Ofício de Constantino Pereira de Azevedo, Governador dos Rios de Sena para o conde das Galveias

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Ofício de Constantino Pereira de Azevedo, Governador dos Rios de Sena para o conde das Galveias
por Constantino Pereira de Azevedo


Ill.mo e Ex.mo Sr. Conde das Galveias

Tendo Sua Alteza Real o Príncipe Regente Nosso Senhor determinado no ano de 1799 ver se conseguia a abertura do caminho de Sua Capital de Angola para estes Rios de Sena, a fim de que os seus Povos tanto da África Ocidental como da Oriental, pudessem girar com o seu comércio com mais vantajosos lucros do que até agora o podiam fazer: assim como também pude­rem circular as noticias de uma Costa a outra com mais bre­vidade, do que se pudessem fazer pelos Navios, e tendo encarregado a dita abertura por este lado Oriental ao Governador que foi destes Rios Francisco José de Lacerda e pelo lado Ocidental ao Ex.mo D. Fernando de Noronha Capitão General de Angola, encarregando este ao Tenente Coronel Comandante e Director da Feira de Casange Francisco Honorato da Costa , sucedeu que desta parte Oriental faleceu o dito Governador Lacerda no sitio de Cazembe, tendo feito o seu descobrimento até o sitio donde faleceu, e da outra parte Ocidental , com efeito conseguiram os Escravos do dito Tenente Coronel acima mencionado, a dita abertura até o Cazembe; cujos Escravos tem estado ha quatro anos ano dito sitio sem que tivessem meios de se conduzirem a esta Vila para darem as referidas noticias, e vendo eu que esta Vila se achava um pouco destituída de comércio por má inteligência que tem havido com alguns Régulos que a cercam; e querendo eu de alguma forma ampliar esta falta chamei ao Quartel da minha Residência em Maio de 1810 a Gonçalo Caetano Pereira homem muito antigo, e muito prático destes Sertões, e tratando com ele sobre o aumento que desejava que esta Capitania tivesse no seu comércio lhe pedi me descobrisse algum lugar para onde pudesse com vantagem comerciar; este me respondeu que antigamente vinham a esta Vila negociar os Vassalos do Rei de Cazembe, e que desde o tempo em que intentamos a abertura do caminho nunca mais aqui tinham vindo e que ignorava, o motivo; uns diziam ser pela desordens que os nossos fizeram no dito Cazembe depois da morte do Governador Lacerda, e outros diziam era por que aquela Nação andava em Guerra desde esse tempo com a Nação Muizes, e pedindo eu ao dito Gonçalo Caetano Pereira me desse três Escravos seus para eu mandar de Embaixada ao dito Rei Cazembe para ver se movia aquela Nação a tornar outra vez a esta Vila com o seu comércio como dantes faziam , este me facultou os seus Escravos, cujos mandei de Enviados ao dito Rei Cazembe, e vendo este lá chegar os ditos Escravos tomou a deliberação de me mandar uma Embaixada composta de um grande, e cinquenta homens seus vassalos, na qual me manda dizer que no seu Reino existiam há quatro anos aquelas duas Pessoas que tinham vindo da parta de Angola, cujos mandava entregar; os quais chegaram a esta Vila em 2 de Fevereiro do presente anho, trazendo-me uma Carta de seu Amo, cuja Carta tenho a honra de remeter a V. Ex.ª a Cópia, e perguntando eu aos sobreditos, se queriam voltar voluntariamente pelo mesmo caminho por onde tinham vindo, me responderam que sim, porém que era preciso eu dar-lhes as providências necessárias para o sobredito transporte, aos quais mandei dar setecentos panos de valor de duzentos e cinquenta reis fortes cada um, e dando de tudo parta ao meu Capitão General, assim como também saber dele se à Real Junta daquela Capital me levava em conta a. sobredita despesa, e quando não a pagaria dos meus soldos, de cujo ofício ainda não coube no tempo receber resposta.

Eu deveria fazer alguma ponderação a V. Ex.ª sobre este descobrimento, por que não acho maior inteligência nos ditos Descobridores, porém ao mesmo tempo conheço segundo a sua capacidade fizeram muito, e como estes agora tornam pelo mesmo caminho vão insinuados por mim o modo como devem fazer a sua derrota, e as averiguações que devem fazer, a inteligência em que acham aqueles Régulos; se com efeito nos deixarão. passar francamente por aqueles caminhos, e quais os mimos que lhes deveremos oferecer; de tudo vão industriados por mim; e estes prometem dar um exacto cumprimento aos .referidos objectos com todas as clarezas necessárias, entregando ao Ex.mo Capitão General de Angola tudo quanto acharem tendente à dita abertura; o que tudo participo a V. Ex.ª para que V. Ex.ª se sirva de o pôr na presença de S. A. Real o Príncipe Regente Nosso Senhor.

Tenho também a honra de remeter a V. Ex.ª a Derrota que me ofereceram os Descobridores, a qual é N.º 1, assim como também um papel das perguntas que fiz aos referidos o qual é N.º 2, e a Carta que me dirigiu o Tenente Coronel Amo dos referidos Descobridores, a qual é N.º 3.

A Ilustríssima e Excelentíssima Pessoa de V. Ex.ª Deus Guarde por, muitos anos.

Quartel da Residência da Vila de Tete 20 de Maio de 1811.

Ill.mo e Ex.mo Sr. Conde das Galveias, do Conselho de S. A. Real, Ministro e Secretário dos. Negócios da Marinha e Domínios Ultramarinos.

Constantino Pereira de Azevedo, Governador dos rios de Sena.