Obras de Manoel Antonio Alvares de Azevedo (1862)/Fragmentos de cartas do autor/20 de julho de 1848

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Obras de Manoel Antonio Alvares de Azevedo (1862)Fragmentos de cartas do autor por Álvares de Azevedo
20 de julho de 1848
Carta endereçada a Luís Antônio da Silva Nunes, em edição de Domingos Jaci Monteiro

My Dearest.

S. Paulo, 20 de julho de 1848
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Nada por aqui tem occorrido de novo — nada digno de ser-te contado. Emquanto a mim, só tenho a dar-te uma noticia: estou fazendo uma imitação em versos do 5° acto do Othello de Shakspeare.

Sou homem das reacções como sabes — dei agora em não mostrar versos a ninguem: e aqui em S. Paulo não ha alma viva nem morta que lesse versos meus excepto os do album da O... que remetti-te já. Por isso ainda está virgem e inedita a minha imitação, que nem acabada ainda está. E’ longo de mais o que ha já feito para que eu possa mardar-te; por isso ficará para oitubro: e então juntos leremos o meu trabalho.

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Ante-hontem partiu paia Santos o... — um bom velho. Eu e mais rapazes o acompanhámos até legua e meia de distancia. Era noite quando voltámos. O céo estava nublado e escuro. Só se via d’um amarello avermelhado a estrada até uns vinte passos perder-se no escuro das mattas negras: parecia uma ponte em um lago de tinta. E alêm, lá ao longe se levantava a cidade, negra; e os lampeões abalados pela ventania pareciâo esses meteoros ephemeros que se levantão das paludes e que as tradições do norte da Europa julgavão espiritos destinados a distrahir os viandantes, a correrem sobre o pantano immenso e preto — ou estrellas de fogo, faiscas de alguma fogueira do inferno semeadas sobre o campo negro. E do outro lado, á minha esquerda, uma barra vermelha se estendia formando do lado do poente um segmento de circulo, no horizonte, e semelhava um reflexo de um incendio immenso que alastrasse um lado do globo.

Eu parei o cavallo, e admirei! — Tinha ido com outros, e tendo galopado, os outros ficárão-me no caminho. — Parei e admirei esse espectáculo bello! — essas nuvens côr de cinza e enfumaçadas — esse céo ermo de estrellas... E a briza balsamica embatia e sacudia estremecendo-as as capoeiras, e silvava nas arvores, nos outeiros; e sósinha, por entre a mudez da noite que se approximava, uma ave desconhecida descantava o seu hymno de adeus ao dia que morrêra nas trevas...

E então, meu Luiz, eu senti como que exhalar-se de mim também um hymno de tristeza, languido como um adeus — mas, se de lagrimas, menos amargas. — E esse cantico, esse pensamento tão dóce a incensar-me a mente, era uma idéa de saudade, — e eras tu.

E bem longos trez mezes tem ainda de correr até que esta minha saudade se cale. Ella é doce — de certo — que é bem doce o pensamento de ter-se um amigo ainda que ausente: é bem doce, mas d’uma tristeza despedaçadora que prostra o coração.

«Meus prazeres
Forão só meus amigos — meus amores
Hão de ser neste mundo elles sómente.»

Se eu quizesse algum dia descrever o sentimento — como eu o experimento — da amizade, não acharia de certo dous versos que o traduzissem melhor.

Azevedo.