Os Luso-Arabes/II-XI
CAPITULO XI
INIMIGOS E AMIGOS ¹
Dois embuçados entraram atraz do carcereiro.
Ibn-Ammar, que não os reconheceu, perguntou estremecendo:
- Que me querem?
- Trazer-vos uma mensagem do principe Al-Rashid.
Ibn-Ammar reconheceu Isâ-Abu-Hegiac, secretario do principe.
- De Al-Rashid! disse Ibn-Ammar serenando, e então?...
- O principe faz-vos saber que todos os seus esforços para desarmar a colera de seu pae e de sua mãe teem sido infructiferos. Julga, porêm, que só haverá um meio de conciliar a clemencia do soberano. É a entrega de certos documentos, relativos ás embaixadas de Castella, que não existem na chancellaria e se sabe estarem em vosso poder. O principe espera que declareis onde os guardaes. O rei tem grande empenho em que os segredos d'esses despachos se não divulguem, e quer conservá-los em seu poder.
¹ Vid. a nota 32 no fim.
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- E quem é esse teu companheiro, deante do qual ousas tratar taes assumptos?
- Sou eu, Ibn-Ammar, disse o outro vulto, descobrindo o rosto.
- Ibn-Zeidun!... exclamou o captivo, surprehendido e ao mesmo tempo indignado.
- Sim, Ibn-Zeidun que tu julgas ser o teu maior inimigo, mas que te vem offerecer a unica tábua de salvação que te resta.
- Não creio, wasir: vens gosar do teu triumpho; nada mais. És tão vil como Abd-el-Azzis, que mandou um proprio ao meu encontro para me insultar quando eu estava manietado. Ou então vens desempenhar o cargo de verdugo no fundo d'este carcere. Despede o golpe, carrasco. Não vês que estou algemado? Não tenhas medo, que estes ferros são solidos. Será para mim um prazer inapreciavel receber a morte, vendo-te exercer o teu novo mister.
- Ah, sim?! rompeu Ibn-Zeidun furioso, respondes-me com insultos quando venho salvar-te! Ólha que a tábua de salvação que te offerecemos é por certo a unica. Ousas repelli-la, arrepender-te-has.
- Oh! disse Ibn-Ammar, Isâ-Abu-Hegiac e Ibn-Zeidun!... os meus melhores amigos!... Creio, accrescentou com amarga ironia. Só falta Abd-el-Azzis. Porque o não trouxeram em sua companhia? Gosariam juntos de ver o leão em ferros. Vae-te. Deixem-me.
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- Lembra-te da nossa antiga amizade, disse Ibn-Zeidun tentando dar á voz um tom benevolo. Lembra-te de que fui eu dos primeiros que em Silves te apresentaram ao principe, dos primeiros que concorreram para o teu valimento.
- Sim, foste d'aquelles que logo na primeira noite da minha apresentação ao principe se sentiram mordidos do gusano da inveja. Conheço-te de ha muito, Ibn-Zeidun. Nunca acreditei na tua amizade. Nisso não me enganavam os meus presentimentos. Não podendo resistir á minha influencia no animo do soberano, fingiste ser durante muitos annos meu amigo, para me ferires pelas costas, cobarde!
A este insulto, Ibn-Zeidun levou a mão aos copos da espada.
- Cobarde és tu, miseravel, que te rojas como um perro ante aquelles que mordeste como uma vibora.
- Fere, disse Ibn-Ammar, se ja recebeste o diploma de algoz; mas sabe que não creio nas tuas benevolas intenções. Tu é que vens como um reptil, fingindo proteger-me para me morder á traição.
Esperavas conseguir dois grandes fins, ou antes dois grandes meios para a tua exaltação futura: desacreditares-me no espirito do soberano e apoderares-te de segredos d'estado que te fossem arma offensiva nos enredos da tua ambição.
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- É Ibn-Ammar que fala em enredos d'ambição! disse Ibn-Zeidun com ironia.
- Se eu tiver segredos d'estado, só ao meu soberano os confiarei, proseguiu o captivo sem attender a esta ironia, e, voltando-se para Isâ, ajuntou:
E tu, Isâ, cujo interesse me é tambem muito suspeito, dize a Al-Rashid que lhe agradeço o seu generoso perdão, mas que só com elle tratarei; nunca por intervenção tua.
- Pois bem, disse Ibn-Zeidun em despedida, qualquer d'estes dias os corvos farão na tua cabeça amplo festim sobre a porta principal do alcazar.
E saíram ambos.
Ibn-Ammar, cançado d'este esforço, tornou a caír no desalento anterior.
Pouco depois abriu-se de novo a porta do carcere, e entraram outros dois vultos, que Ibn-Ammar reconheceu immediatamente.
Um d'elles deixou-se caír sobre a palha que cobria o solo, e lançou-se nos braços do captivo.
Era Ibn-Salam.
O outro conservou-se de pé a pouca distancia.
Era o principe Al-Rashid.
- Meu amigo, meu querido amigo, onde te venho encontrar! exclamou o nobre silvense.
- Oh! Salam, disse Ibn-Ammar, quem me diria que nos haviamos de encontrar assim, quando creanças brincavamos em Silves em casa de nossos paes! Tu e eu!... O juiz no carcere do delinquente!
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- Não, não, apressou-se a dizer Ibn-Salam; é o amigo fiel no carcere do amigo infeliz.
- Oh! Salam!... exclamou Ibn-Ammar, rebentando-lhe um jorro de lagrimas, e lançando-se nos braços do amigo, sem poder articular outras palavras.
Depois, serenando e reparando no principe, que se conservava a distancia commovido e silencioso, soltou nova exclamação, mas esta de respeito e de esperança.
E, rojando os ferros com difficuldade, chegou aos pés de Al-Rashid, que abraçou verdadeiramente compungido.
- Vós, principe, aqui!... Vós, coração generoso e nobre, que haveis perdoado a quem tanto e tão vilmente vos offendeu!
É a vida ou a morte que me trazeis? Qualquer das coisas me será grata, vinda da vossa mão.
- Não falemos mais no teu delicto, disse Al-Rashid em tom meigo. Pela minha parte ja te perdoei. Só te prohibo que me tornes a falar nisso. A tua satyra não foi mais que um acto de represalias á de meu pae. Foi elle que primeiro te feriu, quando havia pouco lhe tinhas enviado uma supplica e os protestos da tua obediencia e lealdade. Mas meu pae foi instigado por Ibn-Zeidun e Abd-el-Azzis, os teus maiores inimigos.
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- Ibn-Zeidun acaba de sair d'aqui com o vosso secretario Isâ.
- Ibn-Zeidun! disse o principe com espanto. Que veiu elle aqui fazer?
- Pedir-me a revelação dos segredos de vosso pae como preço da minha cabeça.
- E Isâ?
- Isâ veiu da vossa parte dizer-me que nem vosso pae nem vossa mãe me perdoavam.
- Quem o auctorisou a esse passo? Verdade é que eu falei deante d'elle nas difficuldades de abrandar meu pae e sobre tudo minha mãe, porêm não o encarreguei d'essa mensagem.
- Isâ, Senhor, é tão inimigo meu como Ibn-Zeidun. A sua visita só teve por fim reforçar os argumentos do novo valido.
- Não, Isâ não é teu inimigo, disse o principe, que estimava muito o seu secretario. Essa mensagem foi demasiado zelo no meu serviço, nada mais.
- Senhor meu, ajuntou Ibn-Ammar, vejo que a minha sorte é clara, e o fim do meu destino manifesto. Levou-me o maligno vento da inveja as leves auras da vida que respirava Muleima ¹.
Hontem não pensava vosso pae em tirar-me a vida, e hoje m'a dilata, pensando com que tormento me hão de acabar mais a sabor de meus inimigos ².
¹ Allusão desconhecida.
² Estes ultimos periodos são extrahidos textualmente de Conde.
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- Não, não. Eu tenho ainda esperanças, disse Al-Rashid.
Tratemos dos meios da tua salvação.
Nunca esquecerei os teus serviços prestados a Sevilha, e os bons tempos da minha primeira juventude em que me instruiste na arte da guerra; e reconheço que Sevilha e meu pae precisam agora mais do que nunca da tua espada e do teu conselho.
Ibn-Ammar a estas palavras radiava de jubilo.
Abraçava ainda os pés do principe com lagrimas; mas essas lagrimas eram de reconhecimento e de esperança.
- Oh! principe, obtende de vosso pae que me seja dada uma folha de papel, e dir-lhe-hei taes coisas que espero o hão de dispôr á clemencia. Importunado das minhas supplicas, prohibiu que me fossem fornecidos os meios de escrever.
Receia-se do proprio coração, porque, apesar da sua justa colera, creio, não se apagou de todo nesse coração a nossa amizade d'outro tempo.
- Bem, disse Al-Rashid; eu e Ibn-Salam e muitos outros, porque ainda tens muitos amigos em Sevilha, temos escripto e falado a teu favor e continuaremos a fazê-lo.
Os teus inimigos censuram-te pela alliança com Castella, mas muitos reconhecem, como eu, que só o teu talento politico seria capaz de tirar vantagem d'esse pacto, e que essas vantagens podiam ser reaes quando bem aproveitadas.
Os que te succederam perdem tudo. Ibn-Rashic faz-se senhor independente de Murcia e nega terminantemente reconhecer a suserania de Sevilha. Os Alaftas pretendem destruir a nossa influencia e deixam-se bater por Adfuns. Como unico recurso, Omar começa a entabolar relações com os lamtunas, essa horda de barbaros que se apoderaram da Africa, e que na minha opinião são um perigo maior para os principes do Andalus do que os proprios christãos ¹. Sancho Ibn-Radmir devasta os estados de Saragoça engrandecendo o seu reino de Aragão; Abd-el-Azzis vê-se a braços com o Campitur (Cid). Só semeando a cizania entre os christãos poderiam os principes andaluses resistir á torrente, e só os teus talentos seriam capazes de o conseguir. Aproveita estas circumstancias. Escreve a meu pae. Espero conseguir-te os meios para o fazer. Adeus.
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- Adeus, disse Ibn-Salam, conta commigo até á morte.
Saíram.
A luz da esperança penetrára no carcere apesar das trevas que alli reinavam. Al-Rashid conseguira vencer até certo ponto a colera de seu pae.
Era ja meia victoria.
¹ Al-Rashid votou no conselho contra o chamamento dos Almoravides, como veremos adeante.