O remorso da inocente

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O remorso da inocente
por Junqueira Freire
Poema publicado em Inspirações do Claustro.
À minha irmã Maria Augusta

Alma de serafim, prenda do Eterno,
Ai! quem te despenhou do céu à terra?


I


Pelo sinete do crime
Não é que está desbotada.
Não chora. Suspira apenas,
Por seus ais entrecortada.

Tristezinha corre os claustros,
Tristezinha a suspirar,
Vai junto à lousa das freiras
Ajoelhar-se a rezar.

Reza orações de finados,
Reza a seu anjo da guarda:
E da flor dos lábios dele
Perdão aos erros aguarda.


Não sabe o nome dos crimes,
Ás paixões não dobra o dorso;
Mas naquele peito ingênuo
Mora inquieto um remorso!

Como relíquias sagradas.
Conserva os primores seus;
Mas doe-lhe não ser ainda
Toda, toda — só de Deus.

II


Ei-lo, o remorso da virgem,
O remorso da inocência,
Que, como a idéia do Eterno,
Ameiga na consciência.

Rezou, rezou fervorosa,
Beijando seu relicário;
Arfou, — qual luz matutina
Tremendo no alampadário.

E um sorriso descorado
Descerrou-lhe lábio e lábio,
Como o palor que desenha
A fronte vasta do sábio.


Beijou a laje da campa,
— Da campa, que há de ser dela,
E vai cismar merencória
Na gelosia da cela.

— Por simpleza arreceando
Que algum fantasma não venha,
A correr, aos ares dava
Suas vestes de estamenha.

Que as trevas do claustro e as tumbas
Bafejam tremor sagrado;

E as virgens sempre imaginam
Erguer-se um morto a seu lado.

III


Cisma a virgem mansamente
Em pensa mentos do céu,
Mais cândida que as rolinhas,
Mais cândida que seu véu.

E cismava: — Ai! que eu não seja
Já para Deus menos bela,
Como a bonina que murcha
Que eu arranco da capela! —

E cismava: — Ai! que eu

não tenha
Um crime, sem eu saber!
Qual será? — Ontem de noite
Eu não pude adormecer! —

E cismava: — Ai! que eu não seja
Menos linda ao meu Senhor!
Já hoje eu corri do claustro:
Dos mortos tive temor...—

E cismava: — Ai! que eu não seja
Ré de um crime que eu não sei,
Bem como o inseto escondido
Na rosa que ontem cortei! —

Ei-la, a cisma da donzela,
Da filha da solidão;
Ei-lo, o remorso que esconde
Nas dobras do coração.

IV


O remorso do malvado
É desespero e loucura,
E a reminiscência dele
O coração lhe tortura.


Mas o remorso da virgem
Lhe cala na consciência,
Como a placidez do justo,
Como a visão da inocência.