O mundo vai-se acabando

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O deão Andre Gomes Caveyra se introduzio de tal modo com êste prelado em desabono do poeta, que estimulado o dito fêz o seguinte.
por Gregório de Matos
Poema agrupado posteriormente e publicado em Crônica do Viver Baiano SeiscentistaOs Homens BonsA Nossa Sé da Bahia
Mote

O mundo vai-se acabando,
cada qual olhe por si,
porque dizem, que anda aqui

uma Caveira falando.

 
1Chegou o nosso Prelado
tão galhardo, e tão luzido,
tão douro, e esclarecido,
tão nobre, e tão ilustrado,
e não houve Prebendado,
que para o ir enganando
se lhe não fosse chegando;
mas só Caveira asnaval
é, quem co Prelado val:
O mundo vai-se acabando.
  
2Como não há de acabar-se,
se uma Caveira tão feia
ao Prelado galanteia
a risco de enamorar-se!
onde se viu galantear-se
o roxete carmesi
pela caveira de Heli?
não é mentira, é verdade;
pois para seguridade
cada qual olhe por si.
  
3Olhe por si cada qual,
e não se dêem por seguros,
sabendo, que anda extramuros
esta Caveira infernal:
ela anda pelo arrebal,
e dacolá para aqui,
eu por mil partes a vi:
o leigo, o frade, e o monge
não a imaginem de longe,
Porque dizem, que anda aqui.
  
4Aqui anda, e aqui está
rosnando sempre entre nós,
Deão com cara de algoz,
e pertensões de Bispá:
ele é, o que os pontos dá,
e os vícios vai acusando
com zelo torpe, e nefando,
com que nos bota a perder:
porque quem não há de crer
Uma Caveira falando.