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Os Luso-Arabes/I-II

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CAPITULO II

O POETA MENDIGO

Ora, no dia a que nos referimos, em que a pequena e pobre Silves de hoje era uma cidade rica e importante ¹, quem atravessasse aquelles campos feracissimos, betados de bonitas e sumptuosas casas de campo, de aldeias, de casaes e de herdades, acharia a estrada a que nos referimos muito mais movimentada e cheia de vida do que actualmente.

E se estivesse proximo d'ella veria passar lentamente, indifferente á multidão dos viandantes de todas as classes e trajos, montado n'um muar extenuado e magro, um pobre rapaz ainda bastante novo, que pelo trajo já muito avariado denotava pertencer á classe, n'esse tempo assaz numerosa, dos estudantes que de todas as partes da Hespanha musulmana iam a Cordova e Sevilha haurir os thesouros da sciencia.

¹ No tempo de Becr Ibn Yahia, no seculo X, Silves tinha um conselho, uma chancellaria, tropas numerosas, bem armadas e costumadas á disciplina. V. Dozy. H. de Mus. Esp.

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Um velho pelote, bem improprio da estação, lhe envolvia o corpo quasi tão magro como o do muar que montava, e uma especie de gorro, ou guifara, que fôra preto mas que então parecia quasi vermelho do pó da estrada cobria-lhe os negros cabellos que seriam tambem bellos se o uso mulsumano os não cortasse rentes, e o mesmo pó não houvesse dado ao todo um aspecto de desalinho e incuria.

O rosto do cavalleiro ainda imberbe era formoso e varonil, e posto que as suas feições não houvessem chegado a completo desenvolvimento, já denotava, que as lutas da vida, as decepções e a indigencia haviam passado alli, gravando n'elle precozmente as rugas da idade madura, e os vestigios das privações.

Descerravam-se-lhe ás vezes os labios em sorriso de amarga ironia e fulguravam-lhe outras vezes os olhos em relampago de vivacidade e enthusiasmo.

Porém, esses clarões duravam pouco, e a sua physionomia triste e dolente recahia no mais profundo abatimento.

Dir-se-hia que no meio de toda aquella abundancia e riqueza a fome devorava as entranhas tanto do muar como do cavalleiro; e aquelle, negando-se a obedecer ao estimulo dos calcanhares, e á mordedura pouco pungente dos acicates oxidados, parava de quando em quando, arrancando a custo um como suspiro de cançaço.

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Os jaezes do muar bem como o trajo do cavalleiro, tudo denunciava a maior pobreza, mas nesses raros relampagos de enthusiasmo que atravessavam a bella fronte do joven, via-se que alguma esperança lhe sorria por entre as nuvens do desalento.

- Lindo, lindo! murmurou elle. Campos do meu paiz natal, como sois bellos! Como me representaes fielmente o Paraizo do Propheta. Sómente... E a expressão de enthusiasmo trocava-se na de ironia sceptica ¹.

Sómente... Allah esqueceu-se de me reservar aqui um palacio de ouro e marfim, e as huris de collo de alabastro que o meu homonymo Abu Becr prometteu aos crentes. Huris formosas, tem-as aqui por certo este paraizo, mas nem se dignam soabrir o véo para me verem neste pobre vestuario.

Depois, erguendo acabeça, como inspirado, exclamou:

- O mundo é grande e a sorte caprichosa! E a minha sina lida em Sevilha nas estrellas por um astrologo ambulante reserva-me um futuro brilhantissimo.

¹ A incredulidade formava tambem seita no seio do islamismo. Karmathas, Fatimitas, Ismaelianos alliando o fanatismo á incredulidade, a audacia do livre pensador á superstição do iniciado, e á indifferença do quietista. - Renan, Averroisme, pag. 103.

Os actos posteriores de Ibn Ammar, convivendo com christãos e musulmanos, indifferente a ambas as religiões, auctorizam a represental-o como sceptico até certo ponto.

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E de novo lhe relampejou o olhar scintillante e animado, e o scepticismo de ha pouco pareceu ceder o logar, no seu espirito, a um rapto de fé.

- Não sou eu filho d'esta nobre Isbania (Hespanha), continuou falando comsigo, que tem dado imperadores, khalifas e grandes homens ao mundo em todos os tempos?

Não me chamo Abu-Becr, como o immediato successor d'esse homem extraordinario que deu aos seus khalifas força para conquistar em 80 annos mais vastos territorios que os romanos conquistaram em 800? ¹

E não era esse homem tambem obscuro, como eu sou hoje? Não vivia n'uma condição humilde - pobre, mercenario, serviçal de uma viuva - quando concebeu o grandioso projecto de regenerar o seu paiz e o mundo?

E esse outro heroe, cujo nome será immortal, Abder-Rahman 1.º, antes de fundar o poderoso khalifado de Korthoba, realizando assim o mais bello sonho que os homens do Andaluz podem conceber? Não andou tambem errante pelos desertos de Africa, pobre como eu agora me vejo? Não sentiu elle a fome roendo-lhe as entranhas como agora eu sinto?

E, dizendo isto, contrahiram-se-lhe as feições por um sentimento de dôr, e levou a mão ao estomago como para reprimir os impulsos da angustia que o remordia.

¹ (Viardot). H. E.

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O muar parou então.

Não podia mais.

O cavalleiro apeou-se, e, puxando o pobre animal para uma azinhaga que dava serventia a uma propriedade rural, deixou-o pastar á vontade no feno secco do vallado, e deitou-se extenuado á sombra de uma alfarrobeira.

- Meu pobre mulo, murmurou, fraco alimento te dão os baldios do meu paiz. Tudo está cultivado, mas nada te destinam, porque o teu dono é pobre; e ha dois dias quasi que vive de uvas e figos, que colhe á beira da estrada, como um ladrão!

Porêm a ti, meu pobre companheiro, não te leram um horoscopo brilhante, nem nenhum iman ¹ te prometteu um paraiso!

E de novo a ironia sceptica lhe deslizou pelos labios.

- Nem sequer, meu pobre amigo os doutores de Cordova te ensinaram philosophia, ás escondidas, bem entendido, para não escandalisar os crentes. Negam-te a intelligencia, elles que tantos absurdos têm dicto e escripto sobre a theoria do intellecto e a immortalidade da materia. Sim, continuava falando comsigo - materia eterna, evolução do germe pela sua força latente; Deus indeterminado; leis, natureza, necessidade, razão, impersonalidade da intelligencia, emersão e reabsorpção do individuo...

¹ Pontifice, sacerdote.

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E repetindo quasi machinalmente esta hypothese do systema do Universo, que era uma das bases da philosophia arabe mesmo autes de Averroes, e que em Cordova estudára em associações secretas de academicos, o pobre rapaz tentava esquecer o triste estado de miseria a que se via reduzido.

Os passarinhos pipilavam alegres na arvore que lhe prestára sombra; zumbiam pequeninos insectos dançando sobre as folhas da carvalhice; borboletas brancas, cinzentas, variegadas osculavam levemente os fructos sem deixar vestigios do seu contacto. Sentia-se perto o grogolejar das aguas de um ribeiro.

Os pensamentos do estudante mudaram de rumo. E, tirando de uma especie de sacola que trazia a tiracollo um tinteiro e uma penna de canna, a que chamavam calam, o pobre rapaz, esquecendo a fome, começou a traçar rapidamente num papel linhas symetricas, que pela forma denotavam ser versos ¹.

A penna corria rapidamente, e o papel em poucos minutos quasi cheio indicava no auctor a facilidade do improviso.

¹ O papel é invenção dos arabes pouco anterior ao seculo XI.

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Tão absorto estava na composição, que nem sentia o que em torno d'elle se passava.

Quando, porêm, pareceu terminar, levantou os olhos e... com surpreza e quasi pasmo, viu deante de si, como apparição angelica, a figura elegante e esbelta de uma joven camponeza, que pelo trajo denotava pertencer á classe dos pequenos proprietarios mosarabes, e que olhava como em extasi para o papel a que elle confiára as suas impressões, traduzindo-se-lhe no rosto a admiração e o enthusiasmo.

- Que lindos versos, meu senhor, disse a rapariga córando. Perdoae, mas vendo-vos aqui como extenuado de longa jornada, approximei-me na idéa de vos offerecer os meus serviços. Estaveis tão absorpto em vosso scismar, que não déstes pela minha chegada... E... depois... dizieis em voz alta as palavras que lançaveis no papel, e eram versos tão bonitos, tão lindos... que eu, que ao principio procurára fazer pouca bulha para vos não perturbar, fiquei tambem como presa ao chão, de commoção e pasmo. Oh! eu gosto muito de ler versos bonitos.

- Então sabes ler? disse o estudante.

- Sim, meu senhor. Ensinou-me meu padrinho, fr. Yussuf, do Convento dos Corvos em Tarif-alalaraf ¹, que é irmão de minha mãe.

- Então és christã? mostarabe? ²

¹ Cabo de S. Vicente.

² Mostarabe ou mosarabe.

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- Sim, meu senhor. Já meus paes o eram e meus avós, e meus bisavós, ha muitos seculos.

Mas que importa isso, senhor?! Todos nós somos filhos do Gharb ¹ no formoso paiz do Andaluz.

- Tens razão; não t'o levo a mal.

- É verdade, meu senhor, cada qual segue a religião de seus paes. E os nossos principes assim o têm entendido, permittindo-nos o exercicio livre da nossa religião.

Tem havido infelizmente muitas guerras, guerras terriveis entre christãos e musslimes, como se não fossemos todos creados pelo mesmo Deus, nascidos no mesmo solo andaluz.

Mas os homens são assim, meu senhor, só gostam de combates, e na sua ambição desregrada nem os da mesma religião sabem poupar.

Porêm, neste pequeno cantinho do Gharb, nós, pobres camponezes, temos sido mais felizes que os nossos visinhos de Beja, como me conta meu padrinho, porque os Beni-Mozain, nossos principes, têm sido muito bons para os christãos. Pagamos o nosso kharadji ² e o nosso djziehd ³, e vivemos bem com todos ⁴.

- Eu tambem sou d'este paiz, minha boa amiga. És duplamente minha compatriota, como filha do Andaluz ¹ e como filha do Shilb. Como te chamas?

¹ Occidente da Peninsula.

² Contribuição predial.

³ Capitação.

⁴ Apesar da dominação agarena, Niebla ou Libla e todo o Algarve conservaram durante todo o dominio mussulmano população christã (mosarabe).

D. ANTONIO DELGADO. - H. DE NIEBLA.

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- Mariam.

- Mariam! oh! o nome da grande poetiza de Shilb.

- É o nome da mãe de Issa, meu senhor, de Issa-ibn-Mariam ². Foi por isso que meu padrinho me poz esse nome.

O poeta surriu; com expressão ironica, mas levado a seu pesar pelos habitos da educação, repetiu, como para si, estas phrases que andavam na bocca de todos os sectarios do Koran, no seu extremo rigor pelo monotheismo que mais os distanciava dos christãos:

- Deus não tem filho; Deus não tem mãe; Deus não gera; Deus não é gerado.

A rapariga olhou para elle horrorisada da medonha blasphemia.

- Que dizeis, senhor! Pois na vossa religião podeis por ventura achar um dogma mais santo, uma concepção mais sublime do que a da mãe de Deus descendo a ser mãe de nós todos? Ha por ventura idéa mais poetica e mais nobre, crença mais tocante, que mais nos fale á alma, do que a do amor maternal e filial encarnado na propria divindade? Não amaes vós muito vossa mãe, meu senhor?!

¹ Nome que os arabes davam a toda a Hespanha.

² Jesus, filho de Maria.

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O rosto do poeta transfigurou-se. Passou-lhe outra vez pela alma um relampago de sentimento traduzido na expressão viva do olhar.

E, levantando-se, disse com um suspiro:

- Oh! minha querida mãe, minha pobre Shemsa ¹, unica affeição que me prende a este mundo tão cheio de desenganos. Foi para te abraçar que eu vim de tão longe, arrostando despresos e soffrendo privações. É para te ver rica, feliz, occupando uma posição digna do teu nobre sangue, do sangue d'aquelle a quem uniste a sorte, que eu ambiciono a riqueza e o poderio. E para os conseguir sinto no peito toda a fé de faquir, toda a energia de propheta e de guerreiro.

Hei de consegui-los, eu o juro, e o pobre camponez de Shombos ² ha de um dia collocar-te poderosa e invejada num alcazzar soberbo de princeza.

Nisto, ouvindo um grito distante, como acordando do seu devaneio, disse:

- O que é isto?

- É a voz do muedzen ³ na torre da mesquita chamando á oração, disse a camponeza. É o al-Dohar (meio-dia).

O estudante, o philosopho, o sceptico, o homem da evidencia (ahl-el-tahkik), como se intitulavam os livres pensadores de então, voltou-se respeitosamente para o Oriente, para a sua Mekka sagrada, e á recordação da mãe que idolatrava, que foi talvez a unica paixão duradoura de toda a sua vida, e que em pequenino lhe ensinava as orações da manhã, do meio-dia e da noite, murmurou em voz baixa, como que envergonhado, algumas palavras em puro arabe. E uma lagrima de saudade lhe dançou nos cilios negros.

¹ Conde diz Semsa; Dozy: Chams. A differença é na orthographia.

² Shinibos, Shanabos, Shombos, hoje Estombar? (provavelmente).

³ Muedzen ou muezzin. Herculano escreveu al-mohhaden.

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Ao mesmo tempo as badaladas de um pequeno sino de capella christã chamavam os mosarabes á oração da Ave-Maria.

A bonita camponeza ajoelhou sobre a relva, e orou em latim.

Era um quadro sublime aquelle! Dois sectarios de cultos differentes, cultos que se digladiavam nos campos de batalha derramando rios de sangue, estavam agora aqui neste canto do mundo, sobre a relva secca de um caminho rural, dirigindo em diversas linguas e formulas differentes o mesmo hymno de louvor ao Creador do dia.

- Sabes latim, disse elle, tentando disfarçar certo embaraço?

- Não, meu senhor, eu geralmente rézo em arabe, mas estas orações ensinou-m'as a recitar em latim o meu padrinho, e explicou-m'as. Nós temos todos os nossos livros traduzidos em arabe. Foi o nosso grande Iman que está em Roma quem os mandou traduzir.

O estudante dirigia-se ao muar para continuar a sua jornada, quando a camponeza lhe disse com vivacidade:

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- Nada, nada, meu senhor, vós não saireis assim da nossa pequena cerca. Aqui não se entra impunemente. Não somos arabes como vós, mas somos como que arabes ¹ pela convivencia, e conhecemos muito bem as leis da hospitalidade. Entrae em nossa casa, onde meu velho pae terá muito gosto em vos receber.

O estudante deixou-se insensivelmente conduzir; emoção desconhecida se lhe apoderára da alma de poeta, e aquella voz metalica e suavissima, offerecendo-lhe alimento de que tanto precisava, parecia-lhe a de Namus (anjo Gabriel), que Allah houvesse enviado em seu auxilio.

- Pois aceito, minha boa Mariam; e accrescentou:

Quando um anjo de azas d'ouro nos conduz... - Devemos seguir os raios da sua luz.

Concluiu vivamente a rapariga.

- Bravo! exclamou o estudante, tambem és poetiza, minha boa Mariam, como a tua homonyma e nossa compatriota, a filha de Al-Faisoli, e de mais a mais improvisadora?

¹ Mostarabes, quasi que arabes. - Os arabes respeitaram na sociedade dos vencidos tudo o que não repugnava ao proprio dominio. O que se alterou foram a contribuição e outras relações de direito publico. Herc.º = H. P., pg. 198.

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- Todos nós, neste abençoado paiz do Shilb, somos poetas e sabemos improvisar ¹. Não são os versos a linguagem do coração? E quem neste paiz tão lindo poderá ter o coração silencioso, sem entoar um hymno ao bom Deus que nos deu tanto?

- Tens razão, disse o estudante, e murmurou seguindo-a:

Um paraiso de belleza infinda Pôz Deus aqui; De que tu, nazarena, és a mais linda, Gentil huri!

¹ Caswini. = Caswini foi um geographo mussulmano, persa de nação. Chamam-lhe o Plinio do Oriente.