!—
 
Silencioso esteve,
      Há pouco, — o santuário:
Qual a mudez, que guarda
      Jazigo mortuário:
Qual o terror do nauta
      Em mar tumultuário.
 
As almas dos finados
      Erguiam-se do pó:
Chocando-se torvadas,
      Cruzando as naves só:
Contando às colunatas
      As ânsias de seu dó.

 
Fugiram já, — fugiram
      Dos sacros penetrais:
Qual foge de repente,
      Da mente dos mortais,
Do mal a triste idéia
      Com a dos bens reais.
 
Purificou-se o éter:
      Espectros mais não há.
Sobre eles cai a campa,
      E um oco baque dá.
Sumiram-se no abismo:
      Deus não nos ouve já.
 
 

II

 
Agora entoa o coro
      Hinos de compunção.
Levanta a voz dos crentes
      Altívola oração.
Ateu! — medita: é tempo
      De ainda haver perdão.
 
Não te comovem alma
      Os cantos dos cristãos?

As notas, que produzem
      Do organista as mãos?
As notas, que percorrem
      Do templo pelos vãos?
 
Nem das nuvens de incenso
      O quente recender?
Que vão nas mãos das auras,
      No teto esvaecer? —
Ímpio! tu não tens alma,
      Ou não na queres ter?
 
Vê como sobe o incenso,
      Quais globos de um bulcão.
Vê como cresce a reza,
      Quais lavas de um vulcão.
Vê como encanta a orquestra,
      Qual voz de um furacão.
 
Vê tanto entusiasmo
      Na face desses crentes.
Vê tanta confiança
      Em almas tão tementes.
Vê tanta fé em Deus,
      — No Deus que não consentes!
 
Se não te mente, oh ímpio,
      Esse sistema teu:
Se não

é como o riso
      De ambíguo fariseu:
Como o falar do hipócrita,
      Que também é ateu:
 
Que inferno de torturas
      A mente não te côa!
Ao doce som do órgão,
      Que pelos vãos reboa!
Aos cânticos sagrados,
      Que o povo e o coro entoa!
 
Ás preces do ministro,
      Que ao Cristo, por ti, ora!
Á face desse templo,
      Que os lábios te descora!
Que ao Deus, — que negas, ímpio, —
      E louva e reza e adora!
 
Compunge-te — e conhece
      De Deus a justa mão.
Vem comungar do cálix
      Dos gozos do cristão;
Que sentirás arroubos,
      Que terás alma então!
 
Vê como sobe o incenso,
      Quais globos de um bulcão!

E pelo teto rompe,
      Quais lavas de um vulcão!
E aos céus leva a fragrância,
      — Veloz, qual um pegão!
 
Vê como sobe o incenso,
      Que aromatiza o altar:
Suave, — qual a brisa
      Entre o fervor do mar:
Suave, —qual dos anjos
      O doce respirar.
 
 

III

 
Ai! — praza a Deus que breve,
      Tão breve como a flor,
Ardendo o incenso, — ardendo,
      Qual virginal rubor,
Transponha aos céus a alma
      Do triste trovador!