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Os Luso-Arabes/Palavras

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ALGUMAS PALAVRAS ELUCIDATIVAS

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A diversidade na orthographia de certos nomes proprios arabes, que os traductores nos apresentam, parece devida a ser na lingua arabica menor o numero de figuras representativas das vozes do que na nossa, e os sons que as vogaes representam differirem tambem dos nossos; pelo que, cada traductor os figura diversamente, dando isso origem a grandes confusões.

Os arabes só possuem tres signaes para representar as vozes: - fetha, dammah e kesrah, - representando o primeiro um som entre á e é; o segundo ó ou u, e o terceiro i ou é. Por isso encontramos as formas aben, eben, ibn, ebn e ben designando a palavra portugueza filho; e Yussuf, Yussof e Yussef, o nome proprio José; khilaf e khalifah = califa; Badja e Bedja = Beja.

As consoantes fracas que convertem as vogaes breves em longas dão muitas vezes syllabas, em que ao i ou kesrah se ajuntam um ou dois yé ou ypsilons, como em kayid, shelbiyya, kaid e silvense.

Ora, assim como hoje entre nós as lettras ç e s se pronunciam sibilantes no sul do país, e chiantes no norte, parece-nos tambem que os arabes representavam muitas vezes o s latino pela sua lettra xin, e por isso escreviam com ella Xilb ou Shilb por Silves, Chetuwar ou Shetuwar por Cetobriga ou Setubal, nome tambem do rio Sado (Herculano escreve Chetawir).

XVI Os LUSO-ARABES

O verdadeiro valor do xin julgo ser o do nosso x chiante: por isso se representariam bem estas palavras por Xilb e Xetuwar; e é esse o motivo por que a palavra Lisboa em abreviatura se escreve Lx.ª, pois os arabes pronunciavam o nome latino Olisipponem Lixbonnah, Alixbonnah ou Axebonna (segundo os traductores).

Hoje muitos representam estes sons, mesmo em portuguez, quando se trata de nomes arabes, pelo sh inglez ou sch allemão: pelo que se vê hoje mais sheick do que xeque, como lhe chamavam os nossos antigos.

Todavia o sh, pela simples perda do h, approxima-se mais da actual pronuncia de certos nomes proprios, como Silves e Sagres, Santarem e Cintra Shilb e Shacr, Shantirein e Shintra.

Conservamos por isso quasi sempre o sh em vez de x, porque este tambem tem perigo de ser pronunciado ks, e o ch pode ser pronunciado k.

Tambem o w (wau) é convertido em gu ou ó, como em Wadiana e Wadlouca (Guadiana e Odelouca), alguazil em vez de al-wasir, guali em logar de wali, etc.

Dá-se o mesmo na nossa lingua com palavras de origem germanica, como Welf e Walter (Guelfo e Gualterio).

ALGUMAS PALAVRAS ELUCIDATIVAS XVII

Conservamos por isso o duplo v nas palavras wasir ou wisir, wali, etc., a fim de lhes dar certa côr local.

Os differentes patronymicos que os arabes ajuntaram ao primeiro nome, indicando os nomes do pae, avô, bisavô, etc., pela repetição da palavra ibn precedendo o verdadeiro nome d'estes, eram tambem causas de confusão, apparecendo o mesmo individuo designado por muitos patronymicos.

Ibn designava filiação; Ibnu, Benu ou Beni, o nome de familia.

Aos patronymicos dos grandes juntavam-se longos appostos, como o abençoado de Deus, o fortalecido em Deus, o victorioso por Deus, etc., appostos que muitas vezes designavam melhor o individuo que o proprio nome, como veremos nos nomes dos nossos heroes - o Motadhid e o Motamid ¹.

A maioria das denominações arabes de localidades em Hespanha e Portugal eram geralmente nomes latinos, precedidos do artigo arabe, assimilando-se muitas vezes por teshdid, depois de lettras a que chamam solares, ou perdendo a consoante medial ou final, como em Al-kassr (Al-Castrum), Azzeitun = o olivedo, Arrabidah = o eremiterio.

¹ Al-mu'atadhed-billah e Al-mu-atamed-alla-illah. - Almakkari.

XVIII OS LUSO-ARABES

Os nomes Yacub, Musa, Yahia, Soleyman, Ibrahim, etc., são os nomes hebraicos Jacob, Moisés, João, Salomão, Abraham.

D'estas causas (que apresentamos meramente como hypotheses, pois, devido á nossa ignorancia da lingua, não as podemos dar com auctoridade), resultavam muitos nomes eguaes, confusão que se dá tambem em todas as linguas com appellidos eguaes ou semelhantes, e que muitas vezes se repetem.

Não querendo sacrificar a historia á imaginação e ao interesse romantico, copiámos por vezes textualmente varias passagens da Historia dos Mussulmanos em Hespanha, de Dozy, nossa fonte principal (passagens que ja de si teem muito movimento dramatico e que por elle foram traduzidas dos chronistas arabes), com o fim especial de melhor accentuar e characterisar a verdade historica que pretendemos divulgar no nosso país.

Pedimos desculpa ao illustre arabista de ter ousado alliar a nossa insulsa prosa ás suas brilhantes descripções.

Introduzimos tambem nas notas alguns factos que pequena relação teem com o texto, porque achando-os assás curiosos, aproveitámos a occasião de os fazer conhecidos.

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