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Os Luso-Arabes/I-I

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IBN-AMMAR

PRIMEIRA PARTE

A MOCIDADE DO POETA

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CAPITULO I

O CAMPO DE SILVES

Renques de figueiras de larga fronde verde, cuja coma começava a dourar-se sob os raios coruscantes dos ultimos soes do estio, carregadas d'essas fructescencias que em todos os tempos hão feito a riqueza do Algarve, estendiam-se a perder de vista de um e outro lado da estrada que de Messines conduzia á aldeia de Zawia ¹ (hoje Lagos), e á soberba e opulenta Shilb, cidade arabe, cujo nome pouco differia do actual.

Essa estrada, aberta n'um solo impregnado de oxidos de ferro semelhava uma faixa carmezim lançada a tiracollo sobre um manto de velludo verde; e cortando as figueiras n'uma vasta extensão ia perder-se ao longe na zona pardo-azulada dos montes de Murgic ou Monchique ², que na linha do horisonte erguiam ao norte uma barreira rochea ás rajadas do septentrião e ás incursões dos seus irrequietos visinhos do waliato de Beja.

¹ Zawia - lago ou poço.

² Monchiqut, o Hisu - Murgio ou Mergeric de Edrisi e de Conde.

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Nuvens de pó rubro, dançando na atmosphera esbraseada, ou pairando indolentemente nos ares, marcavam n'elles, como no mar a esteira dos navios, a direcção seguida pelos viandantes. Levantando-se rapidamente n'uns pontos, baixando mollemente n'outros, essas nuvens indicavam de longe os logares onde um pesado carro de bois, ou o passo vagaroso d'uma recua de azemolas ia transportando os productos da lavoura á caría ¹ ou á cidade.

A's vezes, o galopar dos cavalleiros levantava mais alto esses frocos de gaze rubra, que se ennovellavam sobre o leito da estrada, semelhando ondas inflammadas de fumo avermelhado d'uma descarga de fusilaria e correndo rapidas e successivas como as notas de escala chromatica vibradas por mão perita no teclado d'um piano.

Algumas folhas já semi-seccas, retinctas de rubro queimado ou de amarello pallido, desprendiam-se das figueiras, ou dos sarmentos das ampellideas, e doudejando e redemoinhando com a aragem, iam casar-se á grama secca dos alqueives e aos restolhos das gramineas, pizados pelo gado, e tambem retinctos de vermelho pelo pó da estrada.

Aos lados ainda a animação das colheitas. Aqui ranchos de camponezas, armadas d'um gancho talhado toscamente em ramo secco, baixavam os braços das figueiras para as despojar dos fructos maduros, que dispunham em cabazes de vime e canna, collocados de banda. Alli homens em mangas de camiza, e braços nús levantando e esparrando vinhas. Rapazes trepados ás alfarrobeiras arrancando-lhes as largas vagens negras, tudo ao som dos cantos arabes, das plangentes e voluptuosas toadas orientaes, que ainda hoje se conservam nos campos do Algarve e do Alemtejo como herança do passado, e ás quaes, nas horas do descanço, se unia o tantan monotono e compassado do duf e o bater dos pés das bailadeiras no chão duro d'um al manjar ¹.

¹ Villar, povoação pequena.

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Pomares vergando sob os fructos, jardins erriçados de flores, vinhas ostentando rubros e dourados cachos a espreitarem entre os verdes pampanos, carobeiras ou alfarrobeiras destacando da verdura vivissima das suas ramarias os fructos, negros como dedos de ethiopes, curvos como cimitarras de agarenos, as amendoeiras alternando-se com as piteiras e palmas chamerops na construcção dos vallados, ou enchendo os intervallos das figueiras; toda esta vegetação cortada de vez em quando pelas toalhas argenteas das ribeiras bordadas de eloendros, romeiras e laranjaes, davam á paizagem um ar de animação e abundancia, parecido ao que hoje ali ainda se disfructa.

¹ Eira e estendal de figos - almanjar, diccionario da lingua dos Mosarabes por D. Francisco Xavier Simonet, hoje almeixar no Algarve.

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E, todavia, a scena que vamos esboçar, muito mais viva e animada do que hoje, passava-se ha mais de oito seculos, nos primeiros dias de setembro de 1051 da era de Christo.

Se o aspecto d'esses formosos campos é ainda altamente pittoresco, a animação d'outr'ora era muito superior á actual, porque os arabes, povo essencialmente perito em agricultura e sobretudo habil nos systemas de irrigação, haviam feito das feracissimas regiões da Andalusia e do Algarve, successão não interrompida de jardins, hortas e vergeis, que refrescavam a vista e deleitavam o olphato e o paladar.

Esses homens que, já na epocha a que nos reportamos, povoavam a Peninsula havia mais de tres seculos, tinham trazido para o Occidente todos os fructos e perfumes da Arabia, da Syria e da Persia, como todos os mimos e requintes do luxo oriental.

E essas estradas de Chenchir ¹, trilhadas de camellos, cruzadas por cavalleiros de cimitarra e turbante, e essas campinas resplandecentes de flores e fructos, sob um sol tão puro e menos ardente que o da Arabia, davam ao conjuncto o aspecto de uma paizagem oriental, excedendo pela brandura do clima as formosas veigas de Damasco e de Aleppo, e os bosques aromaticos do Yemen.

¹ Chenehir, Och-Chin-Chin, e Al-faghar, tres nomes do Algarve.

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Aquellas serras magestosas e campinas floridas, e aquelle Grande Mar ¹ roto pelo rostro penhascoso de Tarif-al-Alaraf ², solo pisado e mar sulcado por todas as gerações que teem o nome vinculado na historia, era por certo o local mais azado para despertar o genio da poesia islamita, viva, naturalista, sensual e exagerada, como odaliska de sangue ardente nos estos de amorosa paixão. Por isso os camponezes de Silves eram, segundo o testemunho de todos os escriptores arabes, habeis na arte de improvisar; e o bem conhecido arabista Dozy, falando de Al-Motamid, o mais celebre e talentoso monarcha da Hespanha musulmana no seculo XI, diz-nos:

«Os bellos dias passados em Silves, essa região encantada onde toda a gente era poeta e que se chama ainda hoje o paraizo de Portugal, nunca se apagaram da memoria do Motamid.»

No curso d'este estudo teremos occasião de apresentar aos leitores o poema que esse vate real se dignou compôr para a sua querida Silves, e apparecer-nos-hão muitos nomes, ainda hoje illustres na litteratura oriental, de poetas que viram a luz no abençoado solo do nosso paiz ³.

¹ Grande mar - nome do Atlantico.

² Cabo de S. Vicente.

³ O moderno districto de Silves não desmente esta reputação, pois é a patria de João de Deus, o primeiro lyrico da Europa actual, e Camões descendia de uma familia do Algarve.

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Até mesmo as mulheres arabes de Silves eram cultoras distinctas das musas, e no principio do seculo a que nos estamos reportando, Mariam, a silvense, filha de Ibn-Yacub-al-Faisoli ¹ era conhecida em toda a Hespanha musulmana como poetiza e distincta professora de philosophia e litteratura em Sevilha, onde abrira um curso para as jovens andaluzas.

A Shelbiyya, ou Silvense que mais tarde figurou no reinado do almohade Yacub, e muitas outras nutriram o seu talento á luz d'aquelle sol.

E tão grande era a reputação de Silves como viveiro de poetas distinctos, que para obter admissão á presença dos soberanos muslimes, tão pouco accessiveis a simples mortaes, bastava annunciar-se como poeta de Silves. (V. Nota 3.ª no fim).

Aquelles logares pittorescos deviam trazer á imaginação sensualista e phantasiadora do arabe um antegosto do seu paraizo, povoado de flores sempre viçosas, de huris sempre jovens e formosas, e de palacios encantados de jaspe, ouro e pedrarias.

Quando Abu Becr, o primeiro successor do Propheta, chamou a Medina as multidões dos crentes do Yemen ² e do Hejaz ³, para as alistar na guerra santa, converteu o enthusiasmo d'esses povos em verdadeiro delirio, promettendo-lhes em premio da morte que recebessem nas batalhas, um paraizo todo sensual, proprio a inflammar aquellas ardentes phantasias, e a levar aquelles rudes cerebros ás raias de delirante vertigem.

¹ D. F. Simonet, A. Mulher na Hesp. Muss.

² Arabia Feliz.

³ Arabia Petrea.

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«Habitareis, lhes disse elle, ó crentes, amplos e fresquissimos vergeis, plantados n'um sólo de prata e perolas, e variados com collinas de ambar e de esmeralda. Até o throno de Allah cubiçará aquella mansão de delicias, na qual sereis amigos dos anjos, e conversareis com o proprio Propheta.

«O ar que ali se respira é uma especie de balsamo formado com o aroma do arrayan ¹, do jasmim e do azahar ² e com a essencia de mil outras flores.

«Fructos brancos de delicioso succo pendem das arvores cujas folhas e ramos são delicado lavor de fina filigrana.

«As aguas murmuram entre margens de metal brunido.

«Lá está a tuba ou arvore de felicidade, que plantada nos jardins do propheta estende um de seus ramos até á morada de cada mussulmano, carregada de fructos saborosos que veem espontaneamente tocar nos labios que os appetecem.

¹ Arrayan - especie de murta.

² flor de laranjeira de zahara - flor

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«Cada crente será dono de alcazzares de ouro, e possuirá n'elles meigas donzellas de negros e rasgados olhos e tez alabastrina. Esses olhos mais lindos que o iris não se fixarão senão em vós. Aquellas huris nunca perderão a belleza, nem sentirão o contacto da mão mirradora do tempo. E serão taes seus encantos, tão aromatico o seu halito e tão doce o fogo de seus labios, que se Deus permittisse que a menos formosa apparecesse na região das estrellas durante a noite, o seu esplendor seria mais vivo e agradavel que o da aurora e inundaria o mundo inteiro.

«O menor dos crentes terá uma morada á parte com setenta e duas mulheres e oitenta mil servidores. Seu ouvido será regalado com o canto do Israfil, que entre todas as creaturas de Deus é o que tem mais doce voz, e campainhas de prata, pendentes de arvores de folhas de esmeralda e ouro, movidas pela suave brisa que sairá do throno de Allah, entoarão com divina melodia os louvores do Senhor.

«A cimitarra é a chave do Paraizo. Uma noite de sentinella é mais proveitosa que a oração de dois mezes. O que perecer no campo de batalha será elevado ao ceo em azas de anjos. O sangue que suas veias derramarem converter-se-ha em purpura, e o olor exhalado de suas feridas diffundir-se-ha como o do almiscar.

«Ai, porém, do incredulo que vacille, que não abrigue no peito a verdadeira fé e que desmaie de medo com as fadigas e perigos. Não ha palavras que exprimam os martyrios que soffrerá por seculos de seculos nas fogueiras da Gehennah ¹.

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«Marchae a proclamar pelo mundo:

«- Não ha Deus senão Deus unico ² e Mahomet é o seu propheta ³.»

E na sexta sura, diz Mahomet.

«Uma mansão de felicidade está reservada aos que adoram e temem Allah.

«Jardins e vinhas.

«Rios deliciosos.

«Admiraveis corseis.

«As mulheres tomarão ahi uma juventude incomparavel. Parecerão sempre virgens a seus bemaventurados esposos pela extrema delicadeza, e chamar-se-hão Huris.»

A' vista das lindas paizagens da região de Shilb, qual seria o arabe que não visse n'ellas a imagem do seu formoso paraizo:

Jardins e vinhas!

Rios deliciosos!

Admiraveis corseis!

Ali estava a tuba, arvore de felicidade, estendendo os ramos até á morada de cada musulmano, carregada de fructos saborosos que parecem procurar os labios de quem os appetece.

As folhas de limbo variado na fórma e no contorno das palmeiras, das romeiras, das rosaceas, das amenthaceas, de mil outras familias vegetaes ostentavam ali o lavor de fina filigrana.

¹ Inferno.

² Allah.

³ H. G. de H.ª - Lafuente e Madden. V. O.

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Os rios, deslisando por entre verdura e flores, estendiam alegres as suas toalhas de metal brunido.

O aroma do jasmim, da rosa, do rosmaninho, da alfazema e do alecrim florido, formavam um balsamo perfumado similhante ao do arrayan do Yemen.

O luxo e a opulencia oriental tinham povoado aquelles campos de palacios de marmore e ouro, como o Sharadjib, o paço de Al-Motamid ¹, onde elle confessa ter passado os melhores dias da sua vida.

«Ahi, diz o real poeta, nos esplendidos salões de Silves, julgamos estar n'uma floresta erriçada de feras, ou n'um harem povoado de odaleuks gentis ².»

Alludia ás figuras de leões, e talvez ás estatuas, que, apesar das prescripções do koran ornavam as galerias do seu paço, e que pela transgressão da lei mais encantos tinham para principes tão pouco orthodoxos como os Benu Abbads.

Todas estas pompas deviam realisar as maravilhas dos contos orientaes, e recordar os alcazzares de oiro com as donzellas de olhos negros e rasgados e tez alabastrina que o successor do Propheta promettera aos crentes.

¹ O 3.º Ibn Abbad, senhor de Sevilha, de quem nos occuparemos. - Xaradjib, Sharadjib ou Charadjib, differentes maneiras de representar o mesmo som xin ou shin.

² Odaliscas, mulheres, escravas.

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A guerra, o amor e o luxo, os tres mais fortes estimulos da poesia de todos os tempos, e sobretudo da poesia arabe, toda sensual, achavam na côrte dos amires de Hespanha, e por consequencia em Silves (morada temporaria do mais celebre d'elles todos no seculo XI), vastissimo campo para as phantasias dos poetas.

Por isso quem ali passa na primavera ou nos lindos dias do outomno em que todos aquelles vergeis cumprem as promessas da estação vernal, onde a abundancia reina em todas as arvores, a alegria em todos os olhos, sente ainda hoje, apesar da decadencia da velha cidade, chispar-lhe n'alma uma faisca de poesia, por mais prosaico que seja o seu espirito, por mais decepções que lhe hajam desecado e endurecido o coração.

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