Os Luso-Arabes/I-XXXIII
CAPITULO XXXIII
A EXECUÇÃO
Se penetrassemos de novo nos aposentos de Thaira, vê-la-hiamos como uma estatua de marmore tombada, envolta em funebres crepes.
Reclinada no mesmo coxim, em que poucos dias antes a viramos, olhava vagamente para o tecto, insensivel a tudo o que se passava em torno.
Gritos estridulos de dôr e de angustia extrema echoavam por todos os lados do harem.
Ella, porêm, parecia nada ouvir. Como enleada num devaneio morbido, o seu espirito parecia adejar em regiões mysteriosas e phantasticas. Tinha numa das mãos um objecto que de vez em quando beijava com saudade.
Era um lenço que pertencera a Ayub, e onde elle lançara a ultima golfada do seu sangue, ao expirar; lenço que ha mais de vinte annos ella guardava religiosamente como uma reliquia.
- Foste feliz, Ayub, murmurou, morreste de felicidade; ao passo que eu fiquei neste mundo só para soffrer. Alma nobre, que sabias amar, peito de ouro, que neste inferno da vida soubeste guardar a joia preciosa de um coração puro, fizeste bem em deixar tão cedo a terra.
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Os gritos repetiam-se com insistencia medonha; ella, porêm, não lhes prestava attenção. Não sabia o que havia succedido, mas aquelles gritos denunciavam-lhe que alguma coisa horrivel se passara. Esperava a morte tambem, mas resignada; somente tremia por seu filho. Havia ainda uma esperança naquella alma, mas essa esperança era bem fraca. Viveria ainda o seu Ismail?
Levantou-se; pegou num Crucifixo que conservara occulto num cofre de ebano. Depô-lo sobre o peito, e reclinou-se novamente no coxim.
Tentou orar, mas em vão. As palavras confundiam-se-lhe tumultuosas nos labios, como tumultuosas se lhe confundiam tambem no cerebro as idéas.
No seu viver de desespero, esquecera quasi as orações da sua crença.
- Meu Deus! meu Deus! salvae o meu Ismail! exclamou, e soltou uma torrente de pranto.
A porta abriu-se de par em par ao embate de violentos encontrões.
Entraram os algozes.
Eram eunuchos negros, medonhos, horrendos, respirando sangue e carnificina. Pareciam demonios num festim de feiticeiras.
Ella, enxugando rapidamente as lagrimas, levantou-se de um pulo, e com o seu gesto de soberana, perguntou:
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- O que quereis de mim?
- Executar as ordens do amir, respondeu o chefe dos verdugos.
- E meu filho? o meu Ismail?
- Perguntae aos corvos do al-kassr, ou aos vermes das cryptas funereas, o que contam fazer dos seus despojos.
- Morto! morto!... mas como?...
- Degollado pela propria mão de seu pae.
A hyena deu um pulo de furor, como querendo lançar-se sobre os negros; mas dois braços robustos a seguraram sobre o coxim.
- Maldição!... exclamou com um grito, onde o odio, a raiva impotente, o desespero e o furor se conglobavam num rugido de tigre.
Depois, serenando, lançou mão, do Crucifixo que depusera sobre o coxim, e collocou-o novamente sobre o peito.
E, deixando-se cair exhausta sobre o divan, pronunciou lenta e serenamente estas palavras:
- Faze o teu dever.
O negro disse com solemnidade: = Só Deus é grande! O muito alto, muito poleroso amir de Sevilha e de todo o Andalus, successor dos khalifas do occidente, Mohammed Ibn Kassem - Ibn Ismail - Ibn Abbad-Al-motadhid billah, o abençoado de Deus e chefe dos crentes, ordena que te sejam cortados os pés. Prepara-te para o cumprimento d'esta sentença. =
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A sultana encarou-o com ar altivo, e, tomando a reliquia que ha pouco lhe vimos beijar com amor e osculando com respeito o Crucifixo que puzera sobre o seio, exclamou, como falando a seres invisiveis:
- Ayub, foste mais feliz. Morreste num incendio de amor, eu morro num incendio de odio.
E voltando-se para o algoz, arregaçando-se com impudor sublime, descobriu as pernas, alvas ainda como columnas de jaspe, e disse imperiosamente:
- Corta.
O machado caiu duas vezes, produzindo o som secco de ossos e carnes cortadas, mas nem um gemido se ouviu.
Thaíra abafara a manifestação da dor com o lenço de Ayub.
O sangue espadanou sobre a alcatifa, e um cadaver jazeu sobre os coxins.
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