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Os Luso-Arabes/I-XXI

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CAPITULO XXI

MARIAM

Deixando por um pouco as scenas esplendorosas que acabamos de imperfeitamente descrever, voltaremos ao humilde casal de Yahya, o mosarabe, onde introduzimos o leitor no principio d'esta narrativa. Penetraremos mais intimamente na pequena alcova do velho fazendeiro e alli o acharemos doente, tendo junto do leito, sentada numa dessas cadeiras de tabúa que hoje ainda se fabricam no Algarve, a gentil Mariam servindo de enfermeira solicita.

O rosto da donzella parecia ter soffrido grande alteração depois que a vimos de pé sobre o vallado da sua cerca, despedindo-se do juvenil hospede que tão generosamente favorecera.

Impressão identica áquella que a sua gentil figura, a sua natural e simples philosophia, exerceram na alma do poeta, havia despertado no peito sensivel da ingenua camponeza a historia dos infortunios de Ibn-Ammar.

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Aquella juventude já tão cortada de illusões, aquelle talento tão mal apreciado, aquella superioridade intellectual, entrevista confusamente pelo seu espirito ingenuo mas semieducado pelas licções do tio, que a estremecia como pae, e se revia de vaidade na sua educanda, essa esperança de um futuro brilhante lido nas linhas da mão, a que tanto mussulmanos como christãos davam egual fé, e mórmente a belleza d'aquelle olhar intelligente e altivo, tudo despertára no coração da pobre Mariam sensações indefinidas, que até então desconhecêra. Não saberia confessar a si mesma a impressão de melancholia, o aperto de coração que sentiu quando a figura do pobre estudante desappareceu na estrada. Parecia que o mundo lhe fugira, que o sol se lhe apagara na alma, que tudo o que a cercava tomava a côr do dó. Não conhecia a sua cerca, o pequeno casal, a copada nogueira, o verdejante figueiral, que até então lhe representavam uma imagem do Paraiso biblico.

Estava tudo agora tão triste, tão negro! O seu pensamento voava... voava por aquella formosa estrada de Silves, vermelha de pó rubro, num labyrintho de fogo, confundindo-se no horizonte com os fogos do sol no occaso, tudo inflammado, tudo côr de sangue!... E estavam talvez na vespera de uma batalha!... Aquelles campos tão placidos iam brevemente ser testemunhas de terriveis combates. E aquelle rapaz tão novo, tão infeliz, ia correr novos perigos, soffrer talvez maiores infortunios!... mas a sina... Talvez d'esses perigos elle saisse um heroe, um grande chefe, um triumphador. Alli, porêm, no limite da sua visão, perdera-se o vulto de um pobre joven inerme no meio das phalanges auxiliares que passavam perto do seu casal em direcção a Silves.

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- Que de perigos, meu Deus! dizia Mariam. Pobre rapaz! que o Creador do Mundo te proteja!...

E depois... parecia-lhe ouvir a voz de um anjo segredar-lhe: «Se aquelle joven fosse christão, ousarias amal-o?»

- Oh! amá-lo!... amá-lo com todo o carinho de que me sinto capaz, toda a força da minha alma, toda a dedicação de uma escrava, todos os extremos de uma mãe!

Mas logo depois parecia-lhe que a imagem da Mãe de Deus, que guardava no seu quarto de donzella, que consultava em todos os transes da sua vida, e a toda a hora invocava em suas preces, que era a sua madrinha e protectora, que parecia sorrir-lhe quando praticava uma acção boa, e lhe franzia o sobr'olho á menor maldade de creança, parecia-lhe que essa imagem, que tinha sempre ante os olhos, lhe dizia:

«Aquelle homem é um mouro infiel! um sarraceno maldito, inimigo da tua crença e dos teus. Aquelle homem, se me visse, a mim, imagem de tua madrinha, da tua mãe celeste, da mãe do teu Deus, far-me-hia pedaços, soltando a horrivel blasphemia - que Allah não tem mãe; que Allah não tem filho!!!... - E ousas tu amá-lo?!...»

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A este pensamento, Mariam soltou um grito, e, como fugindo de si mesma, correu ao seu quarto, a prostrar-se aos pés da Imagem.

O sol, quasi no occaso, penetrava frouxamente pelas fendas do velho postigo da pequena fresta do quarto da donzella, nessa occasião cerrada, e lançava um reflexo vago e incerto na escuridão do aposento então sem outra luz.

A essa meia claridade a imagem da Virgem parecia olhar Mariam com ar severo e ao mesmo tempo com dó.

Mariam, tomada de uma vertigem, afigurou-se-lhe que a Virgem lhe abria os braços, e que com aquelle rosto e aquella expressão de divina meiguice que a arte de todos os tempos soube sempre imprimir ao eterno feminino, lhe dizia:

- Foge, foge para mim, infeliz.

Ouviu-se o baque d'um corpo no chão.

O velho Yahya, correndo ao quarto da filha, achou-a desmaiada, tendo junto do rosto livido a imagem da Mãe de Jesus.

O pae e o tio, inquietos pela saude da pobre Mariam, não podiam perceber o motivo de tão extranho desmaio.

Mariam, voltando a si, procurou animá-los, attribuindo esse desmaio a uma vertigem causada pelo sol que apanhára de manhã no figueiral. Os velhos a principio acceitaram a explicação, e o frade no dia seguinte de manhã retirou-se para o seu convento, dizendo ao cunhado, que se rebentasse a guerra, como o judeu disséra, viria buscá-los para Kenisat Algorab, onde lhes arranjaria perto do mosteiro um asylo seguro durante a campanha, pois nas guerras anteriores nunca a tranquillidade d'aquelle cenobio fôra perturbada pelos belligerantes; devido isso á sua posição geographica nos ultimos confins do mundo então conhecido, e ao caracter pacifico dos monges.

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Porêm a alegria de Mariam tinha desapparecido. O velho olhava cada vez mais inquieto para ella, e, combinando aquella mudança de caracter com a estada do joven mussulmano no seu casal, começou a suspeitar que alguma causa mysteriosa, a que a presença de Ibn-Ammar não era alheia, havia alterado o viver simples e descuidoso da sua querida filha.

Esta diligenciava contrafazer-se para não levantar suspeitas, mas aquelle amor que lhe acordára subitamente na alma, vendo ante si um obstaculo enorme e invencivel, creava todos os dias novas forças e, em vez de esmorecer pela desesperança, robustecia-se na lucta.

E a pobre Mariam desesperava-se, ralava-se, chorava secretamente, consumia-se em esforços impotentes para apagar do peito aquelle affecto, para riscar da memoria aquelle nome.

Tinha receio de encarar de frente a imagem da Virgem, tremia ante o olhar que se lhe affigurava severo da sua madrinha. Resava, resava muito, mas abstrahidamente, sem pensar sequer nas palavras que pronunciava. Do meio d'uma oração passava insensivelmente ao meio d'outra sem dar pela desconnexão da phrase. Descurava os trabalhos da lavoura. O figo perdia-se com o orvalho da noite, porque ella esquecia-se muitas vezes de enrolar á noitinha as esteiras do almanjar; outro passava na propria arvore e caía no chão, estragado, bolorento da humidade.

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Cosia, cosia muito no seu quarto, numa especie de frenesi de louca... mas sem olhar para a imagem da Virgem... temia sempre a censura dos seus pensamentos.

Ficava muita vez com a mão, que pegava na agulha, suspensa; cahia-lhe do regaço a almofada da costura sem que désse por isso, tão absorta estava em fundo scismar. Levava assim horas quando estava só; ás vezes, com o ouvido á escuta, como de quem espera ouvir voz conhecida, vinda do exterior.

A figura de Ibn-Ammar adejava-lhe sempre ante os olhos, por mais que a quizesse repellir.

Então, para se reconciliar com a sua consciencia, figurava vê-lo, quando a voz do muedzen o levou a orar.

Sim, sim! Elle orava, não era um reprobo! um condemnado! Porque elle orava a Allah ou Deus ou Jehovah, que é sempre o mesmo apesar da diversidade de nomes e de cultos, o eterno, o bom, o justo, o misericordioso, o omnipotente. Deus não o amaldiçoaria, não o condemnaria. Não invocava elle o seu nome? Não o poderia ella amar? Não havia tantas uniões entre mussulmanos e christãs ¹.

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Mas os filhos, os seus filhos, se os tivesse de um infiel... os seus filhos quebrariam a imagem de Christo e dos seus santos, despedaçariam o retrato da sua celeste madrinha! e diriam tambem a horrivel blasphemia: «Deus não tem mãe».

Horror, horror, horror!

Todo o seu corpo estremecia a este pensamento.

Perdão, perdão, oh minha Mãe do Ceo! Eu nunca consentiria em tal, nunca, nunca!

E abraçava-se a chorar á Imagem.

E estas crises davam-se todos os dias. As noites passava-as na mesma anciedade, em pesadelos horriveis. Julgava ás vezes cahir nas torturas do inferno! num abysmo de fogo que a devorava e a elle; e acordava gritando: Perdão, perdão para elle, se não para mim! Oh! minha boa mãe!

O pae, vendo-a assim, talvez suspeitando a origem do seu mal, procurava distrahi-la. Tinha tambem um plano, embora se não fiasse muito na efficacia d'elle.

Mas poucos dias depois da partida de Ibn-Ammar, o velho Yahya sentiu-se doente devéras. A enfermidade levou-o á cama, e, presentindo que pouco tempo de vida lhe restava, pensou em pôr immediatamente em pratica o seu projecto.

¹ E' indisputavel a existencia de casamentos mixtos. Herc. H. P. 3.º pag. 198.

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Mariam toda entregue ao tratamento do enfermo sentiu-se um pouco alliviada da obsessão dos seus pensamentos. Por isso a vamos encontrar á cabeceira de Yahya, na occasião de lhe ministrar um caldo.

- Então, sente-se melhorzinho, meu querido pae? Beba este caldo que lhe ha-de fazer bem.

- Estou melhor um pouco, respondeu o velho, afagando os cabellos da filha, e beijando-lhe os dedos, como lhe fazia quando ella era creança. Estou um pouco melhor, estou, mas sinto que estas melhoras não são de longa duração. Estou ja velho, e a velhice, minha Mariam, é doença incuravel, como diz teu tio fr. Yussef no seu latim.

- Ora, não pense nisso, meu pae. Isto é uma simples constipação... e em se curando d'ella fica outra vez rijo como um rapaz. O meu pae não tem cuidado em si. Põe-se a trabalhar sem poder, e ao sol. Não sabe que faz tanto mal, que até noutro dia me fez desmaiar pela primeira vez na minha vida.

- Não foi o sol que me fez mal, que á hora do calor estive eu á sombra.

- Ora, replicou Mariam, á sombra d'uma figueira. Não sabe que essa sombra não é boa para a saude. Nós, graças a Deus, temos alguma coisinha; o meu pae não precisa trabalhar assim.

- Deixa te d'isso, filha, o trabalho não faz mal, mórmente a quem está costumado a trabalhar. Se eu não trabalhasse, morria mais depressa. Os cuidados, Mariam, os cuidados é que me matam. Vejo-me velho, e a idéa de te deixar desamparada e só na vida é o que me rala e atormenta.

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- Ora, não diga isso, replicou a joven, se eu tivesse a infelicidade de o perder, restava-me ainda meu tio fr. Yussef, que é para mim um segundo pae.

- Teu tio está tambem velho, e alêm d'isso não póde dispor de si, pertence á sua ordem, aos seus deveres ecclesiasticos. Como poderás tu viver com elle, tu, uma pobre rapariga, num convento de frades. E alêm disso, os tempos estão terriveis; as guerras civis cada vez mais accessas. Precisas um protector.

Mariam estremeceu.

- Um protector, que quereis dizer, meu pae?

- Sim, um protector, um marido da nossa religião, que pertença á nossa communidade, que cultive este casal como eu o tenho cultivado, como o cultivaram nossos avós, como o hão-de cultivar os teus filhos e netos; não deixando apagar neste país essa religião dos nossos antigos, que tem atravessado, pura, a dominação d'outra raça e d'outra crença, sem nada perder da sua pureza.

- Meu pae!

- Pois quê! Havia de deixar-te neste país inimigo, apesar de ser o nosso, exposta á brutalidade e á lascivia de homens para quem a mulher é uma escrava que se compra nos mercados, e que povôa os harens dos ricos pela mesma ostentação com que povoam de cavallos de luxo as suas cavallariças sumptuosas?

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- Meu pae, nas nossas terras, os christãos têm sido tolerados e as suas crenças respeitadas.

- Nem sempre, minha filha, nem sempre desgraçadamente. E quem nos pode garantir essa tolerancia no futuro, no meio d'estas continuas dissenções civis?

- Ora, não ha-de ser tão mau como imaginaes.

- Por isso, continuou o ancião, baixando a voz tremula e abruptamente, por isso pensei num marido para ti. Teu primo Baskwal, que é christão como nós, parece-me dever realisar os meus planos, e espero que antes de eu morrer me deem a alegria de lhes abençoar a união.

Mariam ficou como assombrada.

- Meu pae! balbuciou ella, revestindo-se de energia. Amo meu primo como parente, e até mesmo como irmão, mas como marido parece-me que nunca, nunca o poderei amar.

- Porquê? disse o velho, franzindo mais as rugas da fronte.

- Porque não posso, meu pae, respondeu Mariam com inabalavel energia.

- Não podes! repetiu o velho lentamente. Não podes, infeliz, porque amas outro, porque déste o coração a um infiel, a um ambicioso, a um villão, que abusou da nossa generosa hospitalidade, para te infiltrar no seio o veneno da sua baba.

- Meu pae, disse Mariam com sobrecenho, esse a quem vos referis não é um villão. Ignora o que se passa na minha alma e não empregou meios menos nobres para captar o meu affecto.

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- Desgraçada, que esperas tu de um infiel? A concubinagem de um harem?

- Meu pae, disse Mariam, com solemnidade, nada vos occultarei. Amo Ibn-Ammar, amo-o muito, mas nunca esquecerei os meus deveres de christã e de mulher honesta, e nunca lhe pertencerei por titulo algum.

Nisto bateram rijamente á porta do casal, e a voz de fr. Yussef fez-se ouvir de fóra.

- Abram, abram depressa, que preciso entrar ja.

O velho sentou-se na cama.

Mariam correu á porta e abriu-a.

Vinha rompendo a alvorada.

Fr. Yussef entrou com dois homens do campo.

- Depressa, depressa, exclamou. Levanta-te, Yahya. Tenho aqui um carro para os transportar ao convento. Tragam alguma coisa mais preciosa, mas não se demorem, por Deus, não se demorem.

- Mas o que é? disse Yahya.

- O Motamid, continuou o frade, acampou esta noite na serra, e vae ja hoje investir Silves, ou pôr-lhe cerco. Aqui não ha segurança. Quererás deixar tua filha num campo de batalha?

- Não, não. Leva-a, leva-a, Yussef, protege-a. A mim deixem-me morrer aqui onde nasci.

- Meu pae, exclamou a joven, morrerei comvosco. Não fugirei, se vós não fugirdes.

O velho levantou-se silencioso.

Mariam correu á imagem da Virgem.

- Ó minha boa madrinha, salvae-nos, salvae-nos!

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Nisto sentiu-se o tropear de cavallos.

- Ja é tarde, oh! meu Deus! exclamou fr. Yussef e deixou-se cahir sobre um banco.

Levantou-se grande gritaria.

- Homens aqui, a esta hora! disse um guerreiro de longas barbas, apeando-se e entrando no casal. São espias de Abu Isâ, provavelmente.

- Um frade christão! exclamou outro.

- Estes christãos são pelos Mosain. Á morte! Á morte!

- Uma rapariga bonita! exclamou um terceiro. Que bella prêsa!

- E que linda! É um bello presente que o principe pode desde ja enviar a seu pae.

Mariam caíra de joelhos, abraçada á imagem da Virgem. Esperava o martyrio.

Um dos mussulmanos, vendo essa Imagem, gritou:

- Parte, parte aquelle idolo, que aquillo são bruxarias dos malditos nazarenos.

Um d'elles ia lançar mão á estatueta da Virgem, mas Mariam levantou-se como uma leôa ferida. Poz a Imagem sobre o peito, e clamou com toda a força dos seus pulmões:

- Para traz, infiel!

Estava sublime!

O mussulmano, supersticioso como todos os da sua raça, recuou ante aquella ordem imperiosa.

Mariam parecia uma estatua de Minerva. Com o olhar em fogo, o braço estendido em tom de commando, o rosto inflammado e o peito palpitante, era soberanamente bella e magestosa.

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Mas os arabes, voltando a si do seu primeiro pasmo, iam lançar mãos profanas sobre ella e empregar a violencia, quando um guerreiro, sumptuosamente vestido, appareceu no liminar.

- Que é isto? exclamou.

Mariam reconheceu-o logo. Era Ibn-Ammar.

- O valido do principe! disse um dos guerreiros, que assistira na noite antecedente á scena que descrevemos no capitulo anterior.

A este nome todos recuaram.

- Arreda, canalha! exclamou elle tambem com o mesmo gesto de Mariam. Quando é que o principe vos auctorisou a exercer sevicias sobre pessoas inoffensivas, ecclesiasticos e mulheres? Não diz o propheta: Sede crueis para os que combatem, mas poupae os sacerdotes, as mulheres e os velhos, seja qual fôr a sua religião? ¹

- Arreda! repito. Esta gente está debaixo da minha protecção.

Mariam perdeu então a energia, que o proprio perigo lhe suscitára, e cahiu quasi desfallecida sobre um banco, murmurando no auge do pasmo:

- Ibn-Ammar!

¹ Koran.