Os Luso-Arabes/I-XIV
SEGUNDA PARTE
THAÍRA
CAPITULO XIV
BEJA
Onze ou dôze annos antes da epocha a que referimos o principio d'esta nossa simples narrativa (1039 a 1040 da era christã), a velha cidade de Pace, Badje ou Bédja, a cuja reedificação anteriormente alludimos, apresentava tambem, como Silves, um aspecto muito differente do actual.
Verdade seja que a moderna cidade só tem de commum com a de então, o nome, a situação e algum panno de muro antigo, aproveitado por D. Diniz nas reconstrucções que alli mandou fazer quando se elevou a actual torre, que campeia, como senhora, sobre as ferteis planicies que a rodeiam.
Quando D. Sancho I voltava da sua expedição a Sevilha, achou-a em completa ruina, e, não podendo demorar-se nella, mandou apenas substituir na porta principal o brasão de Yacub Al-Mansor, segundo soberano almohade, pelo de seu pae, Affonso Henriques. ¹
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A praça, que teve por primeiro fronteiro christão o grande Lidador, foi por essa epocha varias vezes destruida e os seus campos talados, mas durante o dominio mussulmano, anterior á reconquista christã, não fôra mais feliz.
Ainda mesmo no nosso seculo a velha Pace, como para não perder os habitos antigos, foi em parte saqueada e incendiada por occasião da invasão franceza.
Como um velho guerreiro coberto de cicatrizes, tem durante a sua existencia de seculos luctado sempre com intrepidez, embora tenha caido muitas vezes, prostrada mas não rendida, levantando-se sempre do pó, prompta para resistir e para combater pela liberdade e pela independencia.
Na epocha a que nos reportamos neste estudo Beja não possuia já de pé os monumentos da Pax Julia, muitos dos quaes se encontram soterrados ou confundidos com os de epochas mais recentes. Já no reinado de Abd-er-Rahman I estava em tal estado de ruina que este a reedificou por completo. Assolada e reedificada varias vezes, a nobre cidade tem constantemente sido uma phenix a renascer de suas cinzas, embora d'esse renascimento nem sempre haja saido, como a phenix da fabula, cada vez mais formosa.
¹ Vid. a nota 15 no fim.
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Pelo contrario a cidade actual não prima pela belleza, devido isso em grande parte á estreiteza das ruas, que a antiga tactica exigia, e que a sua posição geographica e a experiencia das invasões anteriores prudentemente aconselhavam.
Este systema de edificações, commum a todas as velhas praças de guerra, conserva-se ainda alli inalteravel, e a velha cidade é tambem como um velho aristocrata, que não abandona a rudeza do seu solar pelos requintes do moderno luxo burguez e nivelador.
Depois da tomada de Sevilha por Musa-ibn-Noseir, na primeira invasão mussulmana do tempo de Rodrigo, algumas forças godas retiraram d'essa cidade para Beja, e emquanto esse general se achava occupado no cerco de Merida, os de Beja e de Niebla entraram em Sevilha e trucidaram a guarnição sarracena. Pouco tempo, porêm, estiveram de posse da sua conquista. Abd-el-Azzis, enviado ahi por seu pae, tornou a reduzir ao jugo musslimico a formosa princeza do Wad-al-Kibir.
Musa segundo uns, segundo outros o mesmo Abd-el-Azzis, marcha á conquista de Beja e á suppressão da revolta; mas o velho municipio romano, sempre prompto a combater pela liberdade, ao contrario de Santarem e de Coimbra, cujos governadores wisigodos transigem, depois de fraca resistencia, com os invasores, só cederá após grande lucta ás armas dos agarenos. ¹
¹ D. Eduardo Saavedra. Inv. de los arabes.
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Occupado por Abd-el-Shebar, nobre arabe da comitiva de Abd-el-Azzis, chefe da ala esquerda do exercito d'este, tronco dos Benu-Zahras de Sevilha, e que se estabeleceu dentro dos muros de Beja, para ahi conter com a sua presença o espirito de revolta dos seus habitantes, o velho burgo curva forçado a indomita cerviz; porêm, logo que se lhe offerece occasião, é dos primeiros a levantar o grito de revolta.
Abul-Katar povoa-a de arabes e egypcios, que, é de crêr, utilisaram com proficiencia as suas feracissimas campinas na cultura do trigo, a que estavam habituados, nos campos ferteis do seu Nilo.
Assim mesmo a sujeição completa está longe da realidade. Em todas as revoltas, que tanto agitaram a Peninsula desde a conquista mussulmana até ao khalifado de Abd-er-Rahman I, os bejenses tomaram parte.
Estava arrazada; este reedifica-a, e com o seu governo paternal e conciliador pacifica-a por algum tempo.
E quando percorre as cidades da Lusitania, Beja com as outras recebe-o com acclamações de jubilo.
Mas no khalifado de Alakem I o káyid de Beja revolta-se contra o khalifa e marcha sobre Lisboa. ¹
Sempre a revolta, embora venha a ruina depois.
¹ Vid. as notas 16 e 17.
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Os mussulmanos, por bem entendida politica, respeitavam, até certo ponto, a religião, os usos, costumes e ritos dos vencidos. Nenhuns conquistadores foram mais tolerantes; mas nas suas guerras civis eram inexoraveis, levavam a repressão até á mais feroz crueldade, e muitos dos seus chefes foram accusados de tratar melhor os christãos que os seus correligionarios. Os prisioneiros christãos reduziam-se ao captiveiro, mas os da sua crença e raça degolavam-se, enforcavam-se, envenenavam-se, crucificavam-se.
Abd-er-Rahman I não só se mostrou tolerante, mas até creou em Cordova um magistrado com o cargo e titulo de protector dos christãos. Em Cordova houve sempre uma cathedral christã, tres egrejas e tres mosteiros. No nosso Algarve a egreja christã de Okssonoba e o mosteiro dos Corvos, e na Beira o convento de Lorvão, e muitos outros attestam a tolerancia mussulmana. ¹
As freiras eram respeitadas, os frades podiam usar a barba rapada, a tonsura e os habitos religiosos. «Respeitae os monges e solitarios», diz o koran.
Comtudo o interesse, e o medo das sevicias a que, apesar de todas estas concessões, os mosarabes estavam muitas vezes expostos, levaram muitos christãos a abraçar o islamismo, ainda que com certo constrangimento, que mal podiam occultar, e provavelmente com a mesma fé, com que os judeus acceitaram o baptismo no tempo de D. Manuel.
¹ Até ás vezes, como em Cordova, o mesmo templo serviu aos dois cultos.
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E assim como os néo-baptisados eram em geral injuriosamente designados pelo nome de christãos-novos, assim tambem em toda a Hespanha os christãos que haviam apostatado, ou por medo ou por interesse, eram então designados pelos epithetos pouco lisongeiros de mulatos, muladis ou muladares e renegados, provindos os primeiros da mistura de sangue hispano-romano-godo que lhes girava nas veias, e o ultimo da sua apostasia que os tornava suspeitos e mal vistos de mussulmanos e mosarabes ¹.
A população de Beja devia de ser muito matizada, constando de mosarabes, renegados e mussulmanos de todas as raças, predominando o elemento egypcio e o mulad.
Quando o celebre caudilho, Ibn-Hafssun ou Hassun, levantou na serra Morena o seu grito de guerra contra o khalifa Abdallah, muitos arabes e muladis correram ás suas bandeiras e o khalifado viu-se seriamente ameaçado por esta revolta ¹.
Os muladis, nos quaes prodominava o sangue hispano, não podiam soffrer a altivez dos arabes e dos africanos. Vexados, desprezados e constrangidos a viver na obscuridade, quizeram sacudir o jugo.
¹ V. nota 16 no fim.
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Nesta guerra, chamada dos mulatos ou mulads, Beja foi tambem das primeiras a acudir ao grito de Ibn-Hafssun. Lisboa, Coimbra, Vizeu seguiram o seu exemplo.
Este Ibn-Hafssun, mulad ou talvez mosarabe, cuja filha Argentea, fundadora de um convento de freiras no seu proprio palacio em Bobastro, era christã e aspirava ao martyrio, chamou muitos bereberes e arabes descontentes ao seu partido.
A campanha, que se protrahiu até ao khalifado de Abd-er-Rahman III, teve alternativas de fortuna, estando os Hafssuns por mais de uma vez senhores de Toledo ¹. Derrotados no Occidente, os Hafssuns, pae e filhos, retiraram-se por fim para os Pyreneos, onde acharam apoio nos christãos independentes para continuar na resistencia aos khalifas.
D'esta campanha saiu Beja tambem quasi em completa ruina. As suas resistencias são tenazes. Não farta ainda de tantos desastres, Beja declarou-se no principio do seculo XI, com quasi todas as cidades que hoje constituem o sul de Portugal (que ainda estavam sujeitas a mussulmanos), pelo berebere Soleyman-El-Alakem, o qual desthronando esse phastasma de soberano, chamado Hisham II, - que tantas vezes desappareceu e tornou a apparecer por de traz dos reposteiros dos seus hadjibs, - se apoderou de Cordova, assumindo o titulo de khalifa.
¹ V. nota 16 no fim.
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Foi então que desappareceu de todo o infeliz Hisham, substituido mais tarde pelo esteireiro de Calatrava.
Nessa epocha toda a Hespanha mussulmana se inflammou num incendio medonho. Foi a chamada primeira grande guerra civil, ao desboroar do khalifado.
Retalhava-se a Peninsula em pequenas monarchias. Arabes, bereberes, slavos todos se guerreavam de castello para castello, todos queriam ser soberanos independentes, muitos aspiravam ao khalifado, que alguns conseguiram só por dias.
Os escravos e eunuchos persas e slavos, conhecidos pelo nome de alameries, que abundavam na côrte como servidores dos khalifas, aspiraram á realeza, e chegaram a sentar-se no throno dos Ommiadas e a constituir monarchias, como o persa Sapor constituiu na nossa Lusitania ¹.
Bereberes e slavos formavam dois grandes partidos, que tinham por inimigos os arabes puros.
Como na dissolução do imperio romano, chegou a haver tres khalifas ao mesmo tempo, afora a sombra do desditoso Hisham, encorporada pelos Abbadidas no esteireiro de Calatrava, como seculos mais tarde, na Hespanha de Philippe II, um frade intrigante, no interesse do prior do Crato, encorporou a sombra de D. Sebastião no pastelleiro de Madrigal.
¹ Um irmão de Sapor, escravo eunucho, fez-se senhor independente de Tortosa.
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Soleyman succumbiu, como os Hafssuns, mas a seu lado succumbia tambem, despedaçado em innumeros fragmentos, pulverisado até, o famoso khalifado de Cordova.
E Beja ficava completamente arrazada, peior do que nas guerras anteriores.
Era sorte sua.
«Estava escripto!» diria algum dos seus poucos habitantes mussulmanos escapados á matança, com a resignação fatalista de islamita.
A velha Pace era um deserto. Dir-se-hia um esqueleto informe, cujos membros, - as pedras dos seus muros e dos seus edificios, - jaziam desconjuntados e dispersos pelo solo, figurando alvas ossadas de uma caravana colhida do simun nos vastos areaes da Arabia Deserta.
Ja precedentemente falámos das horriveis guerras travadas entre os abbadidas e alaftasidas, quando o primeiro Ibn Abbad, pae do Motadhid, quiz reedificar Beja. Seguiram-se as terriveis incursões do principe Ismail, que devastou todas as povoações entre Evora e Beja até ao mar.
No fim d'essa campanha Beja ficou pertencendo definitivamente a Sevilha. O seu territorio era limite entre as duas monarchias; e Evora e Beja, hoje tão irmãs, encaravam-se como rivaes, alterando muitas vezes suas fronteiras em tomadas, perdas e retomadas alternativas de castellos, de sorte que difficil seria determinar-lhes em epochas certas qual fosse a sua verdadeira raia.
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Apesar de tantos revezes, a fertilidade do seu solo depressa lhe attrahia povoadores, e no tempo em que nas mais civilisadas nações da Europa não havia fabricas, esta cidade era ja celebre pelas suas industrias.
Beja deu á Hespanha muitos filhos illustres, mas bastam os nomes do Motamid e de Avenpace, o pae da philosophia arabe em Hespanha, ¹ para honrar a nossa velha cidade ² como berço de heroes e de sabios; e o epitheto al-Bagi (o de Beja) tornou-se tão celebre, que foi tomado por appellido de algumas familias mais nobres do Andalus. ³
Voltando, porém, ao dia em que abrimos este capitulo, de que nos afastou o interesse pelos importantes acontecimentos historicos que rapidamente esboçámos, trataremos de fazer assistir o leitor em imaginação ao nascimento do Motamid, e ouviremos pronunciar esse fatal horoscopo que fez morrer de desgosto o primeiro abbadida, inquietou todos os momentos da vida do segundo e se realisou fatalmente no terceiro.
Bem outro devia de ser em Beja o viver de então do viver de hoje.
¹ Renan. Averroisme.
² Notas de Gayangos a Almakkari.
³ Houve Al-Bagis de Hespanha e Al-Bagis de Africa, por haver em ambas essas regiões duas cidades do nome Beja.
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A sociedade arabe tão differente da christã, pelo que toca á vida da mulher, devia de apresentar quadros completamente diversos dos d'agora.
E tendo nascido nessa cidade o filho de um homem que fez entrar nos seus harens mais de oitocentas mulheres, a vida como se passa hoje ainda no Oriente é que póde dar-nos uma idéa approximada do que seria a Beja de então.
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