Ir para o conteúdo

Os Luso-Arabes/I-XXIX

Wikisource, a biblioteca livre

CAPITULO XXIX

O PESADELO

Passados os primeiros momentos de pavor, causado pela apparição subita e pelas terriveis imprecações do fakir, o principe sentiu-se prêsa de um somno irresistivel.

A embriaguez actuava então sobre elle com toda a força, prostrando aquella creança ainda fraca para taes orgias.

O vinho tornava-o ainda mais sensivel; e o seu affecto por Ibn-Ammar, em cujo caracter energico tinha illimitada confiança, e a quem a differença de edade dava certa superioridade physica e moral, reduplicara com aquella sobreexcitação.

Levado para o leito em completo estado de embriaguez, repetia com voz avinhada que queria a seu lado o seu Abu Becr, que de modo nenhum o deixassem sem elle, e que só dormindo juntos poderia socegar.

O valido, embora pouco menos ebrio do que elle, teve de lhe satisfazer o capricho, quasi infantil, e deitou-se a seu lado.

300 OS LUSO-ARABES

Dois eunuchos nubios, de nove a dez annos de edade, com tangas de velludo escarlate, peitos e costas nuas, e negras como azeviche, luzindo-lhes sob a vellosa carapinha, aromatizavam o aposento com perfumadores dourados, e com leques de pennas de pavão afastavam do leito algum insecto alado que acaso pudesse perturbar o somno do senhor.

A um gesto de impaciencia do principe, retiraram-se deixando sós os dois amigos.

Momentos depois o Motamid adormecia profundamente.

Ibn-Ammar jazia tambem quasi em completa prostração; porêm, nelle, a embriaguez era de genero diverso. Tinha o vinho triste, como ja dissemos, e passadas as primeiras horas em que os vapores alcoolicos haviam conseguido dissipar a profunda melancholia e o fastio de tudo e de todos, que trouxera da cidade e que o dominara todo aquelle dia, tornou a cair no mesmo estado merencorio, e naquelle mau humor sceptico e desconfiado que fazia a parte proeminente da sua indole.

As ultimas palavras do fakir, que haviam escapado ao ouvido do principe, tinham-lhe ficado, a elle, como gravadas no cerebro com um ferro ardente.

«A cimitarra que mata está muito perto dos labios que osculam», repetia mentalmente.

IBN-AMMAR 301

Esta phrase escripta com sangue estava-lhe, por assim dizer, stereotypada na visão nebulosa, toldada pelos fumos do vinho. Não se lhe apagava d'alli, por mais esforços que fizesse para a banir do pensamento.

- Sim, sim, pensava elle, quem pode fiar-se na amizade, e sobre tudo na amizade de principes.

Quantos e quantos exemplos lhe ministrava a historia desde Assuero e Iscandro até aos khalifas trucidando os seus favoritos, ou fazendo-os degolar e collocando-lhes em postes as cabeças gotejando sangue!

E passava em revista todos os factos historicos em que o favor dos reis se convertera em odio cruel e em furias de panthera.

Apoderara-se d'elle involuntariamente um terror irresistivel, um presentimento horroroso!

Quizera fugir para bem longe, mas o somno da embriaguez prendia-o ao leito. Negavam-se-lhe os membros a todo o movimento. Estava como chumbado aos colchões.

Os eunuchos tinham deixado a alcova frouxamente illuminada por uma pequena lamparina de alabastro, resguardada por um anteparo translucido, emmoldurado em madreperola, atravez do qual passava apenas uma luz mortiça e lugubre.

As tapeçarias pendiam de todos os lados como phantasmas sombrios que pareciam mover-se, vistos pelos intervallos das cortinas da cama, que haviam ficado soabertas a fim de deixar penetrar no interior o ar fresco do ambiente.

302 OS LUSO-ARABES

Os lampadarios pendentes dos artezões do tecto pareciam balouçar-se funebremente, ao tremular da luz pallida, esbatendo em fundo esbranquiçado sombras negras que se cruzavam em arabescos moveis, como que traçando caracteres mysteriosos que traduziam ameaças.

O favorito fechava os olhos de pavor. Aquella opulencia assustava-o. Trocá-la-hia nessa occasião pelo seu pobre mulo, esfalfado e magro, e pela sua velha tunica de pêllo.

Affigurava-se-lhe que o haviam transportado a um mundo desconhecido e povoado de tetricas visões.

Seria aquelle recinto o vestibulo da Gehenna?

Essas visões confundiam-se-lhe mais e mais numa dança macabra medonha. Ja não podia abrir os olhos. A cama, a alcova, elle mesmo eram um todo inteiriço, como que homogeneo, cujas partes se não podiam desprender uma das outras.

Dormia; mas fremitos nervosos lhe agitavam os membros.

Soltou subitamente um grito, e acordou, presa de um panico indescriptivel.

Soara-lhe distinctamente aos ouvidos uma voz tremenda pronunciando estas horriveis palavras: «Desgraçado, elle matar-te-ha um dia! ¹»

Instinctivamente tentou fugir; quiz erguer-se, mas o torpor tolhia-lhe todos os musculos. Sentia-se como um homem atacado de catalepsia, que tenta em vão erguer no leito da morte os membros paralyticos.

¹ Historico.

IBN-AMMAR 303

Incerto entre o sonho e a realidade, queria esfregar os olhos para acordar, mas os braços e as palpebras inertes negavam-se ás determinações da vontade.

A voz calara-se; mas as ultimas ondas sonoras por ella produzidas reboavam-lhe no tympano como um dóbre a finados.

Perderam-se-lhe de novo as idéas num somno inquieto; dormia, mas com estremecimentos continuos, num lago de suor ardente, intercortado de calefrios gelidos.

O principe resonava a somno solto.

O silencio só era interrompido pelo crepitar da luz bruxuleante da lamparina, que parecia ir apagar-se.

Outro fremito mais forte sacudiu-o de novo violentamente.

Ouviu segunda vez as mesmas palavras fataes:

«Desgraçado, elle matar-te-ha um dia.»

Era horrivel! Não poder fugir, não poder sequer soltar um grito! Num campo de batalha não tremeria, porêm aquella situação apavorava-o com um terror de que elle se envergonharia noutra occasião, mas a que não podia resistir agora.

Decididamente estava chumbado ao leito. Estaria enterrado vivo? Estaria ja morto? Jazia de certo na sepultura. Não estava estendido sobre lençoes, mas sobre a lagea fria d'um tumulo. Aquillo não eram colgaduras de damasco, eram as paredes marmoreas d'um mausoleu!... Horror!...

304 OS LUSO-ARABES

Deixou de luctar. Deixou-se ir ao seu destino.

- A morte deve ser isto, pensou elle... mais nada... mais nada!...

E o livre pensador, o homem da evidencia ¹, julgava achar agora alli a demonstração das suas theorias materialistas - o nada!...

Adormeceu de novo, como se entrara nesse nada que a sua orgulhosa razão tantas vezes julgára explicar, sem jamais comprehender.

Pouco depois, pela terceira vez, a voz funerea resoou aos seus ouvidos com mais força.

Ouviu-lhe distinctamente todas as syllabas. - «Foge, foge, desgraçado, que elle matar-te-ha um dia!»

Envidando todos os esforços, conseguiu erguer meio corpo, e achou-se sentado na cama.

A luz estava a apagar-se.

O terror no seu auge deu-lhe forças. Saltou para fora do leito.

Na lamparina levantou-se um clarão muito vivo, que se extinguiu de subito.

Ibn-Ammar achou-se em pé no meio das trevas; mas aquella transição rapida da luz viva para a escuridão completa ainda lhe confundiu mais o espirito.

Dirigiu-se para a porta da alcova, porêm ja não a encontrou no logar em que julgava achá-la.

¹ Renan.

IBN-AMMAR 305

Procurou-a ás palpadelas. As suas mãos febris encontraram o frio marmoreo de um busto de jaspe.

Estremeceu e recuou, como se houvera topado com um cadaver.

Estava inteiramente desorientado. Tudo se lhe confundia num dedalo de horrores. Tropeçava nos moveis, e tremia parecendo-lhe sentir ja no collo o gume da cimitarra do principe.

Diligenciou socegar, orientar-se, fazer pouca bulha, para não acordar o seu verdugo; mas os moveis trahiam-no caindo com estrondo.

Tremia em todos os membros. A impressão do horrivel pesadelo não o largava.

Conseguiu finalmente achar a porta.

Internou-se ás escuras numa longa galeria.

Esbarrava nas columnas e nas paredes, mas nem a pancada nem o contacto frio do marmore ou dos azulejos ¹ podia fazê-lo acordar completamente.

Ainda mesmo no seu somnambulismo conheceu que estava proximo a uma escada. Desceu-a amparando-se ás paredes.

No patamar passava um longo corredor. Enfiou por elle cambaleando. Este corredor communicava com outro num labyrintho inextricavel. Viu-se outra vez perdido.

Achava-se como um visitante das catacumbas de Roma, a quem se houvesse apagado a luz, e que tivesse perdido o fio conductor, nas entranhas da terra, e no seio das trevas.

¹ Vide nota 25 no fim.

20

306 OS LUSO-ARABES

Deitou-se no chão, numa agonia extrema, prostrado pelo desespero.

Os seus terrores, em vez de diminuirem com a volta da razão, augmentavam.

Sob o ostimulo d'esses terrores, fez um ultimo esforço, levantou-se ainda e caminhou ao acaso.

Emfim, uns fracos raios de luz, coados pelos intersticios de uma porta, fizeram-no conhecer o terreno que pisava.

Achava-se num vestibulo que dava entrada para os aposentos dos eunuchos, e communicava com uma varanda exterior do palacio.

Estava ja acordado, mas a impressão do pesadelo não cessava. As terriveis palavras continuavam sempre a ferir-lhe o tympano: «Elle matar-te-ha um dia!»

Dirigiu-se ao portão. Achava-se este fechado, e as chaves tinha-as de certo o porteiro.

O seu plano estava formado. Fugiria para Portimão, e embarcaria no primeiro navio que o levasse á Africa. Abandonava de boa mente todas as suas grandezas.

Era, porêm, forçoso esperar pela manhã, para que a porta se abrisse.

Firme no seu proposito, resolveu-se a esperar.

Procurou onde esconder-se para que, quando o porteiro saisse do quarto, o não visse; e, descobrindo uma esteira de tabúa ao canto da quadra onde se achava, envolveu-se nella.

IBN-AMMAR 307

Acabava de se esconder, quando um grande ruido de vozes e de passos precipitados resoou por todo o palacio. Ibn-Ammar enrolou-se melhor na sua esteira procurando reprimir as palpitações do coração.

O principe, acordando em sobresalto, déra pela falta do seu favorito, que esperava encontrar junto de si.

Cheio tambem de terror e inquietação, gritou afflicto.

A esse grito os criados acudiram de todos os lados. Ninguem sabia o que era feito de Ibn-Ammar.

O principe envergou á pressa um roupão, e á frente dos creados dirigiu a busca.

- Abu Becr, Abu Becr, gritava elle em lagrimas, onde estará o meu Abu Becr, a luz da minha alma, o meu braço direito, o meu irmão? Quem me levou o meu amigo?

Os criados esquadrinhavam todos os recantos do palacio, e com seus alvitres diversos augmentavam a confusão.

O principe ordenou que tomassem cuidado com as portas, que não deixassem entrar nem sair ninguem.

Elle mesmo ia na frente dos serviçaes levantando reposteiros, revistando camas, abrindo armarios e caixões, examinando tudo onde um homem se pudesse esconder.

- Ai! exclamava soluçando, levaram-me a metade da minha alma. Foi de certo aquelle maldicto fakir. Vejam se encontram esse horrendo velho; tragam-m'o pelos cabellos, arrastem-m'o aqui pelas barbas, perro e malvado! Quero cevar-me no seu sangue. Ha-de restituir-me o meu amigo.

308 OS LUSO-ARABES

E chorava desesperadamente a cada pesquisa que se tornava inutil.

As mulheres do harem, ouvindo a gritaria e vendo-se abandonadas dos eunuchos, julgando que pegara fogo no palacio, acudiam espavoridas, num desalinho pouco elegante, embora completamente vestidas como costumavam dormir.

Emfim chegaram todos ao portico onde Ibn-Ammar estava escondido.

Os criados, como de costume, parecendo muito empenhados na busca, não faziam mais que augmentar a confusão.

Passavam pela esteira sem se lembrarem de a examinar.

Ibn-Ammar tremia dentro do s'eu envolucro de palha.

Fez involuntariamente um movimento na occasião em que o principe lançava os olhos sobre a esteira.

- Quem está ahi mexendo nessa esteira? gritou o Motamid.

E, correndo todos os criados a examiná-la, Ibn-Ammar appareceu no mais ridiculo estado do mundo, tendo por unico vestuario um par de ceroulas, tremendo em todos os membros e córando de vergonha sem ousar levantar os olhos.

A esta vista o Motamid rompeu em pranto.

IBN-AMMAR 309

- Oh! Abu Becr, que tens tu para procederes de tal modo?

Depois, vendo que o seu amigo continuava a tremer, levou-o com carinho para o seu quarto, onde procurou tirar d'elle o segredo de tão extraordinario proceder.

Esteve muito tempo sem o conseguir.

Num violento paroxismo nervoso, dividido entre o ridiculo da sua posição e o pavor, Ibn-Ammar ria e chorava ao mesmo tempo.

Tendo, emfim, socegado, confessou tudo.

O Motamid ria de jubilo da confusão do seu favorito.

- Querido amigo, disse-lhe então, apertando-lhe as mãos affectuosamente, os vapores do vinho offuscaram-te o cerebro, e tiveste um pesadelo, nada mais. Julgas por ventura que eu esteja alguma vez disposto a matar-te, a ti que és a minha alma, que és a minha vida? Isso seria commetter um suicidio.

«Ibn Ammar - diz Abd-al-Wahid, que conta esta historia com as proprias palavras do favorito, - tentou com effeito esquecer esta aventura, e conseguiu-o; mas, por fim, tendo-se passado muitos dias e muitas noites de intervallo, aconteceu-lhe o que mais tarde contaremos ¹.»

¹ Abd-al-Wahid, pag. 81 e 82. Ibn Bassan, tom. IX, pag. 113, tinha ouvido contar esta aventura a varios wasires de Sevilha, que a tinham a seu turno ouvido ao proprio Motamid. Dozy, l. c., pag. 138.