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Os Luso-Arabes/I-XXXII

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CAPITULO XXXII

ISMAIL

O principe, que a duas jornadas de Sevilha, em vez de marchar sobre Cordova, voltara com uns trinta dos seus para a cidade com o intuito de se rebellar contra o pae, tinha ja o harem rodeado dos guerreiros mais fieis.

Aproveitando a ausencia do Motadhid que a essa hora estava no palacio de Zahir, do outro lado do rio, Ismail atacou a cidadella que achou fracamente guardada. Depois carregou em machos os thesouros de seu pae, e para que ninguem pudesse levar a noticia da rebellião á outra margem metteu a pique as barcas amarradas deante do alcazar, e, levando sua mãe e as outras mulheres, tomou o caminho de Algeziras.

Entretanto, apesar das precauções que tomara para que a noticia da rebellião não chegasse aos ouvidos do pae, este foi informado de tudo por um cavalleiro do sequito do principe, que, desapprovando aquelle criminoso proceder, passára a nado o Guadalquivir.

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Immediatamente mandou brigadas de cavallaria bater campo por todos os lados, e enviou expressos aos governadores das suas fortalezas. Ismail achou fechadas todas as portas dos castellos que lhe ficavam no caminho. Receando que os kayids se reunissem para o perseguir, implorou a protecção de Hacçadi, governador d'um castello no districto de Sidona. Este concedeu-lhe o seu pedido, com a condição de elle permanecer numa collina fóra da cidade. Depois, acompanhado dos seus guardas, foi procurá-lo, e aconselhou-o a que se reconciliasse com o pae, offerecendo-lhe a sua mediação. Vendo o mallogro do seu plano, Ismail consentiu. Hacçadi permittiu-lhe então que entrasse no castello onde o tratou com todas as attenções devidas á sua alta jerarchia, e apressou-se a escrever ao Motadhid. Dizia na carta que o principe estava arrependido da sua rapaziada, e lhe pedia perdão. A resposta do Motadhid não se fez esperar. O senhor de Sevilha declarava perdoar ao filho. Ismail e sua mãe voltaram a Sevilha. O pae deixou-o na posse de todos os seus bens, mas fê-lo guardar rigorosamente ¹.

Quanto a Bizilyani e cumplices, mandou-lhes cortar as cabeças.

Quando Ismail teve noticia d'estas execuções, elle, que conhecia muito bem a duplicidade de seu pae, só viu uma cilada no perdão que obtivera.

¹ Dozy, l. cit.

IBN-AMMAR 333

Desde então o seu partido estava tomado. Tendo ganho á força de dinheiro os guardas dos aposentos do rei e alguns escravos, reune-os durante a noite, arma-os, fá-los beber para lhes dar coragem e escala com elles um logar do palacio, que julga facil de surprehender. Espera achar o pae adormecido; e d'esta vez está bem resolvido a tirar-lhe a vida. Mas de repente o Motadhid apparece á frente de seus soldados.

Á sua vista os conspiradores fogem. Ismail consegue transpôr a muralha da cidade; mas alguns soldados, mandados em perseguição d'elle, alcancam-no e trazem-no prisioneiro a seu pae.

No auge do furor o tyranno manda-o arrastar ao interior do palacio, e, tendo afastado todas as testemunhas, degolla-o com a sua propria espada.

Assim matou elle por suas mãos o herdeiro do throno, o principal auxiliar das suas empresas, em que punha todas as esperanças de grandeza para a dynastia que fundára, e de que tão soberbo era.

Assim, o principe de Silves viu-se de repente elevado á categoria de principe herdeiro e o seu valido Ibn-Ammar, o pobre aldeão de Estombar, deu mais um passo para a realisação dos seus sonhos de ambição e poderio.

«Aplacada a colera do tyranno, continua ainda o seu biographo, viu-se este reduzido á mais sombria tristeza, e a dilacerentes remorsos.

Aquelle filho que contra elle se revoltara, que attentara contra a sua vida, que lhe roubara os thesouros, e até as mulheres do harem, tinha sido bem culpado sem duvida. Mas por mais que repetisse isto a si mesmo a todo o instante, não podia esquecer que o tinha amado, amado realmente. Naquelle filho sabio e prudente no conselho, valente e intrepido no campo da batalha, vira o apoio da sua velhice prematura, o continuador da sua obra. Agora destruira com as proprias mãos as suas mais queridas esperanças.

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Tres dias depois d'esta sanguinolenta catastrophe, conta um wasir sevilhano, entrei eu com meus collegas na sala do conselho. O rosto do Motadhid era terrivel de aspecto. Nós tremiamos de medo, e, saudando-o, mal pudemos balbuciar algumas palavras.

O rei mediu-nos com o seu olhar perscrutador, dos pés á cabeça, depois rugindo como um leão:

- Miseraveis, exclamou, porque é este silencio? Estaes-vos talvez regosijando da minha desgraça! Saí immediatamente d'aqui ¹.»

Na mesma noite da morte do principe, a vingança do Motadhid extendeu-se a todos os cumplices.

As mulheres do harem pagaram caro a sua connivencia com os conjurados.

¹ Dozy, l. c. textual.