Ir para o conteúdo

Os Luso-Arabes/II-IV

Wikisource, a biblioteca livre

CAPITULO IV

UM SARAU DO PRINCIPE AL-RASHID

Entremos em imaginação no alcazar de Sevilha.

O Motamid depois de ter recuperado esta cidade juntamente com Cordova do poder dos toledanos, tinha tratado de a embellezar por todos os modos com soberbos edificios e monumentos de toda a especie.

Em 1079 um espantoso terremoto assolara mais ou menos todo o littoral do Mediterraneo, fazendo-se sentir com mais força na peninsula hispanica principalmente na Andalusia, onde se deram identicos horrores aos que ainda ha poucos annos se repetiram nesse formoso país, e que varias vezes se têm dado em Portugal e em Hespanha.

Em Sevilha caíram por terra os principaes edificios. Até a velha mesquita aldjama ou cathedral - que fora destruida pelos magiogs ou majús quando numa das suas incursões devastaram Lisboa, os portos do Algarve e Beja, e chegaram a tomar Sevilha ¹ - havia sido levantada das suas ruinas pelos primeiros abbadidas.

VOL. II 3

34 OS LUSO-ARABES

Destruida novamente pelo terremoto de 1079, foi reedificada pelo Motamid, que a adornou bem como o alcazar com todos os requintes da arte arabe.

As ruinas do opulento palacio de Zahara foram aproveitadas para o embellezamento do alcazar, da mesquita e de varios edificios de Sevilha; e os vestigios da magnificencia e do fausto dos khalifas em Cordova foram desapparecendo a ponto de se ignorar, ainda ha pouco, a situação de Zahara nos campos de Cordoba la Vieja, como se ignora entre nós a situação do Sharadjib nos campos de Silves.

Alêm d'isso o Motamid enriqueceu Sevilha de mesquitas, banhos, aqueductos, hospicios, de que ainda hoje se encontram restos desfigurados por novas construcções.

A famosa Itimad fundou tambem varios monumentos do seu bolsinho particular.

O senhor D. José Amador de los Rios indica-nos algumas d'essas obras, e transcreve a esse respeito duas inscripções arabes, que se encontram uma na torre da collegiada de S. Salvador e outra no muro exterior da egreja de S. João de la Palma, gravada esta numa loisa de marmore, e mencionando o nome da augusta princeza Itimad, mãe do principe Al-Rashid, como o da reconstructora da torre da mesquita que alli se erguia ¹.

¹ Vide a nota 29 no fim. Magiogs ou majús era o nome dado aos normandos pelos arabes.

AL-MOTAMID 35

O mesmo escriptor nos diz que os abbadidas tinham duas pomposas residencias em Sevilha, e apresenta-nos ainda restos das suas bellezas artisticas em algumas gravuras que acompanham o seu estudo.

O Alcazar, porêm, parece ter sido a morada favorita dos soberanos ou, na ausencia d'elles, do governador ou wali da cidade, que quasi sempre era um filho do soberano reinante.

Era, pois, no alcazar de Sevilha que o principe Al-Rashid, seu governador, dava os saraus musicaes e litterarios de que nos fala o historiador D. José Conde, e aonde nós, com o privilegio de phantasista, vamos entrar.

Al-Rashíd não desdizia da belleza, vivacidade e talento dos principes da sua familia.

Musico e poeta distincto, amenisava os intervallos que lhe deixavam a guerra, em que tambem era habil e valente chefe, e os cuidados do governo da cidade, com recreações artisticas e opulentos saraus litterarios, nos quaes reunia em certames poeticos e conversações eruditas todos os talentos de ambos os sexos, que, protegidos pelo generoso Motamid, então enxameavam em Sevilha.

Como todos os principes mussulmanos, era celebre pela prolifiquidade, pois nos dizem os seus chronistas que deu a seu pae quarenta e sete netos.

¹ Vide nota 30 no fim.

36 OS LUSO-ARABES

Nas reuniões semanaes ás sextas feiras, recebia nos seus salões todas as notabilidades do talento, quer em sciencias e artes, quer em poesia.

Tocava mihazor e alaude, e acompanhava-se nesses instrumentos cantando as poesias que compunha.

Pouco escrupuloso, como seu pae e avô, na observancia dos preceitos do koran, reunia nos saraus mais intimos as beldades do seu harem, e do de seu pae, que se distinguiam pelo talento de poetar; e sua mãe Itimad presidia a esses saraus, em que tambem as irmãs Buthinah e Imah se faziam notar como poetisas.

Os homens mais importantes de Sevilha, quer nas lettras, quer nas armas, tomavam parte nestas assembleas, onde os assumptos politicos e militares occupavam os intervallos da musica, das improvisações e das discussões litterarias.

Ahi, numa das salas do alcazar, de que ainda nos restam vestigios no celebre salão dos embaixadores, assistiremos a uma d'essas reuniões intimas.

O luxo das galas era em tudo perfeitamente adequado á ornamentação dos salões e á architectura do edificio.

Como por toda a parte onde os abbadidas viviam, encontravam-se a cada passo os maravilhosos trabalhos artisticos dos arabescos, dos mosaicos, das inscripções douradas, dos finos rendilhados dos marmores e dos porphidos; tectos de madeiras perfumadas; moveis de primoroso acabado, ouro e pedrarias fusilando, á luz de mil lumes, relampagos deslumbrantes que se cruzavam com os raios, não menos vividos, dos olhos das juvenis princezas e do seu esplendido cortejo de beldades.

AL-MOTAMID 37

Nesse salão encontraremos os nossos conhecidos Ibn-Zeidun filho, que continuava a dar lustre á brilhante eschola zeidunita, de que seu pae havia sido fundador, e o silvense Ibn-Salam, amigo de Ibn-Ammar, que alli ostentava magestosamente as insignias e galas do seu cargo supremo de prefeito da cidade.

Isâ, secretario particular do principe, e outros intimos da familia tinham tido nessa noite a honra de ser alli admittidos.

A sultana favorita, a caprichosa Itimad, estava, ao que parecia, de mau humor.

Mollemente reclinada sobre os coxins, brincava distrahida e melancholicamente com os cabellos negros e annelados de uma menina que mal entrara na adolescencia; e mais de uma lagrima se confundia com o aljofar das perolas que ornavam as tranças opulentas e a tunica de brocado da linda creança.

Essa creança era a formosa Zahída, ja então promettida em casamento a Affonso VI de Castella, e que brevemente devia ser conduzida a Burgos, para o poder de seu esposo christão. ¹

¹ Vide a nota 31 no fim.

38 OS LUSO-ARABES

Itimad não approvava o casamento de sua filha; guardava, até, certo rancor ao negociador d'esse tratado. Porêm, como o partido clerical e devoto se oppunha a tal enlace, e o considerava como um sacrilegio, a sultana, que era odiada por esse partido, e que não menos o odiava, não ousara fazer opposição.

Não obstante, ao seu amor de mãe repugnava entregar a filha tão joven, tão innocente e tão bella a um christão, inimigo nato, mau grado as repetidas allianças, do nome, da crença e da raça arabe.

Uma coisa a contrariava sobremodo: era a preponderancia ganha por Ibn-Ammar no espirito do Motamid, preponderancia que ousava medir-se com a sua caprichosa influencia nos negocios politicos.

Receava, porém, que, se se opposesse francamente ao casamento de sua filha, o Motamid, que fundava grandes planos sobre a alliança com Castella, não accedesse a esse capricho e tornasse ainda mais manifesta a superioridade da influencia do valído.

Tendo feito algumas objecções ao projecta do enlace, seu marido tocara-lhe a corda do orgulho, que era a que no seu espirito vibrava com mais força.

- Não gostarás de ver a nossa filha no throno de Castella, Leão e Galliza? Adfuns ibn Ferdeland de todas as suas mulheres só tem filhas. Se Zahida o fizer pae d'um filho do sexo masculino, não será esse o soberano mais poderoso da Isbania christã, e não reinará a nossa familia em quasi toda ou em toda a Peninsula, tanto na parte christã, como na mussulmana? E no futuro, quem sabe?... não se realisará o nosso sonho da unidade de todo o Andalus nos nossos netos?

AL-MOTAMID 39

Itimad não respondeu nem fez mais objecções; mas, apesar de tudo, no seu coração o odio a Ibn-Ammar recrudescia.

Ja desde muito a sultana guardava no fundo d'alma um rancor implacavel ao favorito.

Rivalidade de talento, de influencia politica, de concorrencia até no coração do seu senhor.

Agora que estava prestes a separar-se da filha predilecta, apesar de toda a sua vaidade e ambição, a sultana amaldiçoava Ibn-Ammar.

As princezas Buthinah e Imah, na flor da belleza e da juventude, discutiam com a Abbaduyya, outra mulher do Motamid tambem poetisa, assumptos litterarios; e commentavam, reviam e criticavam as mais recentes producções dos poetas da côrte.

Aquella assembléa parecia uma sessão de preciosas no Hotel Rambouillet.

A poesia arabe, como a do seculo XVII em quasi toda a Europa, exaggerada nas ideas e mais ainda na forma, prestava-se muito a taes discussões.

A forma era mais que tudo o ideal dos talentos da epocha, e as difficuldades do metro e sobretudo as da rima, ja conhecida de gregos e romanos mas cuja applicação se attribue aos arabes, faziam o encanto e ao mesmo tempo o tormento dos poetas cortezãos d'aquella epocha.

40 OS LUSO-ARABES

Como mais tarde nesse mesmo país de Hespanha a escola de Gongora desvairava os espiritos e corrompia o gosto, assim o pedantismo litterario, e os exaggeros e affectações rhetoricas dos arabes prejudicavam muitas vezes o verdadeiro lyrismo e occupavam os animos com futilidades.

A reputação da Walladah, a real poetisa de Cordova de que mais de uma vez temos falado, estribava-se menos nas finas concepções do seu espirito, aliás distincto, do que nos artificios da forma.

A riqueza da lingua era tal que em alguns dos mais longos poemas arabes reproduzia-se a mesma rima em todo o curso da composição.

Os trocadilhos, os acrosticos, os monorimos como mais tarde entre os provençaes, e entre nós até aos fins do seculo passado e principios d'este, occupavam os animos dos ociosos da côrte e das beldades dos harens.

- Conheceis a linda poesia de Ibn-Mokhana na rima mim, perguntava Buthinah a Abbaduyya?

- Ibn-Mokhana o de Lisboa, interrogou esta?

- Sim, respondeu a princeza, Ibn-Mokhana al Lishbonni, o auctor d'essa linda e difficil poesia, toda na rima mim, dedicada ao khalif al-Idriz Ibn-Yahya, descendente do propheta, e que elle recompensou com a honra da sua presença.

- Oh! linda! linda essa kassidah! disse Abbaduyya. E alêm da difficuldade da rima, que belleza de imagens! que arrojo de pensamentos!

AL-MOTAMID 41

- Sei-a de cór, disse Imah. Vejam que lindos conceitos!

«Emquanto os outros homens são formados De agua e de pó, Os netos do propheta, Allah creou-os Com agua só. Mas da fonte mais pura de verdade: Da agua da justiça e da piedade.

O dom da prophecia sobre o avô Do ceo desceu; Adeja um anjo invisto sobre a fronte Do neto seu: Namus, o cherubim de azas radiantes Recamadas de per'las e diamantes!

O rosto de Edriz, chefe dos crentes, Semelha o sol, Quando, não nado ainda, ja deslumbra Com o arrebol. Eia! vejamos-lhe a luz livre e sem véos, Que é a luz do Senhor da terra e ceos!»

O khalifa que escutava encoberto pelo reposteiro, arrebatado de enthusiasmo, esqueceu a etiqueta e exclamou para o seu hadjib:

- Corre a cortina, não sei recusar o que assim me pedem ¹.

Estes versos recitados com emphase pela voz maviosa e meiga de Imah, despertaram no auditorio um côro de applausos.

¹ Al-Makkari.

42 OS LUSO-ARABES

Serenado este, Abbaduyya perguntou:

- Será o cadhi de Badajoz, Ibn-Mokhana, filho d'esse poeta inspirado?

- Provavelmente, respondeu Buthinah, mas esse nada se parece com o pae. É o espirito mais prosaico, mas tambem é o juiz mais recto e o magistrado mais respeitavel da monarchia dos Alaftas, segundo nos diz Ibn-Salam.

Ibn-Salam, ouvindo o seu nome, ousou intrometter-se na conversação do circulo feminino, accrescentando:

- Ibn-Mokhana e Ibn-Badji (o de Beja), cadhi de Merida, são os homens mais conspicuos do reino de Badajoz.

- Dizem que Ibn-Mokhana vive sempre na sua quinta de Elvas, quando os cuidados do cargo lh'o permittem ¹.

- O novo rei de Badajoz, Omar, a quem ainda chamam o de Evora, por ter sido muito tempo wali d'essa cidade, é tambem um talento poetico de primeira ordem.

- Foi um desastre para nós, disse Al-Rashid approximando-se do grupo, a morte inesperada de Yahya Ibn-Alaftas em Merida. O wali de Evora, Omar, desavindo com seu irmão Yahya, havendo-se levantado com o seu waliato, viria naturalmente a ser um alliado natural de Toledo contra Sevilha.

¹ V. Noticia biog. no fim.

AL-MOTAMID 43

- Ibn-Ammar, interpoz Ibn-Salam, tentou attrahi-lo á nossa alliança, mas um filho do Modhafar nunca esquecerá os desastres de Beja e as devastações do principe Ismail. A união de Benu Alaftas e de Benu Abbads nunca será cordial.

- Ibn-Ammar, murmurou á parte Ibn-Zeidun, só soube vender-nos aos christãos por dois anneis de brilhantes. É um habil diplomata, accrescentou ironicamente.

Itimad ouviu este áparte, e recompensou-o com um dos seus mais amaveis sorrisos.

- Modhafar era um sabio em tudo, ¹ disse Al-Rashid; Omar nunca lhe será egual.

- Tenta imitar na sua côrte, ajuntou Ibn-Salam, o nosso muito poderoso senhor, mas, simio ridiculo, nunca poderá levar essa côrte ao esplendor da nossa.

- E todavia, insistiu Al-Rashid, Omar é um poeta distinctissimo.

- E ambicioso, disse Ibn-Zeidun, como digno neto de Abdullah, que, encarregado da educação dos filhos do persa Sabur ou Sapor, os trucidou, usurpando-lhes o throno.

- Dizem, ajuntou Ibn-Salam, que Omar tem em Toledo um grande partido nos descontentes do filho de Mamun.

- E, disse Imah, preferindo um assumpto litterario á politica, o secretario de Omar Ibn-Abdun, promette ser um dos primeiros talentos do Gharb. Dizem maravilhas da sua prodigiosa memoria. ¹

¹ Aschbach e Conde.

44 OS LUSO-ARABES

- São tres irmãos, disse Ibn-Salam, todos poetas.

Dois vivem em Evora, sua cidade natal, e o mais velho, Ibn-Abdun, acompanhou Omar a Badajoz, onde este o nomeou seu primeiro secretario.

Possue tambem em Elvas, disse Imah, uma quinta muito bonita, perto da de Ibn Mokhana. ²

- Sempre os simios imitadores, murmurou Ibn-Zeidun.

Itimad suspirou, enleada na contemplação dos lindos cabellos de Zahida.

- Esquecer-me-has tu, Zahida? Esquecerás tua mãe?

- Nunca, nunca, murmurou a creança, lançando-se ao pescoço da mãe, e cobrindo-lhe o rosto de beijos. Minha mãe, ireis commigo não é verdade? Como poderemos nós estar separadas, longe, tão longe uma da outra? Meu pae não permittirá tal.

- Pois, sim, sim. Socega, eu irei ver-te, uma, muitas vezes.

- Ireis, sim? Eu tenho medo, nesse país tão distante, tão feio, onde ha homens muito maus que queimam as mesquitas, e reduzem os crentes á escravidão. Tenho medo, mãe.

E a creança aconchegava-se ao seio da mãe num tremor nervoso.

¹ V. Noticia biographica no fim.

² V. Not. biographica no fim.

AL-MOTAMID 45

Itimad suffocava, mas, reprimindo as lagrimas, disse:

- Não tenhas medo, filha. Não é verdade isso que contam. E demais, Zahida, tu vaes ser uma rainha poderosa, sultana de muitos povos. Os nobres de tres grandes reinos curvar-se-hão ante o teu throno. A tua corôa terá tantos diamantes, tantas joias como as estrellas que bordam o manto de Allah, e todos os povos christãos se rojarão a teus pés como os crentes em torno do Santo Caaba. E eu irei ver-te muitas vezes.

A creança, parte tranquillisada por aquellas promessas vagas, que não comprehendia bem, parte pelos suaves accordes do mihazor de Al-Rashid, deixou-se adormecer com a linda cabeça nos joelhos de sua mãe.

-