Os Luso-Arabes/I-XXVI
CAPITULO XXVI
O SHARADJIB
E onde estava situado este palacio de que não restam vestigios conhecidos?
Desejariamos bem poder averiguar este ponto que interessa a nossa historia politica e a nossa historia da arte; mas affigura-se-nos difficil, senão impossivel, determinar-lhe a situação.
Albufeda e Ibn-Alabar fallam de passagem nesse palacio, mas não dão mais informações do que as que nos dá o proprio Motamid na sua poesia.
Sabemos que o celebre Ibn Kassi ou Ben Cosai alli foi preso e talvez assassinado, ou executado por ordem do almohade Abdulmumen.
Estes successos são contemporaneos do nosso Affonso Henriques, de quem Ibn Kassi foi algum tempo alliado, e como taes relativamente modernos; comtudo não achamos vestigio, nem nos nossos historiadores nem na tradição local, d'essa sumptuosa residencia.
Suppomos que o Sharadjib terá sido um palacio de recreio no campo, e que deveria ter certa semelhança com as opulentas villas ou residencias reaes de verão, das quaes havia grande numero nos arredores de Cordova, taes como: Kasru Hadjiri (palacio do confluente), Kasru Zaharah (palacio da Flor), o mais rico e celebre de todos e de que por mais de uma vez temos falado, e varios outros: casas, de campo pela maior parte, sumptuosas em tudo e onde o amor do luxo e o gosto pelas bellas artes, até mesmo pelas que lhes eram interdictas, se podia melhor desenvolver. A aristocracia arabe era pouco orthodoxa, e só no interior dos seus palacios, vedado ás turbas fanaticas, poderia á vontade cultivar as artes que o koran condemnava como perigosas por induzirem á idolatria.
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Deduz-se da poesia do principe Motamid ser o Sharadjib uma residencia pomposa onde havia jardins á borda do rio, nos quaes elle passeava com as suas mulheres em noites de luar.
«Quantas vezes, diz elle, passeei eu no valle á borda do rio com a bella cantora, cujo bracelete se assemelhava á lua no seu crescente! Ella inebriava-me de todos os modos, ora com os seus olhares, ora com o vinho que me offerecia, ora emfim com seus osculos.»
É tambem provavel que este palacio, ornado com estatuas e figuras de leões e elephantes, fosse antes um palacio de recreio do que a residencia official do chefe do estado, a qual deveria ser situada na cidadella ou castello principal da cidade.
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Não é de crer que esta infracção do koran se desse ostensivamente na morada official d'um chefe dos crentes, e, embora os abbadidas fossem pouco orthodoxos, é de suppor que reservassem para as suas casas de recreio a imitação da arte grega, que tinham gosto para apreciar como verdadeiros artistas, mas que lhes era defeso ostentar ante as multidões, como chefes dos fieis.
Todavia, desta infracção ao seu codigo religioso não é este o unico exemplo.
Da mesma epocha é a estatua equestre de Badis Ibn Habbus, o terrivel sultão berberisco de Granada: estatua que deu o nome á formosa casa do Gallo. ¹
Antes e depois d'esta epocha encontramos outros exemplos da mesma infracção.
No celebre palacio de Zahara, o khalifa Abd-er-Rahman III mandara collocar sobre a porta o retrato da sultana Zahara.
Nesse palacio havia uma riquissima fonte dourada e esculpida, feita na Syria ou em Constantinopla, rodeada de estatuas representando figuras humanas, trazidas pelo grego Ahmed.
O kalifa mandou para alli doze figuras de animaes, feitas de ouro e ornadas de pedras preciosas, de cujas bôccas saia agua continuamente, e que haviam sido fundidas na fabrica real de Cordova. ²
¹ Simonet.
² Réné Menard - H. des Beaux Arts - Moyen Age - Tomo 2.º pag. 129. Vid. Nota 21 no fim.
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Mais tarde os reis de Granada ornaram na magnifica residencia de recreio da Al-hambra, um pateo, que ainda hoje conserva o nome de pateo dos Leões, com as figuras desses animaes. ¹ Mas em toda a parte é nos palacios de recreio que se encontram representações de figuras humanas ou de animaes, que poderiam dar occasião á idolatria, de que Mahomet tanto se receava.
Foram talvez esses simulacros que provocaram o vandalismo dos berberiscos na destruição de Zahara; e foi talvez o mesmo fanatismo dos almohades africanos que arrasou o Sharadjib depois do assassinato, suicidio ou execução de Ibn Kassi. ²
Os terremotos frequentes, as guerras, o odio religioso que se desenvolveu entre as varias seitas mussulmanas e a acção roedora do tempo anniquilaram esses monumentos, perdendo-se até a idéa da sua situação. Á intolerancia das seitas islamitas succedeu a intolerancia entre christãos e agarenos, irritada e desenvolvida depois da invasão almoravide por vinganças e represalias reciprocas, a tal ponto que, como disse Estacio da Veiga, os christãos dos primeiros tempos da reconquista do nosso solo julgavam um crime perpetuar pela conservação do apparatoso lavor artistico dos arabes a memoria de um povo infiel e odiado. As ruinas do antigo paço de Zahara só recentemente se encontraram por acaso nos campos de Cordoba la Vieja. E assim como estas só se acharam por acaso, póde ser que ainda o acaso depare os restos do Sharadjib.
¹ Simonet diz que talvez sejam de origem assyria.
² Vid. Not. Biog. no fim.
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Falando da arte arabe não podemos deixar de mencionar aqui de relance um notavel escripto publicado ha pouco no visinho reino por Simonet, cujas obras nos tem muitas vezas servido de guia neste estudo. É uma memoria apresentada no Congresso Catholico em Bruxellas.
O fim a que esse trabalho se destinou foi demonstrar a superioridade da influencia christã e mosarabe sobre a mussulmana na civilisasão medieval da Hespanha. Essa superioridade é inegavel até certo ponto. Simonet desenvolve-o brilhantemente. O iconoclastismo deixava apenas aos arabes em poesia a lyrica, em artes a architectura; e muitas crenças muslimicas eram antagonicas aos estudos philosophicos. E não obstante os arabes hespanhoes tiveram celebres philosophos como Averroes e Avenpace, e foram quasi todos cultores distinctos das artes e das lettras.
A sensualidade oriental, é certo, corta as azas á verdadeira elevação de espirito, e se algumas artes resplandeceram com immenso fulgor na Peninsula durante o dominio mahometano, os arabes foram sempre imitadores quer da Grecia antiga, quer da arte bysantina, cujas obras primas encontravam a cada passo na Hespanha wisigothica. E todavia os monumentos que d'elles nos restam provocam o nosso assombro.
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Nesses esplendorosos restos encontram-se sempre vestigios da arte bysantina. Os seus operarios eram mosarabes ou mulads. Arcos de architectura arabe assentam em capiteis corinthicos. Das mil e tantas columnas da cathedral de Cordova cento e quinze vieram de Nimes e Narbonne, cem foram offerecidas pelo imperador de Constantinopla, e as outras provinham de diversos templos pagãos e christãos da propria Hespanha. O mesmo succedeu com as quatro mil trezentas e doze columnas do palacio de Zahara. No Oriente dava-se o mesmo, mas neste respigar em campo alheio elles encheram os seus celleiros de farta colheita de maravilhas.
Por isso, concordando com o illustre professor granadino, não podemos deixar de confessar com a humildade que nos impõe o nosso obscurissimo nome, que elle nos parece severo de mais, quando chega a aventar, embora com palavras de Sancery, (que adduz como argumentos confirmativos do seu rigor), que Fernando Ruiz, architecto da cathedral de Cordova, deixou de pé a mesquita por vaidade de artista, a fim de se poder comparar a sua concepção grandiosa com o ridiculo plantío de columnas do seu collega arabico.
Dóe-nos a expressão ridiculo plantío, applicada a um monumento de tal ordem que o talento creador de Fernão Ruiz não ousou tocar-lhe, apesar da intolerancia religiosa e politica d'essa epocha e do antagonismo dos dois cultos.
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Confessamos que o genio artistico e poetico dos arabes desconheceu a aspiração para o infinito e para o ideal, que o texto do alcorão lhes não podia despertar.
E embora Victor Cousin chame ao koran, encarado sob alguns pontos de moral, uma reedição do Evangelho, é evidente que está longe, muito longe da sublime inspiração do christianismo, e contradictorio e disparatado como é tambem em muitos outros pontos, não póde produzir a belleza esthetica e ideal das concepções christãs, que tem por objectivo os gosos indefinidos e sublimes da alma.
Mas os gregos, que crearam as artes classicas, estavam tambem muito longe das concepções mysticas do christianismo. Inspiravam-se como os arabes nas paixões humanas e no sensualismo pagão; a sua Venus não era uma Madona, o seu Jupiter afigura-se-nos um verdadeiro sultão, quasi todos os seus templos eram mais torpes, muito mais torpes que serrálhos, e a belleza corporea fazia o ideal dos seus artistas.
E nem por isso renegaremos a arte classica. Os arabes não foram creadores; de accordo.
É facil de reconhecer que as tribus do Yemen e do Hedjaz, de costumes nomadas e rudes, tão barbaros que até, antes de Mahomed, enterravam as filhas ao nascer, pelo despreso em que tinham a mulher ¹; que esses homens educados num fanatismo guerreiro, encruecidos por mil batalhas, não vieram trazer á Hespanha logo nos primeiros tempos da conquista uma cultura ja perfeita.
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Mas com elles vieram á Peninsula persas, syrios e egypcios ², que em geral se confundem com o mesmo nome de arabes, e que traziam das escolas de Alexandria e Edessa os restos das litteraturas e sciencias orientaes antigas, que as armas de Alexandre haviam feito conhecer á Europa. Depois, misturando-se com o elemento hispano-romano-godo representado pelos mulads e mosarabes, os arabes-hispanhoes constituiram uma civilisação especial, e uma nova arte, embora não original, mas tão brilhante que nunca a historia a poderá esquecer. A architectura, chamada mudejar, que embelleza os monumentos christãos da Hespanha, deve-lhes muito. Os arabes não crearam, é certo, mas devemos convir ³ que levaram a subido grau o que acharam creado; e a sua imaginação exaltada e ardente sensualismo, inflammados pelas promessas de um paraiso de delicias, chimericas sim, mas accessiveis á rude comprehensão humana, seductoras, por assim dizer tangiveis, e adaptadas a seus fogosos temperamentos, elevaram as sciencias, a poesia e as artes que lhes não eram interdictas a alturas verdadeiramente vertiginosas ¹.
¹ Viardot H. d'Esp. Amador de los Rios. - M. Esp.
² Vid. a nota 22 no fim.
³ Amador de los Rios.
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Parece que a Providencia, nos seus imperscrutaveis designios, tendo destinado os arabes da peninsula-hispanica para conservadores e transmissores do saber antigo, negando-lhes o genio creador, lhes deu, como ficha de consolação, o verdadeiro talento de apreciação do bello e do grandioso.
E no desenrolar das pompas, no phantasiar das magnificencias, por isso que tudo visa á sensação, tudo tambem é maravilhoso, deslumbrante, assombroso.
Primavam em tudo pela hyperbole, e assim como ainda hoje os esplendorosos monumentos que d'elles nos restam provocam o nosso pasmo, assim tambem outr'ora o seu lyrismo empolado arrebatava e seduzia irresistivelmente as multidões.
Vamos ver mais um exemplo d'essa irresistivel seducção no silvense Ibn-Ammar, que, com os seus versos, no dizer do historiador Conde, «enlabiava todos com quem tratava», servindo-se, em proveito da sua ambição, do seu talento de poetar como da melhor arma.
¹ Em Cordova, muito antes de Al-Edrizi, ensinava-se geographia com globos quando no resto da Europa se ensinava que a terra era chata.
DRAPER, l. c.