Os Luso-Arabes/II-VIII
CAPITULO VIII
RECORDAÇÕES
Havia-se passado algum tempo.
Ibn-Ammar adquirira a certeza de que o judeu não só faltava ao que lhe promettera, mas de que o havia trahido, divulgando a sua satyra.
A falta do dinheiro desesperava-o; mas a revelação da satyra causava-lhe ao contrario verdadeira satisfação. - «Sim, pensava elle, agora estou completamente vingado: desfeita por desfeita, affronta por affronta, mas ainda mais grave, satyra por satyra, mas ainda mais pungente.»
D'ora avante havia entre elle e o Motamid um oceano de odio implacavel.
A mulher que lhe roubara a affeição de seu amigo colligara-se com os seus inimigos; porêm elle arrojara-a á lama d'onde a tirara; não a essa lama de essencias onde o esposo a fizera patinar, para lhe satisfazer os caprichos loucos, mas á lama da ignominia e da infamação. Aos filhos exaggerára-lhes os menores defeitos physicos, ás cidades que o soberano ganhára ou defendêra chamava-lhes aldeólas, attribuindo a si toda a gloria das principaes conquistas; até aos seus ascendentes de que os Abbadidas tanto se orgulhavam, chamava-lhes rusticos cultivadores, labregos do lagarejo de Jaumin, indo-lhes desencantar no escudo heraldico uma d'essas falhas, de que as mais nobres familias se não exentam, e que todas procuram occultar.
90 OS LUSO-ARABES
Se o Motamid lhe ousara lançar em rosto o seu plebeismo, não lhe ripostara elle com armas eguaes?
Estombar era muito mais importante que a pequena aldeóla de Jaumin.
Sim, estava vingado.
Musa tinha-lhe feito um serviço julgando prejudicá-lo, um verdadeiro serviço na divulgação d'aquella satyra, que elle por um resto de pudor não tornara logo publica.
O peior era não virem os trinta mil dinahres. Como pagar ás suas tropas que se queixavam, como organisar novas levas, como conquistar os thesouros tão falados de Abd-el-Azzis?
Arrependia-se de não ter assistido á rendição de Murcia. Talvez então tivesse podido encontrar os thesouros de Ibn-Tahir, que não eram menos famosos, e que provavelmente esse principe havia escondido. Quem sabe, pensava elle ás vezes, se Ibn-Rashic os terá encontrado e guardado para si. Porem aquelle homem parecia-lhe tão devotado aos seus interesses!
Todavia como podia elle acreditar na amizade de alguem? elle que havia trahido todas as amizades!
AL-MOTAMID 91
Levantava-se ja uma nuvem entre elle e Ibn-Rashic.
Fez revolver todos os subterraneos do alcazar bem como os do castello de Monte-Agudo.
Os soberanos mussulmanos costumavam guardar as suas riquezas em subterraneos, cujas entradas só d'elles eram conhecidas. Aos escravos que ahi as conduziam, impunha-se-lhes o sigillo da morte. «Serviço acabado, cabeça cortada» era a praxe, praxe ainda hoje seguida em todos os países de agarenos.
Corriam lendas extraordinarias sobre esses thesouros. Ainda no nosso tempo se dizem maravilhas das riquezas do sultão de Marrocos, guardadas nos subterraneos do castello de Mequinez.
Alguns d'esses thesouros soterrados devem talvez ter ficado ignorados no seio da terra.
D'ahi provem a crença popular, tão espalhada em Portugal e Hespanha, da existencia de subterraneos encerrando riquezas, em todos os castellos mouriscos, acompanhados da competente mina de peste e dos guardas encantados que tolhem o populacho credulo de tentar a investigação.
Nos subterraneos de Murcia, apesar das insistentes excavações ordenadas por Ibn-Ammar, poucas riquezas se encontraram; e Ibn-Tahir fôra immensamente rico!
O mallogro d'estas pesquizas e a perfidia de Musa desesperavam-no.
92 OS LUSO-ARABES
Mas emfim era rei, soberano absoluto d'essa perola do Mediterraneo, engastada entre palmares, como uma cidade oriental.
Prevendo a duração ephemera do seu reinado, queria gosar de todas as prerogativas da realeza.
Carregava de tributos os povos que lhe haviam ficado sujeitos, e, apesar das suas inquietações e insomnias, fiava tudo da sua espada e da sua estrella, que nunca o haviam desamparado.
Esperando que Ibn-Rashic organisasse as novas levas, entregava-se a todas as voluptuosidades no interior do seu novo harem, conquistado tambem a Ibn-Tahir.
Estava então na força da virilidade, contando quarenta e dois a quarenta e tres annos; mas a taça do prazer esgotara-a ja por tantas vezes que esta perdêra para elle quasi todos os encantos.
Nenhuma d'aquellas mulheres formosas lhe prendia ja o coração. De todas as affeições da juventude só uma lhe era inolvidavel: a affeição da pobre mosarabe da sua patria, seu unico amor verdadeiro.
Haviam ja passado vinte e cinco annos depois que a vira pela primeira vez, dez depois que a vira pela ultima. A sua belleza juvenil devia ter fugido desde muito; porêm elle via sempre a mesma imagem, com os mesmos encantos, com a mesma juvenilidade com que d'ella se despedira, de pé sobre o vallado da sua cerca no primeiro dia em que a encontrára. Era para elle como uma d'essas huris sempre jovens que o Propheta promette aos seus eleitos. Aquelle vulto não podia phantasiá-lo, nem concebê-lo d'outra forma. Não o tornára elle a ver dezoito annos depois na mesma posição, com as mesmas feições, a mesma belleza, que o lucto ainda realçava mais?
AL-MOTAMID 93
Sobre tudo a impressão que de todas essas recordações se lhe não pudera apagar nalma era a da admiração e respeito pela razão intuitivamente philosophica, ingénua e boa, carinhosa e nobre da pobre camponeza, excedendo pela naturalidade e verdade toda a doutrina das escholas, todas as argucias dos theologos e chefes de seitas. Depois, aquella fé, aquella renuncia de si mesmo, do seu coração, da sua felicidade, para obedecer ao dever que a sua crença lhe impunha! Havia o que quer que fosse de sobrehumano nessa fé que a punha em communicação com seres invisiveis, exteriorisados num pedaço de marfim. E elle, que zombava das crenças de todos, só com respeito se recordava da hora em que Mariam lhe apresentára a pequenina estatueta da Virgem.
Era que nas mulheres compradas no mercado a dinheiro de contado como azemolas, para depois se apresentarem douradas como soes, cobertas de brilhantes como ceos estrellados, elle procurára em vão uma coisa que nunca achára, uma coisa intangivel, indefinida, que devia ser a alma... mas uma alma que não era a da mulher mussulmana, escrava dos sentidos como escrava em tudo, caprichosa e ardente por tedio e sensualismo. Não. Era talvez a alma da mulher, como a concebiam alguns christãos, incarnada na vida domestica, representando a gentileza e a honra da casa, a felicidade da familia, a perola d'essa concha chamada lar domestico, de que por vezes vira modelos nos países de nazarenos e até mesmo entre os mosarabes do seu país.
94 OS LUSO-ARABES
Elle havia já tido favoritas que julgara amar, numerosos filhos de varias mães, a que votava amor. Parecia-lhe comtudo que os amaria mais e seria com elles mais feliz, se fossem todos filhos da mesma mãe; se pae, mãe e filhos fizessem um todo unico e homogeneo, cujas partes estivessem vinculadas umas ás outras intimamente, como os atomos da mesma molecula.
Invejara por vezes o Motamid que vivia com Itimad quasi á maneira dos christãos, embora esse respeitasse, para exemplo e por espirito cavalheiroso, as outras mulheres do harem, e houvesse filhos d'algumas: o que era para mussulmanos muito natural, e para principes quasi obrigatorio.
E assim mesmo, que differença entre a sultana toda caprichos, em que não entrava o coração mas o tedio, e a humilde camponeza mosarabe toda amor, em que não entrava orgulho mas dedicação.
Tudo, porém, fôra um sonho que passára, que fugira, deixando-lhe apenas na visão interior um breve e vago vislumbre de felicidade.
Hoje que de todo esgotára a sua taça de prazer, vinham-lhe muito mais vezes lembranças, saudades do passado.
AL-MOTAMID 95
Outra idea o não largava egualmente. Era a do pesadelo do Sharadjib em Silves. Agora que rompêra de todo com o Motamid, essa idea vinha-lhe tambem mais ao espirito... e, na solidão da alta noite, tremia á recordação d'aquelle horrivel sonho.
Estes pensamentos, todavia, só o assaltavam de noite. A luz do sol dissipava-os. Naquelle dia tinha convocado novamente para a grande mesquita todos os nobres e altos funccionarios dos seus estados.
Era como côrtes que reunia, cujo fim devia de ser a sua solemne acclamação.
Nessa assemblea queria apresentar-se com todo o esplendor da realeza. Alêm disso, apoiando-se na nobreza que cumulára de presentes, tinha em mira obter dos povos subsidios pecuniarios para a sua emprêsa contra Valença.
Receando-se ja um pouco de Ibn-Rashic, o novo
rei de Murcia fazia-se acompanhar por toda a
parte de dois sícarios, que lhe eram inteiramente
devotados, e cujos nomes a historia nos conserva.
Chamavam-se elles Djabir e Hadi: dois bravi á italiana, promptos para a um signal seu cravarem um punhal no coração da pessoa que lhes indicasse.
Seguido de esplendido cortejo de nobres que subornara com presentes e altas dignidades, e de capitães mercenarios que o tinham acompanhado de Sevilha e se haviam conservado fieis ao seu chefe, Ibn-Ammar entrou na mesquita e tomou logar debaixo do docel sobre um alto estrado, que ja servira de throno a Ibn-Tahir.
96 OS LUSO-ARABES
Vestia não só ricamente, mas esplendidamente. O brilho das joias deslumbrava os circumstantes. O alto turbante que tanto havia indignado o Motamid scintillava de rubis, topazios e esmeraldas, semelhando corôa como as que usavam os reis christãos, mas que o koran interdiz aos soberanos islamitas.
Todos sabem que o artigo principal da queixa apresentada ao khalifa de Damasco contra Abd-el-Azzis, filho de Musa Ibn-Noseir, foi deixar-se coroar por Egilona, viuva de Rodrigo, embora no interior dos seus paços, com a corôa do ultimo rei godo. E este delicto fez que elle fosse apunhalado na propria mesquita de Sevilha e a sua cabeça levada a Damasco, onde o khalifa teve a barbaridade de a apresentar inesperadamente aos olhos do infeliz pae, a quem assim pagava o ter-lhe conquistado parte da Africa e a Hespanha inteira.
Ibn-Ammar mandára dar ao helmo, que o tarbante cingia com as dobras, uma forma que disfarçadameute apparentava uma corôa real, a fim de accumular na sua pessoa todas as insignias da realeza. A tunica e o manto eram de purpura, recamados de pedras preciosas. O punhal, que fôra presente do Motamid, um prodigio de arte; os copos da cimitarra, de ouro e perolas. Mas no meio de todos estes esplendores, seu rosto estava pallido e as feições denotavam certa inquietação.
AL-MOTAMID 97
Os nobres do cortejo trajavam tambem ricamente, mas alguns d'elles pareciam olhar as galas do soberano com certo desdem motejante.
A mesquita, que é hoje a cathedral catholica, se não podia competir em esplendores com a de Cordova e Sevilha, ostentava ainda assim toda a pompa das artes de que os Benu Tahir se presavam tambem de ser cultores.
Como em todas ellas, as altas arcarias de dois andares estribadas em esbeltas columnatas de marmore, communicando com jardins de murta e larangeiras; a mesma profusão de arabescos; os mesmos mosaicos e azulejos; os tectos de larice esculpidos e dourados: tudo reluzia, scintillava á luz dos lampadarios de crystal de muitos lumes e dava á assemblea um aspecto verdadeiramente magestoso e augusto.
Os assistentes tinham esperado a chegada do novo rei com curiosidade mas sem enthusiasmo. Notava-se nos semblantes certa frieza.
A população humilde e a classe media occupavam a primeira parte da kibla, que era a parte do templo onde os crentes faziam oração, com o rosto voltado para o mirhab na direcção de Mekha.
As janellas da kibla, de umbreiras de marmore recortado e guarnecidas de grades, como que peneiravam docemente a luz do dia que naquella occasião se perdia completamente nos esplendores da solemnidade.
No massurah reservado ordinariamente ao iman e aos doutores da lei, estavam os assentos destinados ao soberano e á côrte. Ricas alcatifas atapetavam o chão.
VOL. II 7
98 OS LUSO-ARABES
Elevava-se por toda a parte o perfume do incenso, do ambar e do áloes.
Ibn-Ammar occupava, como dissemos, o seu throno, rodeado dos principaes chefes, kadhis, sahibus, khatibs e kayids em frente do estrado do iman rodeado tambem dos seus alimes.
Ouviam todos o discurso d'um mokri ¹ que no minbar explicava o koran, fazendo allusões ao acto solemne que se ia celebrar.
Quasi todo o auditorio, envolto em alvos mantos encimados por turbantes, variados na forma e na côr, dava realce aos esplendores da assemblea.
Era a solemnidade religiosa que devia preceder toda a solemnidade politica.
Alguns dos mais devotos, de braços abertos e olhos em alvo, murmuravam como em extase as suas orações; outros silenciosamente davam, arrastando-se, sete voltas em torno do mirhab onde Allah se revelava aos crentes; outros ainda, ajoelhados, beijavam o chão que tocavam com as longas barbas.
Apesar de todo este recolhimento de espirito, percebia-se nas physionomias de muitos, mormente da nobreza, desusada inquietação. Parecia esperar-se alguma surprêsa.
Ibn-Ammar via satisfeita a sua vaidade. Era soberano. Achava-se alli com toda a magnificencia de um khalifa.
¹ Leitor da mesquita.
AL-MOTAMID 99
Apesar d'isso não estava menos inquieto no seu throno de ébano, marchetado de pedras preciosas, do que o resto da assemblea.
Lembrava-se talvez de que vira assim em Silves Ibn-Mosein nas vesperas da sua ruina.
Cada vez estava mais pallido; tremiam-lhe as mãos, mau grado seu.
Olhava inquieto para todos os lados, como quem procura um rosto conhecido que espera encontrar. Era o do seu primeiro wasir Ibn-Rashic, que não via a seu lado, como lhe cumpria.
Chamou Djabir e deu-lhe uma ordem em segredo.
Este saíu immediatamente.
Approximava-se o termo da cerimonia religiosa.
A inquietação augmentava visivelmente em todos.
De subito levanta-se um grande alarido no vestibulo da mesquita.
- O nosso soldo!... o nosso soldo! gritavam muitas vozes ao mesmo tempo.
Ibn-Ammar fez-se mais pallido ainda.
Instinctivamente levantou-se, levando a mão á cimitarra.
Alguns antigos companheiros de armas, de que se tinha feito rodear, desembainharam as espadas. Mas foram poucos; a maior parte da nobreza permanecia indifferente. Os leaes a Ibn-Ammar fizeram com os corpos um como muro em torno do seu chefe.
100 OS LUSO-ARABES
- O nosso soldo!... o nosso soldo! gritavam ja dentro da mesquita.
A soldadesca entrava tumultuosamente na kibla.
As sentinellas desamparavam os postos. Os devotos cessavam as suas orações e fugiam por onde podiam.
- Ibn-Rashic, onde está Ibn-Rashic? gritava Ibn-Ammar.
- Com os sublevados, senhor, disse Djabir entrando no mansurah.
Os gritos repetiam-se.
- O nosso soldo!... o nosso soldo!
Outros exclamaram: - Longa vida a Ibn-Rashic.
- Longa vida ao soberano de Sevilha!
- Morra o usurpador! morra! bradavam alguns soldados.
Ibn-Ammar quiz falar. Tentava aplacar a multidão com promessas, mas a soldadesca, que ia entrando, com os seus altos brados não o deixava ouvir.
A maior parte da nobreza bandeava-se com os revoltosos.
Uma voz disse:
- O nosso soldo, ou entregá-lo-hemos ao Motamid, para que o crucifique ou o enforque ¹.
- Morra! diziam outros.
Ao nome do Motamid, Ibn-Ammar tomou tal pavor que se retirou precipitadamente pela porta que communicava com o palacio.
¹ Historico. - Dozy, l. c.
AL-MOTAMID 101
Ibn-Rashic entrava então, e, tomando o logar ainda quente do infeliz Ibn-Ammar, promettia duplo soldo aos sublevados.
- Allah-hu-acbar! longa vida ao nosso soberano e defensor, Ibn-Rashic, que Allah proteja!
- Morte ao extrangeiro, morte ao usurpador! gritavam os soldados, e até muitos da nobreza.
Ibn-Ammar fechou-se na torre albarrã do castello, que foi bem depressa sitiada pelos rebeldes tendo á sua frente Ibn-Rashic, que ficou sendo rei de Murcia, até á segunda entrada dos almoravides.
Pouco depois da revolta rebentar, caía a noite.
Por uma porta falsa do alcazar, que communicava com a torre, saiu apressadamente um troço de cavalleiros, fugindo numa carreira vertiginosa.
No meio d'elles via-se fluctuar ao vento da noite, por entre as sombras do crepusculo, o manto escuro do ex-rei fugitivo.
Findára o seu curto reinado.
=