Os Luso-Arabes/I-XXV
CAPITULO XXV
O FAVORITO
Poucos annos depois da conquista do moderno Algarve pelas armas do principe Motamid, poderiamos encontrar esse principe em companhia do seu favorito Ibn-Ammar no pomposo palacio denominado o Sharadjib. ¹
A affeição votada pelo futuro heroe de Zalaca ao pobre poeta de Silves, que rebentara subita no coração d'aquella creança caprichosa, costumada desde o berço a dominar tudo com a sua voz soberana, que só cedia ante a vontade ferrea de seu pae, augmentava de dia para dia e chegára a tal ponto que nem um instante o principe podia dispensar a companhia do valido.
Largara-lhe, como dissemos, todo o governo da provincia com o titulo de primeiro wasir e não tomava a mais pequena resolução sem o seu conselho.
¹ Xeredjé - em Conde; Charadjib em Dozy - Palacio das Varandas.
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Ibn-Ammar correspondia perfeitamente a esta confiança.
Apesar dos poucos annos, as suas aptidões naturaes, desenvolvidas pelos estudos historicos e philosophicos, e pela experiencia precoz dos revezes da vida, tinham-lhe amadurecido rapidamente o genio. E cedo começou a manifestar os talentos politicos e administrativos, que, juntos ao valor militar, deviam fazer d'elle no futuro não só um dos primeiros generaes mas o mais habil diplomata da Hespanha no seculo XI.
Presidia quasi sempre ao divan ou conselho que desde o tempo de Becr, bisneto do godo Radulpho, dava a Silves um certo caracter de independencia.
Os velhos magistrados e governadores d'esse waliato reconhecendo o talento governativo do valido do joven principe, desejosos de agradar ao seu nobre wali, seguiam de bom grado os conselhos de Ibn-Ammar, e obedeciam gostosos a um moço pouco antes obscuro, e que, se o tivessem visto no vestibulo de seus palacios com o mesquinho trajo e na posição humilde com que o apresentámos aos leitores, teriam mandado pôr na rua pelos seus escravos.
O Motamid era uma creança feliz. Ignorava ainda então o conteudo do seu fatal horoscopo, que tinham tido o cuidado de lhe occultar, e que até mesmo passára da lembrança dos cortezãos, como uma banalidade e superstição a que se não devia dar crédito; embora os principios felizes da vida do principe estivessem de accordo com a primeira parte d'esse thema genethliaco. O proprio Motadhid, inebriado pelo exito feliz de suas emprezas, havia esquecido um pouco a fatal predicção; um pouco, dissemos, e não inteiramente, porque nas noites de insomnia, o horoscopo fatal lhe vinha á mente com todos os seus horrores.
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Persuadido de que os estrangeiros a que os astrologos se haviam referido eram os bereberes, que então occupavam como senhores independentes muitos dos principaes estados da Hespanha mussulmana, e que a toda a hora, vindos das praias do Moghreb, desembarcavam nos portos da Peninsula, votava-lhes odio implacavel, e empregava todos os esforços e ardis, ainda os mais perfidos, para os anniquilar.
O Motamid, porêm, era, como iamos dizendo, uma creança verdadeiramente feliz.
Caracter sympathico em todos os tempos da sua vida, coração sensivel, todo ternuras e affecto, só duas vezes na vida o sangue de seu pae lhe referveu nas veias: quando, para vingar o assassinio de seu filho, mandou crucificar Ibn Okacha juntamente com um cão, e quando, vendo a esposa insultada pelo maior amigo, vingou nelle a affronta recebida.
Isso, comtudo, succedeu muitos annos mais tarde, e agora vamos vê-lo na sua primeira juventude, todo entregue ás doçuras da amizade e dos amores faceis e passageiros, que faziam o enlevo dos mussulmanos: unico escopo, a que mira a sua educação e a sua falsa moral, favorecida por uma religião toda sensual e materialista, em que os gosos concedidos á alma são as voluptuosidades do corpo, e em que o paraiso promettido, é, como diz Cantu, um festim de lupanar.
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O seu gosto artistico, ainda então em germen, desenvolveu-se precozmente no seu palacio de Silves, chamado Sharadjib, de que elle falla com tanta saudade e enthusiasmo no poema feito a essa cidade, e cuja traducção apresentaremos brevemente ao leitor.
«Empregava-se nesta epocha, com effeito, diz o sr. D. José Amador de los Rios, durante aquelle primeiro periodo da sua vida publica, na construcção e engrandecimento do palacio do Charadjib, qualificado pelo mesmo principe de soberbo alcazar numa das suas mais apaixonadas poesias, e digno de ser contado entre as maravilhas da arte mahometana, por competir em sumptuosidade de fabrica com o peregrino da decoração, em que, a despeito dos preceitos do koran, se representam leões, elephantes e cavallos, alternando com mui apreciadas estatuas de marmore, destinadas a lisongear a sensualidade do futuro senhor de Sevilha.»
Quem hoje, vindo embarcado de Portimão a Silves, percorre aquella pittoresca toalha de água, orlada de um e outro lado de esplendida vegetação, mas quasi deserta e pobre de edificios marginaes, mal póde conceber como aquelle rio, agora tão humilde, poude outr'ora banhar tão esplendidas construcções.
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Emballado por aquellas aguas placidas em noites amenas de luar, o viajante julga ouvir os sons da cithara da formosa cantora do bracelete de ouro, quando, reclinada nos braços de seu juvenil amante, desperta com a sua canção guerreira o futuro heroe de tantas batalhas; e afigura-se-lhe sentir nos pingos da agua levantada pelos remos o gotejar melodioso de notas de uma harpa, semelhando perolas desenfiando-se do collar da linda moura, cuja voz de timbre sonoro e dulcissimo os echos da noite parecem trazer-lhe na viração fresca do rio.
E a casta Diana, ruborisada d'assistir áquella scena de amor, deveria esconder nas ramarias das alamedas o seu disco argentino, abrindo ao mesmo tempo sobre a superficie lisa e placida das aguas o seu leque de pedrarias, como a provocar a cantora a certamen de belleza e pompa.
Os rostos brancos ou bronzeados das circassianas, das gregas, das asiaticas, em fim de mulheres formosas de todas as raças e de todos os typos desenham-se-nos na phantasia por entre as neblinas humidas da noite, povoando esses jardins-phantasmas de miragens seductoras, reflexos de um passado remoto mas brilhante, que a lenda e a poesia hão dourado desde o berço em nossas almas.
E os raios dos seus olhos penetrantes como espadas e lanças, ¹ parecem vir misturados com os raios do luar ferir o peito do viajante joven, que se reporta em imaginação áquella epocha de esplendores.
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Penetramos com a phantasia nesses salões sustentados por elegantes columnatas de porphido, por entre estatuas de marmore disputando preferencias ás bellezas animadas, na alvura dos rostos e na perfeição das formas, e julgamos ouvir a voz juvenil do real poeta, soltando ás virações os seus cantos de amor, ao som dos beijos ardentes da «joven seductora de gentis formas e cintura airosa.»
E todavia no meio de toda essa volupia o Motamid não perdera tão depressa as doces illusões da juventude e os sentimentos de affecto desinteressado; porque os amores passavam, mas a amizade pelo seu favorito crescia de dia para dia.
Todos sabem que a vida de continua opulencia perde pelo habito grande parte dos seus attractivos, que os prazeres cançam, que as sensações se embotam, que a satisfação de todos os appetites e caprichos conduz ao tedio, á hypocondria e até ao suicidio; todavia, para quem como Ibn-Ammar provára a longos tragos da taça amarga da miseria, os esplendores do luxo e das grandezas deviam ter um encanto magico, inexprimivel.
Imagine-se o que se passaria na alma do pobre aldeão de Shombos, ao ver-se elevado ao mais alto cargo da sua cidade natal, rodeado de luxo, prazeres e amores nos formosos jardins do Sharadjib. E esta vida esplendorosa devia forçosamente absorver-lhe todos os pensamentos, e a idea da pobre camponeza christã desvanecer-se-hia insensivelmente no torvelinho de magnificencias de que se via rodeado. Além disso não podia por certo comprehender aquelle amor purissimo e ideal da virgem nazarena, aquelle idealismo que a levava a sacrificar o coração no altar da sua crença; elle, iconoclasta desde o berço, como todos os mussulmanos, não podia conceber que uma pequena estatueta de marfim tosca, sem arte, fosse uma barreira insuperavel entre elle e o seu amor. Aquella exaltação da mulher christã, aquelle espiritualismo que elle alcunhava de supersticioso, mas que involuntariamente reconhecia como sublime, enchia-o de pasmo, mettia-lhe medo.
¹ Veja-se o poema de Motamid adeante.
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Conhecia-se fraco para a lucta com os seres invisiveis que aquella estatueta evocava, como se fôra um feitiço, um symbolo de magia. Comtudo sentia-se tomado de respeito. Não ousaria quebrar essa imagem, como o seu duplo dever de mussulmano e de homem da evidencia lhe impunha.
Por detraz d'ella estava a bondade da joven camponeza, o seu coração de pomba e alma de anjo, estava a doce e ingenua philosophia da donzella, toda caridade na mais ampla accepção de amor ao genero humano; e sobre tudo a virtude pura, meiga, angelical, divindade a que todos os povos prestam culto; mas virtude que elle nunca achara na mulher mussulmana, e que apenas entrevia, não podendo verdadeiramente concebê-la.
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Depois da tomada de Silves e dos primeiros momentos dados á victoria e ao prazer do engrandecimento, Ibn-Ammar lembrara-se do seu idyllio amoroso.
Procurara indagar da residencia de Mariam, mas todas as pesquisas haviam sido baldadas. Nem no mosteiro dos Corvos, nem no casal da estrada de Silves havia noticias da familia de Yahya o mosarabe.
Fr. Yussefja não estava no mosteiro; dizia-se vagamente que passara para o convento de Lorvão nos dominios dos Benu-Alaftas, não longe de Colimbria (Coimbra). O casal da estrada de Silves era cultivado por um sobrinho de Yahya, chamado Basckwal, que dizia tê-lo comprado ao tio antes d'este ter partido para o norte.
Dizia-se mais que o frade, quando embarcara em Shacres, havia levado comsigo o cunhado e a sobrinha.
Ibn-Ammar jurara encontrar Mariam fosse onde fosse, ainda mesmo que ella estivesse em país de christãos.
Como, porêm, as relações dos Alaftas com os Abbadidas eram sempre pouco cordeaes, não era facil a Ibn-Ammar ir a Lorvão.
Alem disso os prazeres que o prendiam a Silves, a sua elevação a primeiro wasir, a administração do estado que lhe estava confiada, a amizade intima do principe que não dispensava um dia a sua presença, tudo lhe fazia adiar para mais tarde a satisfação do seu juramento.
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E entretanto no coração do valido a imagem de Mariam obliterava-se insensivelmente no meio d'aquelle esplendoroso viver.
Nos poucos momentos de repouso e de recolhimento de espirito que a vida tumultuosa lhe deixava, recordava-se por vezes com saudade do seu terno idyllio, mas era como a recordação de sonho celeste, que se desvanecia ao alvorecer do dia ruidoso.
Todavia ao apagarem-se-lhe na memoria as feições d'aquelle anjo do bem, os seus puros sentimentos da juventude iam esmorecendo pouco a pouco, para dar logar aos sentimentos egoisticos, que sempre nelle depois predominaram, a uma ambição e vaidade desenfreadas, e á descrença de tudo e de todos, cujo germen ja houvera trazido de Cordova quando estudante.
Nos seus maus momentos, dizia a si mesmo que Mariam nunca o amara, que, se o amasse, não o tivera abandonado, não lhe tivera fugido assim. Que a differença de religião não era obstaculo a que se contrahissem uniões entre mussulmanos e christãs, que a maior parte dos harens eram povoados de nazarenas, e que muitas sultanas eram christãs e conservavam a sua crença mesmo na vida do harem; que a mulher em Hespanha não era uma escrava como no Oriente, e que, a não serem principes e potentados, os mussulmanos em Hespanha viviam com suas esposas quasi como os christãos.
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Não o amava decididamente, pois o sacrificava ao que elle chamava idolo, chimera, preconceito.
Então atufava-se nos prazeres faceis, e procurava esquecer nos braços das escravas voluptuosas a magica impressão de saudade que alli mesmo o perseguia.
Esse idealismo a que se sentira aspirar junto d'ella era tambem chimera. Não havia amor, não havia sequer amizade, como imaginavam os ingenuos.
A affeição que o principe lhe tinha era talvez um capricho passageiro.
A felicidade consistia unicamente nos gosos materiaes, no prazer de governar os outros homens, de os enganar, de os prostrar no campo das batalhas ou no campo das intrigas, de galopar sobre os cadaveres dos vencidos, de se vingar de seus inimigos, e de se ver respeitado e adorado, como um deus, pelas multidões.
O Motamid, muito mais novo, sentia ainda vivas no peito as emoções ternas da sua edade.
Não achando na mulher mussulmana a realisação do seu puro ideal, dedicava-se á amizade com todo o excesso de uma paixão.
Muito joven ainda, como acontece a todos os mussulmanos, já conhecia os prazeres sensuaes, e entregava-se a elles com todo o enthusiasmo da juventude e todo o ardor dos da sua raça, mas procurava com a amizade encher o vacuo que esses faceis prazeres lhe deixavam nalma.
A affeição por Ibn-Ammar tornara-se uma loucura. Não podia estar nem um instante sem elle.
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Nos salões e jardins do Sharadjib, que aformoseava com todas as pompas da arte, os dois amigos passavam a vida no seio dos prazeres, poetando, tocando, estudando, e em intimo convivio jogando o xadrez: jogo em que Ibn-Ammar se tornou tão habil, que mais tarde, como veremos, ganhando nelle uma partida a Affonso VI de Castella, salvou o territorio de Sevilha de uma invasão de christãos.
Uma vez passeavam juntos como de costume, divertindo-se a poetar ao desafio, genero favorito dos arabes, quando se ouviu a voz do muedzen.
O principe exclamou:
«Não ouves o muedzen annunciando A hora da oração?»
Ibn-Ammar respondeu:
«Se assim o faz, está por certo esp'rando Dos peccados perdão.»
O principe ajuntou:
«Visto que á verdade rende preito, Seja ditoso e f'liz»
Ibn-Ammar replicou:
«Com tanto que sinta bem no peito O que com a lingua diz». ¹
¹ Dozy. V. a trad. em prosa no fim.
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Estes versos retratam o sentir dos dois naquella epocha.
Um, todo candura e confiança, o outro ja então revelando o cynismo e scepticismo de que mais tarde deu exuberantes provas.
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