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Os Luso-Arabes/II-XX

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CAPITULO XX

OS BEDUINOS

Transportemo-nos á Arabia, esse paiz longinquo d'onde vieram os povos, cujos descendentes, durante mais de sete seculos, viveram na Hespanha e Portugal, que nasceram e habitaram no nosso solo e de quem muitos de nós tiramos ainda origem.

Esse país recebeu dos chaldeus o nome que ainda hoje lhe damos, e que significa terra do Occidente, porque para a Chaldea os desertos superiores demoravam a poente.

Os syrios chamavam aos seus habitantes sarracenos que quer dizer orientaes, porque, para a Syria, ficavam a nascente.

Elles porêm honravam-se com o nome de barbaros, que quer dizer filhos do deserto, porque tinham no maximo despreso o viver das cidades. Skenitas lhes chamavam os gregos de scena ou skena tenda, por viverem em tendas.

Como todos sabem, a natureza no deserto é morta.

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De dia um sol ardentissimo queima sem cessar o solo arenoso, sempre secco.

As eminencias parecem escorchadas pelos ventos, e descobrem perspectivas interminaveis sem sombra que proteja, sem agua que mitigue a sêde, sem verdura onde os olhos possam repousar.

De longe a longe apenas, a distancias enormes, o arabe beduino descobre algum raro oasis, onde á sombra de palmares solitarios, pequenos arroios, por entre alfombras de relva fresca, traçam delgados filetes de prata.

Só elle conhece bem essas estancias de repouso, só elle as habita na satisfação superabundante das suas limitadas necessidades.

Naquelle oceano de areia, só tambem o camelo e o cavallo põem em communicação essas ilhas viridentes.

O cavallo é o companheiro do beduino; o camelo o seu servidor mais fiel, a mais lucrativa propriedade que lhe dá o trabalho aturado e indefesso, o leite, a carne, a lã e a pelle, a troco muitas vezes de aspera ração de cardos, depois de longos dias de abstinencia.

Juncto ao Euphrates, nos limites do deserto, estende-se em longa faixa o paiz de Anah, onde o grande amir dos beduinos, dava em epochas determinadas as suas audiencias.

Varias tribus obedecem ao mais nobre e ao mais rico como a sheik (ancião, chefe). ¹

¹ ou xeque, em portuguez classico.

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Todos os sheiks nos seus negocios obedecem ao amir protector, que é para elles o representante de Abrahão, que foi tambem um amir do deserto como o foi mais tarde o seu descendente Moysés.

O acampamento do chefe dos chefes era uma grande cidade regular, mas mobil, em que as habitações eram barracas arruadas, correndo todas as ruas na direcção da tenda do amir.

Todas as tribus habitam tendas dispostas do mesmo modo, semelhando-as de um acampamento.

Viajante que precise atravessar o deserto, tem impreterivelmente de ir pedir a essas cidades moveis um salvo-conducto para o fazer, sem o que será sem piedade esbulhado da sua parte na herança de que Isaac esbulhou Ismael.

Porêm para o obter, basta pedir hospitalidade, offerecendo um ramo verde como symbolo.

Depois poder-se-ha apresentar, munido d'esse passe, a quaesquer tribus, sendo bem recebido em todas ellas, embora estejam muitas vezes em guerra umas com as outras.

Observam tão religiosamente as leis da hospitalidade, que, como é notorio, para um arabe, principalmente para um beduino, a chegada d'um viajante offerecendo o ramo verde, é motivo de grande regosijo, e considerada como uma benção do ceu.

Estudam, como ja se disse, a lingua e a poesia arabe, e a expressão do seu pensar é sempre revestida de colorido poetico e sentimental.

Ora, num dos primeiros annos do seculo XII não muito depois da morte do Motamid, um arabe sevilhano que viajava no deserto, chegou a um acampamento de beduinos da tribu de Lakhm, que era, como vimos, a tribu em que o infeliz amir de Sevilha se filiava.

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Era este acampamento uma cidade mobil como a do amir do deserto.

Tendo-se o viajante approximado d'uma das primeiras tendas, e tendo pedido hospitalidade, o dono d'essa tenda, contentissimo por poder satisfazer uma virtude tão apreciada pelos da sua raça, acolheu-o com a maior cordialidade.

O viajante havia ja passado dois ou tres dias na tenda do beduino, quando uma noite, depois de haver procurado em vão conciliar o somno, saíu a espairecer respirando a viração fresca dos zéphyros.

Era uma noite serena e limpida, cujas auras fagueiras temperavam a tepidez da atmosphera.

Num ceo opalino, semeado d'estrellas, caminhava a lua, lenta e magestosa, illuminando com a sua luz avelludada o deserto augusto, que fazia resplendecer como um espelho, apresentando a imagem mais completa do silencio e do repouso, tão aptos para o recolhimento dos sentidos.

Espectaculo sublime era com effeito aquelle immenso Oceano de areia dourada, que de todos os lados cercava a cidade adormecida.

A belleza d'esse quadro era tal, que o viajante como verdadeiro arabe andalus, não poude furtar-se ao encanto magico d'aquella scena imponentissima, e recordando-se d'um poema, que o seu infeliz soberano compuséra começou a recitar:

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Sobre a terra caira a noite fria, Como um sendal gigante, E á luz de mil brandões, vinho eu bebia Em taça rutilante.

Eis que subito assoma no horizonte, D'Orion acompanhada, A rainha da noite, altiva a fronte, De perolas ornada!

Sorria á Natureza; e em ceo d'anil Gravando a propria imagem, Surgia, magestosa, senhoril, Sendo Orion o seu pagem!

Vieram pouco a pouco outras estrellas Seu sequito augmentar. E d'ella o esplendor, entre as mais bellas, Crescia sem cessar.

E o rútilo cortejo em gala vinha, Co'as Pleiades á frente, Figurando o estandarte da rainha, De joias resplendente ..... É que a lua é nos ceos o que na terra Eu sou tambem, De nobres cavalleiros rodeado E das jovens gentis aureolado Do meu harem. Cujos negros cabellos se assemelham Da noite á escuridão Ao passo que estas taças diamantinas Como que estrellas são!

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Bebamos meus amigos, sim, bebamos Da videira o licor Emquanto estas beldades vão cantar-nos Ao som do mihazôr Suas ternas canções melodiosas, Que nos queimam de amor!

Á belleza destes pensamentos juntava-se a belleza da forma, que era o que de preferencia encantava o ouvido de arabes, e que então se casava alli maravilhosamente com a belleza e magestade do firmamento.

O sevilhano recitou um longo poema após esta poesia.

Era aquelle que já transcrevemos, que o Motamid compuséra para aplacar a colera de seu pae, e onde fazia allusões aos arabes do deserto.

Quando acabava, correu-se o panno da tenda, ante a qual o viajante se achava por acaso, e um homem que á primeira vista se reconhecia como o sheik ou xeque da tribu pelo aspecto veneravel e longas barbas brancas, appareceu de repente a seus olhos; e, dirigindo-se a elle, com essa elegancia de dicção e pureza de accentuação e pronuncia, por que os beduinos foram sempre afamados e de que com rasão se ufanam, falou assim:

- Dizei-me, filho das cidades, a quem Allah queira abençoar, de quem são esses poêmas, ora limpidos como um arroio na primavera, frescos como uma alfombra de relva recentemente regada pela chuva, ou perolada pelo orvalho, ora suaves como a voz de uma donzella de collar de ouro, ora vigorosos e sonoros, como o grito de um camelo novo?

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- São de um rei que reinou no Andalus e que se chamava Ibn-Abbad Al-Motamid.

- Supponho, proseguiu o sheik, que esse rei deve ter reinado num pequeno canto da terra, e que por consequencia, podia consagrar todo o seu tempo á poesia; pois quando nos prendem outras occupações, não temos vagar para compôr versos como esses.

- Perdoae-me, esse monarcha reinou sobre um grande país.

- E podereis dizer-me a que tribu elle pertencia?

- Certamente era da tribu de Lakhm.

- Que dizeis!... da tribu de Lakhm! Era nesse caso da minha tribu!

E encantado por ter achado uma nova illustração para a sua tribu, o sheik num rapto de enthusiasmo, pôz-se a gritar com voz retumbante:

- De pé! De pé! homens da minha tribu!

Álerta! Alerta!

Num momento todos se puséram de pé, e viéram rodear o chefe.

Este, vendo-os reunidos, disse-lhes, radiante de enthusiasmo:

- Escutae o que acabo de ouvir e fixae bem o que acabo de gravar na minha memoria; pois é titulo glorioso que se vos offerece a todos, honra de que todos tendes direito a ufanar-vos. Filho das cidades, peço-vos que reciteis ainda uma vez os poemas do nosso primo.

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Tendo o sevilhano, satisfeito este desejo, e os beduinos admirado os versos com um enthusiasmo egual ao do sheik, contou-lhes este o que ouvira ao estrangeiro a respeito da origem dos Benu-Abbads, seus alliados e parentes, pois descendiam tambem d'uma familia lakhmita, que outr'ora percorria o deserto com seus camelos e armava as tendas onde as areias separam o Egypto da Syria:

Depois do quê, falou-lhes do Motamid, d'esse poeta alternativamente gracioso e sublime, intrepido cavalleiro, poderoso monarcha de Sevilha.

Quando acabou, todos os beduinos, ébrios de alegria e de orgulho, montaram a cavallo para se darem a uma brilhante fantazia, ou jogo de armas, que durou até aos primeiros raios da alvorada.

Depois o sheik escolheu vinte dos seus melhores camelos e fez d'elles presente ao estrangeiro.

Todos seguiram este exemplo na rasão dos seus haveres, e antes que este se tivesse levantado do logar em que recitara, viu-se na posse de perto de cem camelos.

E os generosos filhos do deserto, quando chegou o momento do sevilhano proseguir na sua viagem, só a custo consentiram em o deixar partir; - tão querido se tornara aos seus corações aquelle que sabia recitar os versos do rei poeta a que elles chamavam primo.

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Tal é a pittoresca narrativa que se encontra no Holal, na parte relativa aos Abbadidas, e que o arabista Dozy, de quem a recebemos, traduz e transcreve por inteiro no fim da sua historia dos mussulmanos de Hespanha.

Servimo-nos ainda das palavras do illustre arabista que nos tem sido guia neste estudo, para a apreciação do character d'esse nobre filho de Beja; palavras que perfeitamente o retratam com todos os seus defeitos, em parte desculpaveis, e com todas as suas virtudes na verdade brilhantes.

- «Com effeito, diz elle, o Motamid não foi, a bem dizer, um grande monarcha. Reinando sobre um povo enervado pelo luxo e só vivendo para os prazeres, difficilmente o poderia ser, ainda quando a sua natural indolencia, e esse amor das exterioridades que tem constantemente feito a felicidade e a infelicidade dos artistas, a isso não tivessem obstado. Nenhum outro, porêm, tinha n'alma tanta sensibilidade e tanta poesia.

Nelle o menor acontecimento da vida, a menor alegria ou o menor pesar, revestia-se immediatamente de forma poetica; e poder-se-hia fazer a biographia deste principe, a vida interior ao menos, só com os seus versos, - revelações intimas do coração, onde se reflectem essas alegrias e essas tristezas, que o sol ou as nuvens de cada dia trazem ou tornam a levar comsigo.

E, alêm disso, elle teve a boa fortuna de ser o ultimo rei indigena, o ultimo rei verdadeiramente hispano-arabe que representou brilhantemente, dignamente, uma nacionalidade e uma cultura intellectual, que succumbiram, ou quasi, sob a dominação dos barbaros que haviam invadido o pais.

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Uma especie de predilecção se prendeu a elle, como ao mais novo, ao postremo nato d'essa numerosa familia de principes poetas que reinaram na Andalusia e no Algarve.

Lastimavam-no mais que a qualquer outro, quasi com exclusão de qualquer outro, do mesmo modo que a ultima rosa da estação, os ultimos bellos dias do outomno, os ultimos raios do sol no occaso, inspiram em geral as mais vivas saudades.»

Que poderemos nós accrescentar áquella pittoresca scena e a este retrato magistral?

Só poderemos e deveremos exclamar como o sheik dos beduinos:

- De pé! De pé! filhos da nossa terra!

Álerta! Álerta! filhos do Algarve e do Alemtejo e sobre tudo, vós, filhos de Beja, alerta!

E escutae bem o que acabo de vos narrar. Desenterrae de debaixo d'esse negro pingo de tinta que encobre a historia do nosso solo, os factos de cinco seculos, estas paginas brilhantes, estes nomes gloriosos que poucos de vós conhecieis.

Fixae, como disse o sheik, o que todos deveis gravar bem na memoria, «pois é titulo glorioso que se vos offerece, honra de que todos tendes direito a ufanar-vos.»

Filhos de Beja, terra nobilitada com o nascimento d'esse rei poeta, que os seculos seguintes admiraram, filhos de Silves, que elle honrou com um governo benefico, com as pompas da sua magnificencia, e com os productos do seu talento, permitti que vos diga, como o sheik da tribu de Lakhm disse aos seus:

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«Acceitae os poemas do vosso primo.»

Todo o homem grande nascido no solo hoje portuguez é compatriota nosso, que nos ennobrece.

De pé! de pé! Descubramo-nos ante um passado illustre que nos honra!

FIM DE AL-MOTHAMID