Os Filhos do Padre Anselmo/XX

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Os Filhos do Padre Anselmo por António José de Albergaria
Capítulo XX: Alma negra


Voltemos a casa da loura Leonor, da doida amante do commendador Garcia, apaixonada por Eugenio de Mello e instrumento de torpes vinganças nas mãos de João Lazaro.

O commendador Garcia retirára á hora habitual, dez da noite, muito desconsolado, porque o seu peccado — que era assim que elle chamava á endiabrada creatura que o tinha preso nos laços de uma affeição insensata — havia tempos que o recebia desabridamente, com repellões de histerica, irritando-se sem motivo, chorando sem saber porquê, n'uns accessos de nevrosismo que faziam a sua tortura e a tortura do encarquilhado protector.

Solicito e amoroso, o bom do homem fallou em chamar o medico, consultal-o, podia ser que aquillo ás vezes fosse sangue alvoroçado, que podia subir-lhe á cabeça, e então o melhor era tratar-se com tempo, porque todas as molestias em principio teem cura e depois de tomarem posse do corpo é que custam mais a debellar.

Mas a loura indignou-se, teve um ataque de furia e quasi lhe bateu. Ella não tinha sangue na cabeça; o que lá tinha era a ideia de se vêr só por algum tempo, sem aquelle caustico do commendador a importunal-a, a fazer-lhe arrelia com as suas mimalhices de velho babão. E dizia-lh'o com crueza, n'uns arremessos de doida. Fallava em se matar, em acabar com aquella vida que não podia continuar assim.

— Mas o que queres tu? — perguntava-lhe lacrimoso o commendador — Falta-te alguma coisa? Queres vestidos, joias, dinheiro? Anda, falla, minha filha! Eu estou prompto a satisfazer todos os teus desejos, todos os teus caprichos, comtanto que não falles em me deixar! Bem sabes que eu sem ti não podia viver...

E era sincero o pobre homem quando assim se expressava. Effectivamente, a loura era a sua incuravel mania. Tambem, não tivera outra em toda a sua vida, senão a de ser commendador.

A principio alugára os affectos da loura como quem adquire um animal de luxo, um cavallo de preço. Tinha vaidade em que se dissesse que elle era o possuidor d'aquella bella mulher, que fazia a cubiça de todos e a inveja de muitos. O seu amor proprio sentia-se singularmente lisonjeado quando os intimos, nas assembleias dos bancos de que era accionista, lhe batiam amigavelmente no hombro e lhe diziam n'um sorriso discreto:

— Ah! maganão, você é que a sabe toda!... Aquella pessoa está de cada vez mais bonita... Sim, senhor! mulher de gosto! Se algum dia se quizer desfazer, endosse-me a letra...

Depois, o commendador, á força de habito, foi affeiçoando-se. Em cada dia descobria novos attractivos n'aquella creatura singular que sabia prendel-o com os encantos de uma linguagem por vezes apaixonada e que mais refinava em caricias quanto mais commodamente o atraiçoava com outro.

Julgando-se sinceramente amado e não ignorando que o coração d'aquella mulher lhe era disputado por outros que offereciam inutilmente mais dinheiro, o commendador passou insensivelmente da simples affeição ao amor profundo e d'este á paixão louca. A loura era o seu idolo. Mais depressa renunciaria á commenda do que á posse d'aquella bella e extraordinaria mulher.

E era feliz, depositando uma confiança illimitada na fidelidade e constancia de Leonor — que para elle tinha sempre carinhos e meiguices que nenhuma outra saberia fazer-lhe.

Desde, porém, que João Lazaro lhe apparecera pondo-lhe em evidencia a negra traição de Eugenio, a loura, obrigada a dissimular com o perfido amante, descarregava agora todas as suas iras sobre a cabeça innocente do infeliz commendador.

E isto trazia-o afflicto, apprehensivo ácerca da saude do seu peccado!

Temia desgotal-a ou exacerbar-lhe mais o padecimento, contrariando-a. Por isso pensava na melhor maneira de a submetter ao tratamento do medico que, no seu entender, devia pôl-a boa.

N'essa noite apresentara-se com bons modos, procurando convencel-a suavemente a que se deixasse observar por quem sabia, porque ella estava doente, e ás vezes as doenças vão com qualquer coisa.

A loura explodiu n'uma descompostura tremenda e ameaçou de lhe fugir, deixando-lhe o ninho, se elle tornasse a ter o atrevimento de lhe fallar em medicos.

Teve o pobre homem um trabalhão para a serenar, e retirou depois de lhe prometter que não mais se pensaria em remedios de botica.

Ausente o commendador, a loura passeou febrilmente pela sala, abriu com impeto a janella e perscrutou com ancia o prolongamento da rua deserta.

Depois sentou-se n'uma ottomana e batendo impaciente o pésinho breve no tapete, pôz se a mordiscar as unhas.

— O João Lazaro — murmurava ella — prometteu de vir hoje fazer-me revelações importantes, e ainda não veio... O que terá elle que me dizer?

Que provas terá elle para apresentar-me da falsidade e perfidia de Eugenio?

N'isto, ouviram-se passos no corredor, o reposteiro da sala abriu-se e appareceu a figura de João Lazaro.

Tirou logo o chapéo e lançou sobre uma cadeira o capote á hespanhola em que vinha embuçado.

— Tardei, não é verdade? — disse elle.

— Esperava-o com anciedade — respondeu a loura febrilmente, levantando-se para o receber — Diga-me: que noticias traz de Eugenio?

— Eugenio, como sabe, desappareceu ha dias, accusado de ser elle o auctor do rapto da filha do Custodio de Jesus...

— Pois sim, bem sei — disse a loura impaciente — Mas Eugenio jurou-me que era victima de uma odiosa calumnia dos seus inimigos, que elle não tivera a menor cumplicidade n'esse rapto.

João Lazaro sorriu.

— No emtanto — disse elle — a policia procura-o, porque sobre elle recahem todas as provas, as mais completas. O procurador Belchior, a mulher e a cunhada são unanimes em declarar que o reconheceram na occasião em que arrebatava Beatriz para dentro do carro. O proprio pae da victima é concorde com estas declarações, affirmando que tambem o reconheceu. N'estas circumstancias, creio bem que Eugenio de Mello viu que não poderia defender-se de tão grave accusação e tomou o expediente de se homisiar...

— Até que a luz se faça e os factos provem a sua innocencia. Foi isso o que elle me disse no bilhete que me escreveu no proprio dia em que partiu...

— Sem lhe dizer para onde... — tornou o Lazaro com um sorriso de mófa.

— Não m'o podia dizer porque elle mesmo não sabia ainda para onde ia...

— E se o sabia, não lhe convinha dizer-lh'o...

— O senhor é terrivel! faz gosto em me torturar! — exclamou a loura irritada.

— Não, minha querida, faço apenas diligencia para que veja as coisas como ellas são. Eugenio de Mello disse-lhe que estava innocente no crime de rapto de que o accusam e a senhora acreditou-o, não obstante saber que elle diligenciava casar-se com Beatriz...

— A propria accusação destroe a suspeita de uma tal intenção por parte de Eugenio...

— Porque?

— Porque se Eugenio quizesse realmente casar com Beatriz, e a esse enlace não se oppunha senão a noiva, é claro que o rapto só seria um pretexto para a forçar a acceitar o noivo; e então não teria Eugenio a necessidade de negar e de fugir, nem o pae da rapariga andaria tão açodado em perseguição do raptor da filha.

João Lazaro tornou a sorrir com um ar de cruel zombaria.

— É bem deduzido — disse elle — Ahi ha logica. É pena que o raciocinio esteja muito longe da verdade...

— Pois bem; se o senhor sabe a verdade, diga-a! — exclamou Leonor com impeto — tire-me d'este supplicio em que me debato ha dias sem saber o que hei-de pensar!

— Prometti trazer-lhe revelações importantes, e é isso justamente o que venho fazer.

Avançou alguns passos na sala com ar sombrio, deixou-se cahir com abandono em um sofá, indicou uma cadeira a Leonor como se fôra elle o dono da casa, puxou de um charuto, que mordeu distrahido, e, emquanto o accendia, disse para Leonor, agora anciosa e humilde com os olhos fitos n'elle:

— Sente-se e escute-me. Eu disse-lhe que Eugenio de Mello tinha o casamento projectado com a filha do capitalista Custodio de Jesus; e isto era verdade. A senhora mesmo, pelas indagações a que procedeu, veio a conhecer que eu a informára da verdade.

— Mas soube tambem que Beatriz repudiara esse casamento — objectou Leonor.

— Devagar! Peço-lhe que não me interrompa para me recordar minucias, porque eu ainda não me esqueci...

E atirando uma baforada do charuto, proseguiu:

— Beatriz recusava-se a acceitar a união com Eugenio de Mello porque tinha o coração preso a um outro amor. Custodio de Jesus, porém, influenciado pelo procurador Belchior, seu intimo e collaborador de agiotagens sordidas, empregava todos os esforços para convencer a filha a realisar o enlace que se lhe propunha... É isto ou não o que lhe disseram as suas informações?

— É.

— Muito bem! prosigamos agora analysando os factos: Como Beatriz se recusasse a annuir aos desejos do pae, concertaram os tres entre si jogar um lance decisivo que entregaria a pobre pequena sem resistencia nos braços do apaixonado noivo, obrigando-a por fim a acceitar o recusado enlace como a unica solução redemptora da sua honra. Esse lance era o rapto por Eugenio de Mello, n'um passeio combinado ao campo, rapto que se effectuou como se havia projectado...

— Por Eugenio?

— Pois por quem? Por mim é que não foi nem podia ser, pois que nada se combinou comigo.

— Mas é isso o que Eugenio nega...

— Deixe-o negar. A verdade é só uma e isso está averiguado de modo que não admitte duvidas.

— Mas então, se é assim, que interesse tem Eugenio em negar, quando o que mais lhe convinha era apresentar-se como culpado, porque mais depressa realisaria o casamento?

— É esse o ponto escuro da questão, que eu já consegui esclarecer... A rapariga tem apenas um dote de vinte contos. Custodio de Jesus possue mais de noventa. O dote da noiva, portanto, mal chegaria para solver as dividas de Eugenio, a quem o procurador Belchior tem já adiantado sommas enormes á conta d'este casamento...

— Mas como póde ser isso, se eu mesma tenho dado muito dinheiro a Eugenio?...

— Vejo que não conhece o seu amante, minha querida. Eugenio tem habitos de dissipação e de luxo. Passa ahi no Porto por ser um rico proprietario do Alemtejo, quando elle não possue em parte alguma do paiz um palmo de terra a que possa chamar seu. Todo o dinheiro que a senhora tem dispendido com elle não lhe chegaria sequer para o café e para os charutos...

— Que exaggero! — disse Leonor com desgosto.

— Minha querida amiga — tornou João Lazaro com modo affavel — não é isto desmerecer a importancia das sommas que o seu louco capricho por Eugenio lhe tem custado: é que esse rapaz tem gasto em jogo, em ceias, em mil desperdicios de vaidosa ostentação, mais talvez de dez contos de reis nos ultimos quatro mezes. A senhora certamente não lhe tem abonado todo esse dinheiro...

— Tanto, não...

— Pois ahi tem! Raptada a rapariga, Eugenio, por sua parte, entendeu que devia fazer outro jogo... Em vez de a conduzir para a casa que se havia combinado entre os tres, levou-a para outra parte até agora desconhecida e negou aos proprios cumplices que tivesse sido elle o auctor do rapto...

— Mas para quê! meu Deus! para quê? — exclamou a loura de cada vez mais aturdida.

— Para quê! Pois ainda não comprehendeu? Para forçar o pae de Beatriz a augmentar o dote da filha...

— Mas isso é uma infamia!

— Infamia é tudo o que Eugenio de Mello tem praticado, mesmo com a senhora. O certo é que o mariola evadiu-se e lá está com a sua gentil raptada, sabe Deus onde, até que o Custodio se resolva a accrescentar o dote da pequena. O casamento, no emtanto, far-se-ha. É questão de mais mez, menos mez, até o Custodio chegar ao preço...

— Mas o senhor tem bem a certeza de que isso é assim? — interrogou Leonor com os olhos chammejantes de colera.

— Se tenho a certesa! Tudo isto que lhe estou contando foi-me revelado em confidencia pelo proprio Belchior.

— Mas o Belchior é então complice de Eugenio n'essa projectada extorsão ao velho! Se elle conhece o que Eugenio premedita, não deve ignorar onde elle se encontra...

— Não! O Belchior não sabe nada do paradeiro de Eugenio e de Beatriz, e está por isso furioso. O que elle imagina é que Eugenio pretende ludibrial-o a elle e conjunctamente ao velho, para se furtar ao pagamento do dinheiro que lhe pediu emprestado com promessa de o reembolsar logo depois do casamento.

— Que sucia de miseraveis! — bradou a loura enojada.

— Verdade, verdade — observou João Lazaro, rindo — a partida foi bem pregada. Vê-se que Eugenio conta com os recursos da sua seductora figura e com os artificios da sua linguagem para apaixonar a ingenua raptada, emquanto esta questão se não dirime em casa do tabellião e vae ter o seu natural desenlance na egreja da freguezia.

— Nunca! Nunca! — protestou Leonor levantando-se enfurecida. — Antes d'isso, hei-de eu encontral-o e tirar-lhe contas rigorosas da sua infame perfidia!

— O que quer fazer? — perguntou João Lazaro fleugmaticamente.

— O que quero fazer? Procural-o até o encontrar.

— E depois?

— Depois dar-lhe a escolher: ou eu ou ella.

João Lazaro soltou uma gargalhada.

— A escolha está feita, minha amiga! — disse elle. — Pois ainda tem duvidas?

Leonor franziu o sobr'olho e encarou fito João Lazaro.

— Está feita! Como é que o senhor sabe que está feita? — perguntou.

— Foi á senhora que elle raptou? Era com a senhora que elle pensava em casar?

— Ás vezes rapta-se uma mulher por capricho...

— E casa-se com ella por amor.

— Se elle a amasse, não prolongaria uma situação que lhe retarda o casamento...

— Mas que não lhe impede a posse do objecto amado, visto que é elle hoje o unico senhor de Beatriz... Além d'isso, a demora no cumprimento da formalidade... social só representa para elle interesse e não prejuizo, pois que o velho acabará por se submetter a todas as condições que elle impuzer.

Leonor bateu o pé furiosa.

— O senhor tem um modo de vêr as coisas que irrita os nervos á gente! — disse ella.

— Oh, minha querida amiga, a culpa não é minha em as vêr assim: a culpa é das proprias coisas que se apresentam com tal aspecto. Bem sabe, eu conheço Eugenio, sei do que elle é capaz, e a paixão não me cega a ponto de não me deixar vêr o que é mais claro do que o sol.

Houve uns momentos de silencio.

— Não será possivel saber onde se occulta Eugenio com... essa rapariga? — perguntou por fim.

— A policia procura-os, mas duvido que os encontre. Eugenio é fertil em expedientes para se esquivar á perseguição da policia...

— Mas o senhor... o senhor não será capaz de lhe achar o rasto?

— Que juizo fórma de mim? — perguntou João Lazaro encarando-a com desdem — Pois amando-a eu como a amo, querendo-a para mim como a quero, julga-me tão imbecil que vá buscar-lhe o amante que lhe fugiu?

— Mas não foi isso o que o senhor me prometteu! — bradou Leonor indignada. — O senhor disse-me que me informaria de tudo...

— E creio que assim tenho feito. Por quem sabe a senhora o que se passa, senão por mim? Eu disse-lhe que lhe apresentaria provas da infidelidade de Eugenio, e creio que essas provas estão bem patentes...

— Mas disse-me tambem que elle não casaria sem que eu fosse previamente prevenida...

— Elle ainda não casou...

— Mas vive com ella, tem-n'a a seu lado, está a esta hora fazendo-lhe mil protestos, mil juras de amor!

— Tudo isso, porém, não é casar — tornou João Lazaro com placidez.

— Mas é amar outra, é esquecer-me, é ultrajar-me! — gritou Leonor n'um despedaçamento do coração.

— Bem! E o que quer a senhora?

Leonor encarou-o com os olhos scintillantes e os labios tremulos de colera:

— Pois ainda não comprehendeu? — rouquejou ella — Quero vingar-me!

— Para isso não precisa procural-o nem saber onde elle está... Pena de Tallião, minha amiga... Tem-me aqui, doido de amor, a implorar-lhe um momento de compaixão, e a sua generosidade para com elle é tanta que ainda não pensou em que eu podia ser-lhe um optimo instrumento de vingança... Creio bem que Eugenio, sabendo-o, morder-se-hia de desespero, por ver que a formosa Leonor não tinha perdido na troca...

— Cale-se! — intimou ella, repellindo com desespero e asco o João Lazaro, que tentava tomar-lhe as mãos para lh'as beijar — Essa não é a vingança que me satisfaz, a vingança que eu sonho!

João Lazaro encarou-a com um ar de desdenhosa superioridade e disse:

— Pois que outra vingança póde tirar uma mulher nas suas circumstancias?

A loura empallideceu e depois fez-se rubra como se tivesse levado em cheio uma bofetada na face.

— Quem lhe deu ao senhor o direito de me insultar? — disse ella tremula de colera.

— Perdão, minha querida Leonor, mas não supponho ter-lhe feito um insulto lembrando-lhe que, nas circumstancias melindrosas em que se encontra, não lhe conviria sacrificar as relações do commendador Garcia á vingança ruidosa contra Eugenio...

— Cuidei que não se referia sómente á situação, mas tambem á qualidade da mulher... Julguei que não me suppunha moralmente em condições de tirar uma desforra digna do miseravel que me atraiçoou!

— Oh! por Deus, Leonor! Toda a mulher tem direito a ser respeitada nos seus affectos, e a senhora mais que nenhuma outra, porque tem sido de uma grande e excepcional dedicação para Eugenio. O sentido das minhas palavras era muito outro. A senhora não é a amante declarada de Eugenio de Mello. A sua ligação com elle tem um caracter clandestino... Como poderia a senhora tirar rasoavelmente um desforço publico, impedir o casamento d'esse homem, se toda a gente a considera a amante do commendador Garcia?

— E que me importa a mim o commendador Garcia, quando se trata de punir quem ousou ludibriar-me e esmagar o meu coração?

— Punir, disse?

— Punir, sim! Pois o que julga o senhor? Cuida talvez que eu seria mulher para deixar nos braços de outra o homem que amei e que me pagou com a perfidia mais infame, com o despreso mais cruel? Teria que vêr se Eugenio havia de ficar contente e feliz, gozando o amor e o dote de outra mulher a quem chamaria sua esposa, a quem apresentaria no mundo cercada dos respeitos e das considerações de todos, emquanto que eu, ultrajada e esquecida, ficasse tragando em silencio todas as amarguras da minha humilhação, todos os desesperos do meu amor escarnecido! Não! Eugenio de Mello não casará, juro-lh'o eu, porque eu saberei procural-o por toda a parte e encontral-o onde elle estiver. E se fôr tão habil que se case antes de eu dar com elle, a mulher, se o amar, terá o desgosto de ficar viuva...

João Lazaro ouvia attentamente as palavras de Leonor, pesando-as e calculando até que ponto ellas podiam ser tomadas como a expressão de uma ameaça realisavel.

— Minha querida — disse elle — socegue e veja bem que n'esse estado de excitação nada podemos fazer...

— Mas se eu já não quero fazer nada! — bradou Leonor. — O que eu quero unicamente é saber onde posso encontrar Eugenio...

— Venha cá, Leonor! — exclamou João Lazaro pegando-lhe na mão e obrigando-a a sentar-se ao seu lado. Sejamos, antes de tudo, rasoaveis e conversemos como bons amigos... Sabe que a amo desde muito e que por coisa alguma eu consentiria n'um desvario que pudesse trazer-lhe desgraça irremediavel. Quer vingar-se de Eugenio, não é assim?

— Oh! sim! sim! quero! — respondeu anciosamente Leonor, n'um estremecimento nervoso.

— Diga-me: que genero de vingança desejaria tirar?

— A unica que elle merece e a unica que me póde satisfazer: matal-o!

— Bem sabe que não se mata um homem sem se assumirem graves responsabilidades perante a justiça — ponderou João Lazaro.

— E que me importa a mim a justiça? Á justiça direi: «Matei-o porque me ludibriou, porque me trahiu!»

— A justiça não se contentará com essa explicação e punil-a-ha com todo o rigor da lei...

— Embora! Mas eu ficarei vingada.

— Não! Ficará perdida. Calcula, minha boa amiga, qual vae ser a sua sorte, atirada para o fundo de uma prisão, de parceria com outras criminosas, exposta aos desprezos e aos sarcasmos de toda uma multidão avida de escandalos e de crueldades que assistirá ao seu julgamento e aplaudirá com uivos de alegria a sua condemnação? Calcula o atroz supplicio que a espera desde a hora do seu crime até á hora da sua partida para o degredo, no porão de um navio, empilhada com outros condemnados, tratada como um animal feroz, como um ser abjecto e ascoroso que a sociedade repelle de si com nojo? E diga-me: vale tanto o miseravel que a trahiu e tão infamemente a explorou no seu dinheiro e nos affectos do seu coração?

— Mas eu hei-de deixal-o viver feliz e ditoso nos braços de outra, a rir-se de mim com desprezo, hei-de encontral-o na rua dando o braço á mulher por quem me trocou e hei-de fugir envergonhada, hei-de desviar-me humildemente do seu caminho para o deixar passar? Oh! não! não! Antes a prisão, antes o degredo, antes uma eternidade de supplicios n'este mundo e no outro, do que deixal-o escarnecer impunemente de mim!

— Mas, minha amiga — tornou João Lazaro com a voz mais doce e persuasiva — não é isso tambem o que lhe estou dizendo...

— O que é que me diz então? Explique-se, por Deus! que não tenho cabeça em estado de perceber coisas que não sejam ditas bem claramente!

— Ouça, Leonor; toda a vingança se póde tirar de duas formas: uma publica, ruidosa, impulsionada cegamente pela ira. Essa, quando ella tem por consequencia a morte de um homem, chama-se crime e é punida rigorosamente pela lei. A outra é premeditada, occulta, sem ruido e sem provas; e quando tem como consequencia igualmente a morte de um homem, chama-se desastre, doença, fatalidade, e a justiça não tem alçada para a punir.

— Não entendo! — disse Leonor.

— Vae entender. Se lhe fosse possivel vingar-se de Eugenio, matando-o de modo que só elle soubesse quem o matou, a senhora preferiria assassinal-o publicamente, diante de todos, e ir depois prestar contas á justiça?

— De certo não. O que eu queria era vingar-me e que elle soubesse que no peito de uma mulher como eu, se existe o amor que salva, tambem ha o amor que mata.

— Pois bem; que recompensa me daria se eu lhe proporcionasse a vingança que deseja?

— Como poderia eu recompensal-o?

— Amar-me-hia?

— O amôr é um sentimento que nasce do coração, não é um objecto material cuja posse se transfira de um para outro individuo. O senhor que diz amar-me comprehende assim o amôr?

— Pois bem; não tomemos a palavra na rigorosa significação que lhe está dando... Mas, diga-me: depois da sua vingança realisada, pertencer-me-hia?

— Em espirito, não. Materialmente, sim.

— É quanto me basta. Materia e espirito andam pelo commum tão ligados que é difficil, ao cabo de um certo tempo, que a alma não acompanhe o corpo...

— Imponho uma condição, porém — objectou Leonor.

— Diga.

— Seja que o espirito acompanhe a materia, seja que um e outro permaneçam desligados n'este contrato, o senhor não tolherá nunca a minha liberdade. Recebel-o-hei quando me parecer, á hora que eu bem quizer, sem que o senhor tenha mais direito do que o commendador Garcia ás minhas complacentes attenções...

— Tambem não exijo mais, tal é a certeza que eu tenho de que ha-de chegar a comprehender-me e a estimar-me, Leonor.

— É possivel. No emtanto não me julgo obrigada a isso... Vejamos: sabe o senhor onde está Eugenio?

— Talvez...

— Talvez não é certo, e eu não gosto de incertezas quando se trata de um assumpto que tanto me interessa e de que depende o meu socego, a minha tranquillidade...

— Diga antes — de que depende a satisfação do seu orgulho ferido...

— Seja! Onde está Eugenio?

— N'este momento não poderia dizer-lh'o, ainda que quizesse. Mas espero bem que amanhã poderei dar-lhe indicações seguras...

— Amanhã! E quem lhe assevera ao senhor que amanhã não será já tarde?

— Nunca é tarde para a vingança.

— Mas eu não desejo vingar-me do marido de Beatriz: desejo tirar vingança do amante de Leonor trahida e ludibriada!

— Tiral-a-ha amanhã, porque amanhã Eugenio de Mello estará aqui a pedir-lhe dinheiro para se passar com Beatriz para Hespanha.

— Como o sabe?

— Disse-m'o elle.

— Ah! o miseravel! Pois se vier não sahirá vivo d'esta casa...