Os Luso-Arabes/I-VIII
CAPITULO VIII
A ORAÇÃO DA MANHÃ (AL-SOHBI)
Logo ao romper da madrugada, Ibn-Ammar despertou do seu pesado somno, completamente refeito das fadigas da jornada, fresco de corpo e de espirito como a linda manhã que a aurora annunciava. Tirou da bolsa o calam e o tinteiro, e escreveu rapidamente uns versos louvaminheiros para offerecer ao dono da casa com a mira nalguma retribuição que o habilitasse a continuar a jornada, e a levar ainda como economias alguns magros dirhens a sua pobre mãe.
Terminada a composição, para a qual elle mesmo olhava com desprezo, dobrou o papel, e chamando um dos moços da padaria, o qual acabara de amassar, encarregou-o de entregar ao patrão aquelle duro esforço do seu genio.
Depois saíu a dar um passeio matinal pela cidade, esperando o nascer do sol e a hora da oração na mesquita, para ver passar as filhas do logista; levava-o a isso a curiosidade natural aos seus verdes annos, e os encomios paternos.
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Porêm, attrahido pelos encantos que a aurora desenrolava a seus olhos, a ponto de esquecer o seu proposito, saiu da circumvallação, e subiu a uma eminencia, d'onde melhor podia contemplar o esplendido quadro do acordar da natureza. A manhã estava linda. A brisa soprando fresca do lado da serra, acariciava-lhe meigamente a face juvenil. O rio espreguiçava-se em languida corrente por entre a verdura avelludada dos laranjaes e d'outras arvores ajoujadas sob o peso dos fructos. As ribeiras do Enxarim e do Drade casavam murmurejando as suas aguas, que passavam confundidas em conjugal abraço por baixo dos arcos da ponte, estendendo-se em longa fita prateada ao encontro do Wadlouk ¹ e da maré, deixando na vasante algumas ilhotas, menos visiveis então do que agora, augmentadas que estão pelos assoriamentos posteriores e pelo abandono. A bacia do estuario, então mais larga do que actualmente, continha varias embarcações de lote inferior, e nas suas margens viam-se estaleiros para construcção e reparação de pequenos barcos.
A communicação fluvial com Portimão, que servia de porto á cidade, era nessa occasião activissima, e innumeros botes se cruzavam em continuo vae-vem, dando ao vento as pandas velas latinas cortando as aguas placidas, levemente frisadas pela brisa matinal, com a espatula de seus remos.
¹ Odelouca, affluente do Silves.
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Ao fundo a Foia e a Picota conservavam-se silenciosas, envoltas nos seus turbantes de nuvens brancas, como duas sultanas rivaes nos seus véos de gaze, e os montes inferiores, vassalos de suas côrtes, começavam a colorir-se sob o reflexo do sol ainda não nado. A extensa cadeia de cumes, que se desenrola a nascente, ia-se ruborisando mais e mais, e o clarão da aurora, leite entre ouro, azul e purpura, ostentava as suas tintas mimosas, mostrando bellezas que a luz plena do dia não deixa ver, realçadas pela nitidez purissima da atmosphera matinal.
A mudez e quietude da natureza tornava aquelle espectaculo ainda mais grandioso e emotivo. Nessa faixa luminosa esbatiam-se as torres e baluartes da cidade com uma tinta dubia, pouco a pouco avivada pelo reflexo do sol que ia nascer. Os corucheos e minaretes das mesquitas, os telhados e açoteas das habitações mais altas desenhavam-se com o mesmo colorido incerto num fundo opalino levemente azul. Negros e distinctos destacavam-se a leste os altos cones dos cyprestes de um cemiterio ou macborah, como soldados gigantes em fórma, apontando ao homem o infinito dos céos.
De subito, vôa de nascente a poente como que um arrepio de luz, primeiro fremito de vida da cidade que acorda. Elevára-se por detraz das cumiadas da serra o olho de fogo de Wodan, ardente, radiante, creador e juvenil, como no primeiro dia da creação. E no mesmo instante, as torres, os baluartes, as muralhas, as almadenas, os corucheos, as açoteas, os pinnaculos dos montes fronteiros, tingem-se subitamente de um côr de rosa vivo e fresco, como o vulto d'uma formosa odalisca, envolta inteiramente no seu manto de rosas. Resôa por toda a parte o chilrear dos passarinhos que abandonam alegres a sua verde morada de folhagem ou os telhados onde guardam os ninhos; eleva-se a cotovia nos ares soltando o seu hymno ao Creador de taes bellezas. Cae o denso véo da noite, e a cidade emerge das nevoas da madrugada, viva, inteira, resplandecente, rubra nas suas torres e muralhas, azulada nas aguas do seu rio, verde na ramagem dos seus laranjaes, rosada nos seus macissos floridos, parecendo estar a sair das mãos do Creador, por entre verdura, aguas e flores, como a morada do primeiro homem entre os vergeis do Paraiso.
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Então na mais alta almenarah ou somah da mesquita do alcazar appareceu aos olhos de Ibn-Ammar o vulto sombrio do muedzen. ¹ Por um momento esse vulto ficou estatico, esbatendo-se no fundo azul e rosa do firmamento.
¹ Em castelhano antigo al-moedano - pregoeiro, d'onde deriva a palavra almoeda. Gaiangos diz tambem al-muedzen, d'onde o muezzim.
«O muedzen, subido ao alto de uma somah ou torre, entoa uma especie de cantilena, voltando-se successivamente para os quatro pontos cardeaes. - Gaiangos, citado por Estacio da Veiga.
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Depois, para entoar o seu solemne sélam ou saudação a Allah, voltou-se para o oriente na direcção indicada pelo kiblah da mesquita, e tapando os ouvidos com as mãos, gritou com toda a força dos seus pulmões: «Só Allah é grande! Só ha um Deus! Mohammed é o profeta de Deus! Vinde á oração! Vinde á salvação! Deus é grande! Deus é unico, Deus é misericordioso e clemente!
Após isto, deu meia volta no terraço da almenarah, em seguida repetiu os mesmos gritos; depois voltou-se para norte, depois ainda para sul, com as mesmas palavras, e desappareceu.
Chegavam ao mesmo tempo, vagas e enfraquecidas aos ouvidos de Ibn Ammar, vozes longinquas na mesma toada e os sons ainda mais distantes de sineta christã numa caría ou villar mosarabe. ¹
Ibn-Ammar desceu ao Rovale, atravessou a couraça mais tarde rijamente disputada na tomada de Silves por D. Sancho I, e approximou-se do rio.
A actividade ahi, apesar da hora matinal, era já immensa. Todos trabalhavam. Descarregavam-se barcos, carregavam-se muares e camelos, e as cargas de trigo tomavam todas a direcção do castello. Da collina fronteira á cidade poder-se-hiam ver os almocreves descarregando as azemolas no castello, e vasando os sacos nos silos enormes que ainda hoje alli se encontram, e cujas aberturas provocam no visitante o desejo de nellas lançar pedras, para avaliar a profundidade pelo tempo que essas pedras gastam a tocar no fundo. ¹
¹ Uma lei prohibia aos christãos os sinos e o aspecto exterior do templo, mas estas leis prohibitivas nem sempre se cumpriam, como se vê da existencia do convento dos Corvos.
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A grande cisterna ou al-jub, sustentada por varias columnas, e dividida em cinco espaçosas naves, devia então conter agua em abundancia para resistir a um cerco. Alli, proximo da torre albarrã, deviam estar o palacio ou alcazzar de Ibn Mosain e as repartições publicas.
Foi ahi com effeito o palacio de Ibn Maffot, o Aben Afan das chronicas christãs, junto á porta ainda hoje denominada da Traição, por onde segundo a lenda esse ultimo senhor de Silves quiz penetrar na cidade, quando D. Paio Peres Correia a investiu e tomou definitivamente.
E é provavel que, tendo decorrido pouco mais de um seculo entre os governos de Ibn Mosain e de Ibn Maffot, a residencia do wali fosse ainda a mesma.
Os muros de Silves são feitos de taipa, cuja massa se tornou tão rija e consistente, que o camartello é impotente alli.
Tendo assistido silencioso e pensativo áquella animação da margem do rio, Ibn Ammar voltou a Medinah ou cidade propriamente dicta pela porta d'esse nome (Bahr-al-Medineh) e penetrou no castello.
¹ J. B. Lopes.
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A mesquita, situada talvez no mesmo local onde hoje está a velha sé, estava repleta de innumera multidão. ¹ A oração começára ao nascer do sol. Com alguma difficuldade o estudante penetrou no interior do jauf (ponto do edificio opposto ao kiblah, que é tambem inclinado a sueste); e com mais difficuldade poude ainda approximar-se do mihrab.
O mihrab é uma cavidade praticada na parede das mesquitas, mostrando o ponto da bussola indicador da direcção do kaaba, ou da grande mesquita de Mekka; é ahi que se guardam os korans.
O maksurah, ou tribuna de grades destinada ao soberano, estava ainda vasio, quando o estudante entrou no templo.
Quando Ibn Ammar penetrou no kiblah o manbar ou minbar (pulpito) estava occupado por um al-mokri ou leitor de mesquita, que gesticulava animadamente lendo o koran e commentando com phrases de sua lavra os versetos das suras que ia lendo.
Havia terminado o seu discurso, e começava a descer, quando a porta, que communicava o maksurah com a galleria que ligava o templo á residencia do soberano, se abriu, e o principe Isâ, acompanhado de lustroso sequito, entrou no recinto sagrado.
¹ Vide a nota 10 no fim.
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Aos lados do minbar fluctuavam dois estandartes para significar que o koran havia vencido o velho e novo testamento.
Os muedzens do alto dos minaretes ¹ entoavam a altos brados a saudação ao Propheta. A maior parte dos crentes, vestidos de branco, estão em oração. A multidão enche as naves.
Só se vê, em toda a extensão do edificio, gente ajoelhada, muitos de braços abertos, e os olhos em adoração.
Á entrada do soberano, desenrola-se a bandeira verde do Propheta ao som das charamelas; e as maças dos guerreiros, que se conservavam em fórma, retumbam batendo no mosaico do pavimento.
Os olhos de Ibn Ammar faiscaram de odio e inveja ao ver-se no seu mesquinho trajo e ao reconhecer o filho do inimigo de seu pae, joven, bello e ricamente vestido, cercado de vistoso cortejo de grandes, de chefes militares, de Kadhis, de khatibs, de sahibus e de alimes ², e envolto, por assim dizer, numa nuvem de purpura, diamantes e incenso.
¹ Minarete ou al-menarah. O h final pronuncia-se em certos casos t e chama-se então hé-té. N'estas torres tambem se accendiam fachos, para signaes de noite.
² Juizes, secretarios, magistrados e doutores.
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Todos os fieis então se levantam e murmuram as suas preces, fazendo profundas reverencias.
Um servidor da mesquita abre de novo com solemnidade as portas do minbar, e toma uma espada com a qual adverte, voltando-se para Mekka, que todos devem louvar Mahomet. Tudo isto se passa ao som dos canticos sagrados dos mubaliges na sua tribuna.
Os muedzens levantam com mais força nos minaretes o seu solemne sélam. O mufti, todo vestido de branco, como uma pomba, e os faquis entoam hymnos.
O Maksurah enche-se subitamente, deixando apenas um espaço vasio em torno do logar destinado ao principe.
Este, coroado por um turbante terminado no tôpo por um helmo de aço, cingido de perolas coruscantes, e encimado por um crescente rutilante de ouro e pedrarias, trajava tunica de purpura sobre uma loriga ou cota de malha, que lhe descia até ao joelho, descobrindo as pernas defendidas por coxotes com chapas de prata sobre-dourada.
Á cinta tinha apenas um punhal cravejado de saphiras, cujo valor faria a fortuna de um ricaço do nosso tempo, e numa das mãos, trigueiras mas mimosas como as de uma donzella, empunhava uma espada tambem rutilante de joias.
Ajoelhou, e com elle ajoelhou de novo toda a multidão.
Depois de uma curta oração, tendo tomado das mãos de um sacerdote um exemplar do koran, de capa illuminada a oiro, d'onde pendia uma cadeia do mesmo metal, ornada a espaços de pedras preciosas, levantou-se, e, subindo ligeiramente ao minbar, leu em voz alta, com timbre juvenil mas sonoro, estes versetos do seu livro sagrado:
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«Em nome de Allah, clemente e misericordioso!
«Deante de ti, Senhor, inclinâmos os estandartes tomados ao inimigo!
«Abençoa as nossas armas victoriosas e recebe as acções de graças dos teus filhos.
«Allah perdoa as faltas antigas e recentes de todos os que combatem com coragem e esperança na vida futura.
«Elle recebe os mortos no seu seio, e cumula com os beneficios de sua graça os triumphadores!
«Elle conduzirá pelo caminho recto todos os que combaterem por elle.
«Os exercitos do ceo e da terra são de Allah; com a sua sabedoria e prudencia elle os governa a todos.
«Aquelles que, dando-te a mão, te prestam juramento de fidelidade, prestam-no a mim. Quem o violar conte com os fogos da Gehenna.»
Fechou o livro com a mesma solemnidade, e tendo proferido as palavras sacramentaes: Orae a Deus! ajoelhou e ficou um momento absorto em oração mental.
Todos os fieis o imitam, batendo com a fronte no chão. Os mubaliges cantam: «Amen, amen!
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Ó Senhor de todos os seres creados! Amen, amen!»
A multidão, tomada de enthusiasmo religioso e guerreiro, até então contido e silencioso, faz retinir as naves, as capellas, as abobadas, com este grito unisono: - «Não ha outro Deus senão Allah, e Mohammed é o seu propheta! ¹»
Era a scenas taes que um poeta arabe applicava o seguinte canto:
«Um oceano de esplendores enchia o mysterioso recinto; o ar tepido estava impregnado de aromas e harmonia, e o pensamento dos fieis devaneava e perdia-se naquelle labyrintho de columnas, que brilhavam como lanças illuminadas.»
Depois da oração, o principe descendo do minbar sentou-se numa especie de throno, ornado de sóes de ouro em relevo, sob um docel de purpura e brocado.
Então os kadhis e khatibs das povoações do principado apresentaram-lhe os seus papeis. Examinou-os com rapidez, sotopoz a alguns a sua assignatura, cortejou com solemnidade, e saiu com o sequito pela mesma porta por onde havia entrado.
A multidão começou a vasar o templo. E só então na turba de biocos que faziam das mulheres do povo, e ainda hoje fazem nalgumas cidades do Algarve, uma especie de elephantes de longa tromba, Ibn Ammar descobriu duas figuras que lhe pareceram gentis apesar da amplidão do manto. Fulguravam lindos olhos negros, cercados de fartas pestanas, desenhadas talvez artificialmente, por entre as dobras do véo.
¹ Frederico Shack - Poesia e arte dos arabes na Hespanha e na Sicilia
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Pareceu a Ibn Ammar que esses olhos se dirigiam para elle, e, por um gesto commum ás duas figuras, percebeu que o olhavam com certo interesse, como quem o reconhecia.
Passaram rapidamente pela frente do joven, e só depois de passarem, é que Ibn Ammar percebeu, que a seus pés caíra uma flôr.
O poeta curvou-se, poz a flôr sobre o seio, e saiu tambem; mas á saida não viu mais os dois vultos. Quizera procurá-los, segui-los, mas um bom mussulmano não ousaria fazer tal.
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