Os Luso-Arabes/II-XIV
CAPITULO XIV
A CATASTROPHE
Ibn-Ammar, logo que se achou só, tratou de communicar as esperanças que o animavam aos seus bons amigos, e mormente ao principe Al-Rashid que, junto com Ibn-Salam, trabalhava com mais afan no seu libertamento.
Ja por vezes elle enviara supplicas sentidas a Itimad, recordando-lhe tambem os tempos felizes da juventude, em que ambos poetavam á porfia. A sultana não se dignara responder, mas o interesse que o principe Al-Rashid, sempre obediente e dedicado a sua mãe, agora mostrava pelo infeliz captivo era-lhe prova sufficiente de que a sultana abrandara muito as iras contra elle.
Ibn-Ammar conjecturava que o odio, pelos fanaticos mussulmanos votado tanto a elle como á sultana, o reconciliaria com ella, fazendo-os novamente alliados; pois Itimad devia perceber claramente que só a energia e astucia do ex-hadjib, discipulo em politica do terrivel Motadhid, seriam capazes de debellar esse partido.
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Alêm disso, havia entre elle e o soberano certos segredos a que os seus biographos alludem sem no-los transmittirem explicitamente, e a que Ibn-Ammar não ousara referir-se na conferencia que acabamos de esboçar, nos quaes elle punha muita confiança.
Por todos estes motivos Ibn-Ammar aproveitou o resto da tocha que lhe haviam deixado na vespera, e uma das folhas de papel que lhe tinha sobejado do ultimo poema, e escreveu ao principe Al-Rashid, dando-lhe conta do que se passára com o pae; e fiado na lealdade d'esse generoso principe teve a imprudencia de lhe descrever a conferencia que com elle tivera.
Al-Rashid recebeu esta carta, estando tambem num festim; e, não suspeitando da importancia d'ella, leu-a de modo que o seu secretario Isâ Abu Hegiac poude, por detraz d'elle, ler parte da epistola.
Immediatamente divulgou á puridade o conteudo por toda a assemblea, de sorte que chegou aos ouvidos de Ibn-Zeidun, augmentado de exaggeros que nos ficaram desconhecidos, mas que devem ter sido bem infames, pois um historiador arabe diz tê-los passado em silencio, por não querer conspurcar com elles o seu livro ¹.
¹ Textual de Dozy.
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Transpirou logo na côrte que o Motamid estava inclinado a perdoar ao seu ex-valido; e ja accrescentavam que iria restituir-lhe todo o seu valimento e reintegrá-lo no cargo de duplo-wasir.
Ibn-Zeidun passara a noite em terriveis angustias. ¹
A rehabilitação de Ibn-Ammar era a ruina do seu valimento, talvez a sua sentença de morte.
No dia seguinte, não sabendo o que deveria fazer, deixou-se ficar em casa á hora em que costumava ir ao paço.
O Motamid mandou-o chamar e recebeu-o tão amigavelmente como de costume, de sorte que Ibn-Zeidun adquiriu a certeza de que a sua sorte era menos perigosa do que receava.
Por isso, quando o rei lhe perguntou por que motivo se havia feito esperar tanto, respondeu que julgava ter incorrido em desagrado, e disse-lhe ao mesmo tempo que a sua conferencia da vespera com Ibn-Ammar era conhecida de toda a côrte; que todos esperavam ver o ex-duplo-wasir reintegrado no poder; que o seu amigo e compatriota Ibn-Salam, prefeito da cidade, tinha ja preparado os mais bellos aposentos da propria casa para ahi o alojar, esperando que os seus pomposos palacios lhe fossem restituidos.
É desnecessario dizer que não deixou de referir as calumnias que se haviam propalado.
¹ Dozy, l. c.
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O Motamid não cabia em si de raiva.
Ainda quando o que se havia passado entre elle e o seu prisioneiro não tivesse sido desnaturado pelo odio, ficaria indignado da louca presumpção de Ibn-Ammar, que d'algumas palavras benevolas tinha logo concluido que seria posto em liberdade e reintegrado no poder. ¹
- Vae perguntar a Ibn-Ammar, disse elle raivoso dirigindo-se a um eunucho slavo, como é que conseguiu propalar a conversação que teve hontem á noite commigo?
O eunucho voltou logo e disse:
- Ibn-Ammar nega ter dicto o que quer que seja a alguem.
- Mas pode ter escripto, replicou o Motamid. Mandei-lhe dar duas folhas de papel. Em uma escreveu o poema que me enviou; mas o que fez á outra? Vae perguntar-lhe isto.
Quando o eunucho voltou, trouxe em resposta:
- Ibn-Ammar pretende, que se serviu da outra folha para fazer o rascunho do poema que vos endereçou.
- Nesse caso, dize-lhe que te dê o rascunho, tornou o Motamid.
Então Ibn-Ammar, que durante estes momentos estivera em horrivel anciedade e terror, não poude por mais tempo negar a verdade.
- Escrevi a Al-Rashid, confessou elle tristemente, para lhe communicar o que o rei me havia promettido.
¹ Dozy, l. c.
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A esta confissão, o sangue de seu terrivel pae, d'esse abutre sempre prestes a cair sobre a prêsa para a despedaçar e saciar a raiva em entranhas palpitantes, acordou nas veias de Motamid e abrazou-as. ¹
Empunhando a primeira arma que o acaso lhe deparou (era uma acha soberba a que davam o nome de tabrizina, ² e que recebera em presente de D. Affonso VI), transpoz em alguns pulos os degraus das escadas que conduziam á prisão onde Ibn-Ammar estava encerrado.
Encontrando os olhos flammejantes do monarcha, o infeliz estremeceu. Presentiu que era chegada a sua hora derradeira...
Arrastando os grilhões, foi lançar-se aos pés do Motamid, que cobriu de beijos e de lagrimas, mas o sultão, inaccessivel á piedade, levantou a acha e feriu-o com furia. ³
Ao relampejar do aço, no momento supremo da transição da vida para a morte, desenhou-se-lhe rapidamente mais uma vez na retina a visão maravilhosa do seu carcere. Era ainda a figura angelica de Mariam, apresentando-lhe a imagem da Virgem Mãe de Jesus, envolta numa aureola de luz celeste.
¹ Dozy.
² Conde.
³ Dozy e Conde.
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«A tabrizina levantou-se e desceu repetidas vezes, até que elle ficou morto, até que todo o resto de calor desamparou o cadaver.» ¹
Realisou-se o pesadelo do Sharadjib.
-
O fim tragico de Ibn-Ammar excitou na Hespanha arabe uma commoção vivissima, que não foi de longa duração porque os graves acontecimentos que se deram em Toledo, e os progressos das armas castelhanas deram bem depressa ás ideas novo rumo.
Accrescenta a isto o historiador Conde:
«E dizia Abd-el-Gelil-ben-Wahbun que não se viu quem por elle derramasse lagrimas, nem se ouviu quem dissesse: - Seque-se a mão ao matador.»
Tal era o odio que os mussulmanos lhe votavam.
A sua morte, segundo Casiri, foi numa sexta feira, 6 da lua de Ragib de 477 (1084 de Christo).
Conde dá este acontecimento em 479, depois da tomada de Toledo. Dozy não lhe marca data, mas colloca-o muito pouco antes da tomada d'esta cidade.
Casiri termina a sua noticia biographica dizendo:
«Exaltaram-no com os maiores louvores como poeta distinctissimo, eximio general e homem mais que todos notavel pelo ingenho e arte, os grandes historiadores Abulwaedus de Saragoça, Ibn-al-Kassem ¹ de Silves, Ibn-Basan de Cordova e outros.
¹ Dozy e Conde.
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Escreveu tambem muitos e ingenhosissimos versos, dos quaes não poucos nos apresenta no nosso codice o historiador Ibn-Alabar desde a pagina 23 até á pagina 103.»
-
No dia seguinte ao da sua morte, ao amanhecer, os coveiros que o haviam sepultado, voltando ao logar, acharam na terra da sepultura remexida de fresco o cadaver de uma mulher, algido e hirto.
Ninguem sabia dizer como aquella mulher alli penetrára.
Quando verificaram que estava morta e trataram de a remover d'alli, viram que, por baixo da tunica e do véo negro da finada, havia um habito com escapulario e toalha de freira christã.
- É a louca que dormia sob a alpendrada do pateo interior do alcazar, disse um dos guardas que na vespera tinham acompanhado Ibn-Ammar á camara real, o qual por acaso alli passava então.
Ao levantá-la, porêm, os coveiros recuaram assustados.
Sobre a sepultura, em que a louca parecia ter imprimido os labios no ultimo arranco, via-se um objecto que fez afastar de medo os supersticiosos mussulmanos. Era uma estatueta de marfim, representando o rosto meigo e divino d'uma Virgem.
¹ O mesmo que Ibn-Badrun, o commentador de Ibn-Abdun.
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- É um amuleto dos nazarenos, disse o outro assistente.
E tomados de terror supersticioso fugiram todos, deixando o cadaver.
Quando, reassumindo animo, voltaram ao logar, tanto cadaver como estatueta haviam desapparecido.
Um guarda mulad, que alli tinha introduzido a louca, prestára-lhe os ultimos serviços e guardára a imagem.
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