Obras poeticas de Ignacio José de Alvarenga Peixoto (1865)/Advertencia sobre a presente edição

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Obras poeticas de Ignacio José de Alvarenga Peixoto por Joaquim Norberto de Souza e Silva
Advertencia sobre a presente edição
ADVERTENCIA
SOBRE A PRESENTE EDIÇÃO


De fertil imaginação e dotado do brilhante talento de improvisar, Ignacio José de Alvarenga Peixoto poderia figurar entre os poetas brasileiros mais fecundos, como autor de numerosos volumes de bellas producções poeticas. Todas as suas obras, porém, tiverão o mais deploravel fim! De envolta com os bens que lhe sequestrárão, ou forão levadas á hasta publica, e vendidas em almoeda com os mais insignificantes objectos de seu uso, ou, o que é mais de presumir, ficárão em poder de seus juizes, que pouca importancia, ou nem mesmo importancia alguma, lhe derão.

Obras volumosas, como a traducção do italiano da Merope de Maffei, ou como o drama original e em verso Ênéas no Lacio, e considerável numero de poesias ligeiras, tudo consumirão, e para sempre, a incuria de seus juizes e a desgraça de seus descendentes! E o poeta que deveria apresentar-se rico e opulento aos olhos da posteridade, eil-o ahi apenas recommendado pela tradição das composições que fez, e pelas diminutas producções que nos restão, bellas reliquias de sua malfadada musa:

Farpados restos do traquete roto! (1)

Vinte sonetos, duas lyras, tres odes incompletas, uma cantata, a que deu o titulo de Sonho, e um canto em oitava rima, eis tudo quanto pude colleccionar de tão distincto poeta!... A maior parte dessas obras já se acha impressa, mas é a primeira vez que ellas apparecem colleccionadas e no maior numero possível.É tambem nova a biographia do autor, baseada em documentos historicos que ahi vão na sua integra, e que differe muito das publicadas até aqui. Ha pois sempre alguma novidade n’este livro, que vem buscar o seu lugar de honra na Brasilia de par em par com os volumes já impressos de T. A. Gonzaga e M. I. da Silva Alvarenga.

Colligindo estas e outras obras de nossos autores mais ou menos afamados, tenho tido todo o cuidado em examinar a maneira por que forão publicadas, quando e por quem, declarando igualmente como obtive as composições inéditas. Ha n’isso pelo menos a vantagem de mostrar a sinceridade e lisura com que trabalho.

E pois, seguindo esta obrigação a que me impuz, mostrarei onde se encontrão as obras que figurão n’esta limitada collecção.

Debaixo da fórma de soneto compôz o autor a maior parte de suas poesias. O que sobretudo admira é que apenas em toda a sua vida só publicasse dous sonetos!

O primeiro sahio á luz em 1769 com o poema Uraguay de seu amigo José Basilio da Gama, e começa:

Entro pelo Uraguay; vejo a cultura. (2)

O segundo foi distribuído em avulso, no annno de 1775, com as demais poesias que se imprimirão por occasião da inauguração da estatua equestre do rei D. José I, e principia:

America sujeita, Asia vencida. (3)

Vinte e um annos depois da morte do autor publicou-se o seguinte no Patriota, e foi depois reproduzido no Parnaso brasileiro:

Por mais que os alvos cornos curve a lua. (4)

Ao conego Januario da Cunha Barbosa deve-se a publicação dos seguintes no seu Parnaso brasileiro (5):

Primeiro:

Nas azas do valor em Accio vinha. (6)

Segundo:

Se armada a Macedonia o Indo assoma (7)

Terceiro:

A mão que a terra de Nemen agarra. (8)

Quarto:

Do claro Tejo á escura foz do Nilo. (9)

Quinto:

Honradas sombras dos maiores nossos. (10)

Sexto:

Nem fizera a discordia o desatino. (11)

Setimo:

Eu vi a linda Estella e namorado. (12)

Oitavo:

Não cedas coração, pois n’esta empreza. (13)

Nono:

Expõe Theresa acerbas mágoas cruas. (14)

Decimo:

A paz, a doce mãi das alegrias. (15)

Undecimo:

Amada filha, é já chegado o dia. (16)

Convem notar-se que os sonetos oitavo ,nono, decimo e undecimo forão impressos no Parnaso brasileiro, logo após uma canção a Luiz de Vasconcellos e Souza por Manoel Ignacio da Silva Alvarenga, e com a rubrica do mesmo, o que faria suppôr que erão elles de Silva Alvarenga, se no indice das materias não fossem dados como de Alvarenga Peixoto, e na errata não se rectificasse este engano (17). O ultimo, ainda mesmo a não haver taes corrigendas, jámais poderia deixar de passar por obra de Alvarenga Peixoto, á vista da defesa do Dr. José de Oliveira Fagundes (18).

Vem também no Parnaso brasileiro o soneto:

Peitos que o amor da patria predomina. (19)

E é Basilio da Gama quem figura como autor, quando entre as poesias ineditas, que possuo de Alvarenga Peixoto, encontro o nome d’este ultimo firmando o mesmo soneto. Sendo elle feito ao casamento do tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrade, em Minas-Geraes, ao tempo talvez em que Basilio da Gama se achava na Europa, e sendo igualmente mais intimas as relações de amizade entre Alvarenga Peixoto e o tenente-coronel Francisco de Paula, do que entre este e Basilio da Gama, é mais de presumir que o soneto pertença ao desterrado de Ambaca do que ao protegido do marquez de Pombal (20).

Na Mscellanea poetica (21) publicou-se o seguinte:

Eu não lastimo o proximo perigo. (22)

Apparecem agora pela primeira vez os quatro seguintes, que me forão confiados pelo meu amigo o Sr. Carlos Augusto de Sá.

Primeiro:

O pai da patria, imitador de Augusto (23)

Segundo:

Quão mal se mede dos heróes a vida. (24)

Terceiro:

De meio corpo nú sobre a. bigorna. (25)

Quarto:

Não me afflige do potro a vka quina. (26)

Restão-nos apenas duas lyras de Alvarenga Peixoto.

A primeira, o Retrato de Anarda, appareceu no Parnaso (27) e Novo Parnaso brasileiro (28).

A segunda, a D. Barbara Heliodora, sua esposa, escripta nos carceres da Ilha das Cobras, sahio na Miscellanea poetica (29).

Possuimos só duas odes de Alvarenga Peixoto, ambas publicadas posthumamente no Parnaso e Novo Parnaso brasileiro.

A primeira é dirigida a Sebastião José de Carvalho e Mello, marquez de Pombal (30).

A segunda é dedicada á rainha D. Maria I (31).

Reuni a esta collecção os fragmentos de uma ode, notavel pela importancia que lhe derão os juizes da devassa que se pro cedeu em Minas-Geraes (32). A poesia, pelos seus laivos de revolucionaria, veio a merecer as honras de ser appensa á mesma devassa, sorte que infelizmente não tiverão as demais producções do autor, o que por certo concorreria para quebrar a aridez de tão tediosa peça official, além do serviço que prestava á gloria do poeta e á posteridade.

Existe ainda uma ode impressa, que poderia passar por obra de Alvarenga Peixoto. E’ a ode a Affonso de Albuquerque, que foi dada no Parnaso e Novo Parnaso brasileiro como composição de Domingos Vidal Barbosa (33), mas que imprimio-se anteriormente na Collecção de poesias ineditas (34) como de João Ignacio da Silva Alvarenga, nome que parece ser mais de Manoel Ignacio da Silva Alvarenga do que de Ignacio José de Alvarenga Peixoto. Annexei-a ás obras de Silva Alvarenga (35), e lá verá o leitor as razões que tive para me decidir por esse alvitre.

O Sonho é uma cantata que vio a luz da imprensa na collecção do conego Januario da Cunha Barbosa (36). Corria, porém, pela mão dos curiosos, transfigurado em repetidas cópias, e poeta houve que pensou, talvez, que jámais se publicasse a poesia de Alvarenga Peixoto, e por isso se apropriou do seu pensamento e imagens, commettendo publicamente um plagio vergonhoso, como ainda o praticão por ahi muito a seu salvo as gralhas litterarias. Tal é por sem duvida a ode publicada em 1822, sete annos antes da poesia original, sob o titulo: O Brasil visto em sonho e no antigo trajo agradecendo ao principe regente o haver-se declarado seu defensor perpetuo (37).

O Canto epico em oitava rima, dirigido ao governador D. Rodrigo José de Menezes, por occasião do baptisado do filho d’este capitão-general, é a mais extensa das poesias de Alvarenga Peixoto. Deve-se a sua publicação ao livreiro portuguez Desiderio Marques Leão (38), sendo depois reimpressa pelo conego Januario da Cunha Barbosa no Parnaso brasileiro (39).

Figurão tambem n’esta collecçâo, em ultimo lugar, as sextilhas Conselhos a meus filhos. É bem sabido que essa composição impressa no Parnaso brasileiro (40) e attribuida a Alvarenga Peixoto, é antes producção de sua esposa D. Barbara Heliodora, a celebre poetisa, de quem apenas nos restão esses poucos versos (41).

Ha quem pretenda que pertenção a Alvarenga Peixoto as poesias anacreonticas que vêm na collecçâo de Claudio Manoel da Costa, sob o nome pastoril de Eureste Phenicio (42).

Apezar dos esforços que empreguei para vir no conhecimento do nome pastoril de Alvarenga Peixoto na Arcadia ultramarina, nada absolutamente consegui (43). Presumo que fosse antes o Alceu tão decantado por Thomaz Antonio Gonzaga na sua inimitável Marilia de Dirceu (44).

Tambem não o tenho pelo autor das Cartas chilenas, que bem o póde ser algum poeta menos conhecido do que esses cujos nomes se nos tornárâo tão familiares (45). Villa-Rica era n’esse tempo a Arcadia do Brasil e os seus poetas innumeraveis. Só lhes faltava a imprensa, causa da perda de tantos e tão importantes manuscriptos (46).

Notas[editar]

(1) Verso de Basilio da Gama, no soneto a Nossa Senhora Madre de Deos, citado por Américo Elysio (José Bonifácio) no prologo de suas Poesias avulsas, em identicas circumstancias.
(2) É o ultimo, isto é, o vigesimo d’esta collecção. Inclui-o tambem na collecção das obras de José Basilio da Gama, e figura entre os sonetos.
(3) Foi impresso com o seguinte titulo: Na inauguração da estatua equestre consagrada á memoria d’el-rei nosso senhor no faustissimo dia 6 de Junho de 1775. — Soneto. No fim lè-se: Do Dr. Ignacio José de Alvarenga. É o segundo da presente collecção.
(4) Patriota, v. II, n. 1, p. 46, e Parn. bras., t. I, cad. 1, p. 19. É o sexto d’esta collecção. O ultimo verso do primeiro terceto lia-se assim:

Para as humidas grutas do Oceano.

Na errata manda-se ler:

Pelas humidas grutas do Oceano.

(5) Parnaso brasileiro ou Collecção das melhores poesias dos poetas do Brasil, tanto ineditas como já impressas, 2 vol. in-4, Rio de Janeiro, 1829-1831.
(6) Parn. bras., t. I, p. 17. É o undecimo d’esta collecção.

Parece incrivel que o erudito conego Januario da Cunha Barbosa imprimisse este soneto como feito num outeiro por occasião de saber-se da nomeação de um bispo! E é ainda o mesmo conego quem o affirma na Breve noticia sobre a vida de I. J . de Alvarenga Peixoto, Parn. bras., t. II, cad. 7, p. 3, quando diz: «A sua reputação como poeta firmou-se em annos bem tenros, tanto que Alvarenga Peixoto apenas contava quatorze annos de idade quando improvisou o excellente soneto sobre a nomeação de um bispo, que já publicámos no primeiro tomo do Parnaso brasileiro, cujo mote era:

Nomêa vice-Deos o grande Augusto.

Se a nomeação do bispo e o assumpto do soneto não me parecessem um verdadeiro enigma, por certo que deixaria passar o soneto como uma poesia inintelligivel para mim; quiz, porém, decifrar o enigma e não vi mais do que a guerra de Octavio e Antonio, a batalha de Accio, em que Antonio é vencido pelo seu rival, que ainda vai procural-o ao Oriente, onde o força a suicidar-se, e, na sua volta triumphante a Roma, recebe Octavio os títulos de imperator e augustus, e torna-se quasi um deos ou um vice-deos.

O primeiro verso do primeiro terceto, que se imprimio erradamente:

O fatal estandarte a Grecia enrole,

em vez de:

O fatal estandarte a guerra enrole,

tornava ainda mais enigmatico o misero soneto, subjugado por uma mitra e um baculo desconhecidos!

O penúltimo verso:

Antes que Roma e Roma se desole,

vai assim emendado:

Antes que Roma a Roma se desole,

que foi sem duvida como o autor o escreveu, e que sublime que não é elle!

(7) Parn. bras., t. I, cad. 1, p. 18. É o oitavo d’esta collecção.
(8) Parn. bras., t. I, cad. 1, p. 19. Este soneto, que é o decimo-nono d’esta collecção, parece ter sido dedicado a D. Rodrigo José de Menezes e Castro, que depois foi conde de Cavalleiros. Confesso que o seu assumpto foi sempre um enigma para mim.

Este verso:

Que ao longe apontas de teu rio a barra,

Acha-se impresso no Parnaso brasileiro d’este modo:

Que ao longe mostras de teu rio a barra.

Segui a lição da corrigenda que vem no fim.

Este outro:

O grande Castro em bronze, em ouro, em ferro,

que pelas erratas deveria ser, não sei com que razão:

O grande Castro em bronze, d’ouro e ferro,

vai assim emendado:

O grande Castro, d’ouro e bronze e ferro.

(9) Parn. bras., t. I, cad. 1, p. 20. Este soneto, que é o terceiro n’este livro, foi feito em 1777. O rei D. José I falleceu no dia 23 de Fevereiro d’esse anno.
(10) Parn. bras., t. I, cad. 1, p. 20 . É o setimo d’esta collecção.
(11) Parn. bras., t. I, cad. 1, p. 21 . Os poucos ou nenhuns conhecimentos que tenho da genealogia portugueza ou brasileira me não permittem saber quem seja a illustre matrona tão decantada n’este soneto, que é o decimo-terceiro n’esta collecção. O que é certo é que os poetas se enthusiasmárão com a tal D. Joanna, e que Basilio da Gama, tambem inspirado por ella, lhe dedicou o seguinte soneto:

A idade, aquella idade, que primeiro
Vio em mão delicada o sceptro e o mando,
E a Egypcia, que a ruina pôde amando
Duas vezes causar ao mundo inteiro:

Que vio levada de furor guerreiro,
Parte da trança negra ao vento dando,
Correr c’um peito atado, outro ondeando
A usurpadora mãi do Assyrio herdeiro:

Que vio co’ a mão, que erguêra uma cidade
Confundir com o dom da mão troyana
Um resto de fraqueza e de saudade;

Que ultrajada belleza, alma romana,
Vio nadar o seu sangue; — aquella idade
Tudo não vio porque não vio Joanna!

O soneto de Alvarenga Peixoto parece ter sido feito como que em continuação do de Basilio da Gama.

(12) Parn. bras., t. I, cad. 4, p. 57. É o decimo-quarto d’este livro.
(13) Idem. É o decimo-quinto.
(14) Idem, p. 58. Tenho tambem este soneto em manuscripto com a seguinte nota: «Feito em Mafra em 1795 por occasião de S. M. assistir a uma sessão da academia.» A ser assim ha todavia erro de data. N’esse anno, segundo se diz, já o autor estava na eternidade.
(15) Parn. bras., t. I, cad. 4, p. 59. É o quinto n’esta collecção.
(16) Parn. bras., t. I, cad. 5, p. 41. A bella Maria Iphigenia completava então o seu setimo anno de idade. Foi portanto este soneto, que é o duodécimo da collecção, composto no anno de 1786, pois nascera aquella menina em 1779. V. nota 75.
(17) Parn. bras., t. I, cad. 4, indice p. 80 e erratas p. 84.
(18) V. Peças justificativas, v. Def. do proc. dos réos.
(19) Parn. bras., t. I, cad. 1, p. 63. É o que vai em decimo-sexto lugar.
(20) Já estava escripto este trecho, quando, tornando a rever as erratas do Parnaso brasileiro, achei que o conego Januario da Cunha Barbosa corrigio esse engano. A causa de semelhantes trocas explicou o illustre editor na Introducção da sua obra, escripta depois da impressão dos quatro primeiros numeros do primeiro tomo, pela seguinte maneira: «As muito bem acabadas producções dos melhores engenhos jazião nas trevas do esquecimento, já por existirem ineditas em mãos avaras ou incuriosas, já por haverem sido dadas á estampa confusa e destacadamente em collecções a que nem sempre presidio o bom gosto. Os mesmos nomes dos mais abalisados autores de composições poeticas dignas de cedro e bronze andavão até trocados, e muitas d’ellas havia, e não das menos distinctas, que corrião anonymas, por se ignorar completamente quem fossem os seus verdadeiros escriptores.»
(21) Miscellanea poetica ou Collecção de poesias diversas de autores escolhidos, 1 vol. i n- 4, Rio de Janeiro, 1855. Foi publicada pelo Sr. Elias Mattos, p. 71.
(22) O editor não affirma que este soneto seja de Alvarenga Peixoto. Diz parece de I. J. de Alvarenga. Possuo, porém, o manuscripto de que elle se servio com a assignatura do poeta.

O segundo verso, que no manuscripto se lê assim:

Nem a escura prisão estreita e forte,

acha-se impresso na Miscellanea poetica d’este outro modo:

Uma escura prisão estreita e forte.

Conservei a lição do manuscripto. É o decimo-setimo n’este livro.

(23) É o primeiro d’esta collecção.
(24) Figura em nono lugar.
(25) Este soneto, que vai em decimo lugar, é escripto da propria mão do autor, segundo julgo pelo conhecimento que tenho de sua lettra.

Possuo ainda um soneto inedito, com a sua assignatura, que assentei de não juntar ás suas obras. Acho-o indigno do autor, e por demais offensivo aos heróes da emancipação da America ingleza, depois Estados-Unidos. Antonio José escrevia no fim de suas comedias as Declarações de fé. Alvarenga Peixoto compunha sonetos taes e quejandos. O que é certo é que a nenhum d’elles aproveitou o expediente. Não se acreditou nem na fé do judêo, nem na fidelidade do inconfidente. Um subio á fogueira, o outro partio para o desterro! A côrte de Lisboa era tão incrédula!...

(26) É o que vai em decimo-oitavo lugar. O conego Januario da Cunha Barbosa faz menção d’este soneto no Parn. bras., t. II, cad. 7, p. 6.
(27) T. I, cad. 2, p. 34.
(28) Novo Parnaso brasileiro ou Selecção de poesias dos melhores poetas brasileiros desde o descobrimento do Brasil, precedida de uma introducção historica e biographica por J. M. Pereira da Silva. 2 vol. in-12 ,Rio de Janeiro, 1843-1848. T. I, p. 117.
(29) P. 126. Ahi se lê De Ignacio José de Alvarenga, estando preso, á sua mulher.

As estrophes d’esta lyra terminão sempre com o estribilho, que n’esta collecção se supprimio:


Isto é castigo
Que amor me dá.

(30) Parn. bras., t. I, p. 9. N. Parn., t. I, p. 122.
(31) Parn. bras., t. I, p. 6. N. Parn., t. I, p. 126.
(32) Mal pensava o poeta que os seus bellos e harmoniosos versos, que deixou incompletos, terminarião por estas linhas prosaicas, muito prosaicas, do Dr. José Caetano Cesar Maniti: «Reconheço a lettra retro e supra ser do proprio punho do coronel Ignacio José de Alvarenga pelo perfeito conhecimento que da mesma tenho.» 1789 Autos de devassa que mandou proceder o Dr. desembargador Pedro José Araujo de Saldanha, ouvidor geral e corregedor d’esta comarca, por ordem do Illm. e Exm. Sr. visconde de Barbacena, governador e capitão-general d’esta capitania, sobre a sedição e levante que na mesma se pretendia excitar. Fol. 39. V. nas Peças justificativas o Auto de exame e separação feita nos papeis apprehendidos ao coronel de auxiliares da comarca do Rio das Mortes Ignacio José de Alvarenga, extrahida da mesma devassa á fol. 38.

Os estudiosos folgaráõ com encontrar aqui as variantes que existem no original d’essa ode não acabada, e ver a maneira por que o nosso poeta limava as suas poesias.

A quarta estrophe foi escripta assim:


   Não ha barbara féra
Que a razão e a prudencia não domine;
   Quando a razão impera,
Que leão póde haver, etc.


A palavra razão do segundo verso foi riscada e substituída pela valor, ficando o verso d’esta fórma:


Que o valor e a prudencia não domine.


Os dous primeiros versos da quinta estrophe erão:


     Prodiga a natureza
Fundou n’este paiz o seu thesouro,


e forão emendados assim:


    Que fez a natureza
Em pôr n’este paiz o seu thesouro.

A sexta estrophe começava com os seguintes versos:


      Qual formada nos ares
Em densa nuvem grossa tempestade,


que forão substituídos por estes:


      Qual sobre os densos ares
Horrenda tempestade já formada.


Não contente com essa substituição o poeta ainda fez uma terceira correcção, que é a seguinte:


         sobre os densos ares
Horrenda tempestade alevantada.


A setima estrophe era assim:


    Assim a grande Augusta,
Que vê o mal com animo paterno,
    N’uma mão sabia e justa
Vem collocar as redeas do governo;
Eu vejo a náo já livre da tormenta
Buscar o porto livre da tormenta.


E soffreu as seguintes alterações:


    Assim a grande Augusta
Que vê o mal com animo paterno,
    Em mão prudente e justa
Vem collocar as redeas do governo.
Eu vejo a náo, já do perigo isenta,
Buscar o porto livre da tormenta.


A emenda do penultimo verso parece ter sido feita antes da composição do ultimo verso, e a ode escripta de improviso e nunca passada a limpo, tanto mais que o autor a deixára de concluir. É escripta em tres paginas de meia folha de papel almaço, dobrada em quarto; a ultima está em branco.

(33) Parn. bras., t. I, cad. 1, p. 51; N. Parn., t.I, p. 244.
(34) Collecção de poesias ineditas dos melhores autores portugueses. 3 vol. in-16, Lisboa, 1809-1811. T. III, p. 31.
(35) T. I, p. 7, e notas 29 e 30.
(36) É a primeira poesia publicada no 1° cad. do t. I , á p.5.
(37) O autor occultou-se sob a mascara do incognito, omittindo a sua assignatura. A ode é a seguinte:

Em sonhos vi um Indio magestoso,
De presença gentil, altivo e forte:
Mostrava no semblante respeitoso
    Da alegria o transporte;
Barbaro o trajo, mas riqueza tanta
Dos miseros mortaes a vista encanta.

Zona de pelles de diversas côres,
Guarnecida de pedras preciosas,
Representa do sol os resplendores;
    Oh! que pennas mimosas!
Sobre o cocar, thesouro de riqueza,
É tudo quanto póde a natureza!

Cinto de curtas pennas recamadas
Tem em torno de si pennas compridas
De differentes côres matizadas;
    E as plumas fendidas
Formão ao todo um circulo composto
Lindo saiote da natura ao gosto.

Pendia ao tiracol de branco arminho,
Com rubins e saphyras, que encantava,
Concavo dente de animal marinho,
    Que lhe serve de aljava;
Porém as settas e o seu arco forte
Longe deixou, que já não teme a morte.

Rompe montões de apinhoada gente,
Procurando do paço a regia sala;
Eis que apparece o principe regente,
    E o Indio assim lhe falla,
Cheio de submissão e de respeito
Co’ as mãos cruzadas no constante peito:

« Venho a teus pés, ó principe sagrado,
Beijar a regia mão de agradecido
Por teres meus direitos sustentado
    Com valor desmedido,
Desmedido valor, prudencia e arte,
Dons conferidos só a Jove e Marte.

« Assim da Providencia a equidade,
Condoida de tanto soffrimento,
Em meus braços lançou a magestade,
    Quando a Europa em tormento
Vê os ultimos thronos abalados,
Monarchas presos, outros degradados.

« Fui então exaltado a reino unido
Pelo sexto João, piedoso e terno,
Mas tirou da ternura o seu partido
    A caterva do inferno,
Que reduzio do teu imperio nobre
O ouro e a prata a só papel e cobre.

« Gemia Portugal, tudo gemia,
Em desgraça fatal e sorte dura;
Apparece na Europa a luz do dia
    Para nós sombra escura;
Visto nossos irmãos d’esse hemispherio
Quererem captivar todo este imperio.

« Pedem o rei e a familia excelsa
A pretexto de amor e lealdade;
Vai o sexto João sem que conheça
    A encoberta maldade;
Elle emfim nos deixou, não de aggravado.
Visto deixar o seu penhor amado.

« Se a constituição era capaz
De nos abrir as portas da ventura,
Se desceu sobre nós anjo de paz,
    Novo sol de luz pura,
Como apparece negra a atmosphera
Vindo empestar a brasileira esphera?

« Embora que o congresso corrompido
Contra os meus interesses decretasse;
Os vis ferros já tinha sacudido,
    Tudo mudou de face;
Seguiremos a lei se a lei fôr justa,
Mas não tente campar á nossa custa.

« Proclamarem o bem a bem dos povos
Tanto da Europa como do Brasil,
E promulgarem dous decretos novos
    Com politica vil!...
Como já se acabou o despotismo,
Se apparece de novo um novo abysmo?

« Tres seculos vivi escravisado,
Arrastando grilhões de impiedade;
Acabou esse tempo desgraçado,
    Não soffro a iniquidade;
Tenho em ti defensor, tenho justiça,
Hei de calcar aos pés a vil cubiça.

« Protesto e juro ante o céo e a terra
De não temer combates sanguinosos
Té derrotar em defensiva guerra
    Monstros ambiciosos,
Que cegos da razão com sêde de ouro,
A’ brilhante nação causão desdouro.

« Não julgues, Portugal, em nós fraqueza,
Pelo estado do antigo soffrimento:
Este paiz, nascente, de riqueza
    E’ um novo portento:
O gigante Brasil inabalavel,
E’ pelo seu local inconquistavel.

« Nós temos conselheiros respeitosos,
Temos heróes de esphera sublimada,
Temos um príncipe, que nos faz ditosos;
    Vindo a paz desejada,
Que mais desejaráõ os filhos meus,
Seguindo as leis do verdadeiro Deos?»

Disse, e a beijar tornou a real mão
Do grande Pedro, defensor amado,
Que esteve attento ouvindo a narração
    Do Brasil exaltado.
Exaltado Brasil, agora é justo
Erguer-se a Pedro grande eterno busto.

(38) Jornal poetico ou Collecção das melhores composições em todo o genero dos mais insignes poetas potuguezes, tanto impressas como ineditas, offerecidas aos amantes da nação. 1 vol. in-8°, Lisboa, 1812, p. 128.

Quando colleccionei as poesias de Silva Alvarenga não tinha presente esta obra, nem me foi possivel encontral-a em bibliotheca alguma d’esta corte, e bem a meu pezar deixei de incluir as Oitavas ao govvernador de Minas-Geraes citadas pelo Sr. Innocencio Francisco da Silva no seu Diccionario bibliographico portuguez, estudos applicaveis a Portugal e ao Brasil, t. VI, p. 7, n. 700, como composição de Silva Alvarenga. Vejo agora, como então prevíra, que houve confusão de nomes, pela semelhança dos appellidos. As Oitavas ao governador de Minas-Geraes pertencem a Ignacio José de Alvarenga, como se lê no Jornal poetico, e não a Manoel Ignacio da Silva Alvarenga, e são as mesmas que, lidas annos depois n’uma das reuniões dos conjurados, pelo seu autor, enthusiasmárão a todos elles e foi coberta de applausos. V. nota 119, e tambem Obras poeticas de Silva Alvarenga, t. I, p. 85, nota 12.

(39) T. I, cad. 1, p. 12; O conego Januario da Cunha Barbosa classificou esta composição de Canto epico, e a meu ver mui impropriamente, e ajuntou Baptisando-se em Minas o filho do Exm. Sr. D. Rodrigo José de Menezes. O livreiro Desiderio Marques Leão chamou-a simplesmente Oitavas ao nascimento de D. José Thomaz de Menezes, filho de D. Rodrigo José de Menezes, governador de Minas-Geraes.

Esta poesia deve ter sido composta entre os annos de 1780 a 1783, pois D. Rodrigo José de Menezes e Castro, depois conde de Cavalleiros, tomou posse em 20 de Fevereiro de 1780 e passou depois o bastão de capitão-general a Luiz da Cunha e Menezes em 10 de Outubro de 1783, para ir governar a capitania da Bahia.

A poesia publicada pelo conego Januario da Cunha Barbosa é mais completa e muito mais correcta. Na impressa no Jornal poetico pelo livreiro Desiderio Marques Leão falta a quinta oitava.

(40) T.I, cad. 4, p.74.
(41) Eis o que a esse respeito já deixei dito nas Brasileiras celebres, cap. V, p. 190:

« A poesia que servira de suave e ligeiro passatempo a D. Bárbara Heliodora nos dias de sua infancia, que emprestára uma linguagem divina á innocente expressão dos affectos nos felizes dias de seus amores; a poesia que ficára esquecida durante as lidas domesticas da mulher mãi, cuja felicidade cifrava-se unicamente no bem-estar de seus filhos, na contemplação de sua innocencia, no ver de seus brincos e folguedos, na educação de suas inclinações, no cultivo de seu espirito; a poesia veio de novo accordar-lhe os sons harmoniosos de sua lyra, entornar-lhe nas chagas do coração lanhado e comprimido o balsamo da consolação e da esperança, mitigar-lhe o ardor doce e amargo da saudade, e traduzir seus gemidos, verter seus suspiros em versos sentidos, que se lhe desprendião dos labios com o accento pungente da melancolia.

« Aquella tremenda provança, que mais tarde tornou Silvio Pellico infiel á politica e desdenhoso de suas seducções, como o amante resentido da offensa de sua amada, trouxe-lhe com a desgraça a experiencia, cujos fructos são sempre amargos; d’ahi esses conselhos n’essas elegantes sextilhas, com uma graça, com uma naturalidade difficeis de se imitarem, n’um estylo todo familiar, repletas de annexins que estão nos mostrando o typo dos delatores que tão sanguenta peripecia preparárão a esse drama chamado conjuração mineira. »

(42) Foi baseado n’essas supposições feitas por alguem sem o menor fundamento que o Sr. Fernando Wolf disse na sua recente obra: « Son nom d’emprunt était probablement Eureste Phenicio. » V. Le Brésil littéraire, histoire de la littérature brésilienne, suivie d’un choix de morceaux tirés des meilleurs auteurs brésiliens. Berlin, 1 vol. in-4 °, 1865, chap. 7, p.74.
(43) Nas Obras poeticas de Silva Alvarenga, t. I, p. 11O, n. 91, demonstrei as difficuldades em que me achava a respeito da data e lugar da fundação da Arcadia ultramarina, bem como ácerca de alguns nomes pastoris, que ficárao subsistindo em pura perda dos verdadeiros nomes dos arcades; e, pelo contrario, os nomes pastoris que terião na Arcadia brasileira muitos de nossos poetas, e sobretudo Alvarenga Peixoto.

Depois de muitos estudos e pesquizas, vi que a elucidação da questão era de lodo em todo impossivel n’esta côrte por falta dos necessarios documentos. Lembrei-me que sendo a maior parte dos arcades ultramarinos tambem arcades romanos, talvez se pudesse obter da Arcadia de Roma alguns esclarecimentos. O meu amigo o Sr. Dr. Carlos Honorio de Figueiredo incumbio-se de escrever a seu illustre irmão, o Exm. Sr. José Bernardo de Figueiredo, encarregado dos negocios do Brasil nos Estados Pontifícios, pedindo-lhe as seguintes informações:

1° Quem erão os arcades de que se faz menção em obras impressas em 1768 sob os seguintes nomes:

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