Os Sertões (1903)/Notas à 2ª edição
NOTAS Á 2.ª EDIÇÃO
Este livro, seccamente atirado á publicidade, sem amparos de qualquer natureza, para que os protestos contra as falsidades que acaso encerrasse se exercitassem perfeitamente desafogados, conquistou — franca e espontanea — expressa pelos seus melhores orgãos, a grande sympathia nobilitadora da minha terra, que não solicitei e que me desvanece. Os unicos deslizes apontados pela critica são, pela propria desvalia, bastante eloquentes no delatarem a segurança das ideias o proposições aventadas.
É o que demonstra esta resenha rapida:
...desabrigadas de todo ante a acidez corrosiva dos aguaceiros tempestuosos...
Viu-se nesta phrase uma inexactidão e um dos imaginosos traços do meu apedrejado nephelibatismo scientifico.[1]
Ora, escassciando-me o tempo para citar auctores, limito-me a apontar a pagina 168 da Geologia do Contejean sobre a erosão das rochas: des actions physiques et chimiques produites par les eaux pluviales plus ou moins chargées d’acide carb mique — principalement sur les roches les plus attaquables aux acides, comme les calcaires, etc.
Para o caso especial do Brazil, encontra-so ainda á pagina 151 do livro do Em. Liais, sobre a nossa conformação geologica, a caracterisação do phenomeno que «se montre en très grande échelle, sans doute à cause de la frequence et de l’acidité des pluies d’orage.»
No emtanto o critico leceiona: «Nem as chuvas causam erosões por conterem algumas moleculas a mais de nitro ou de ammoniaco, senão pela rijesa da camada horizontal superior em relação ás camadas molles inferiores, etc.»
Extraordinaria geologia, esta...
... as favellas têm, nas folhas, de estomates expandidos em villosidades...
Apresso-me em corrigir evidentissimo engano, tratando-se de noção tão simples.
Leia-se: nas folhas, de cellulas expandidas em villosidades.
É que a morphologia da terra viola as leis geraes do clima.
Outro dizer malsinado. Impugna-o respeitavel scientista:
«Penso que si a natureza combate os desertos, apenas o facies geographico modifica as condições extrinsecas do meio. E si violencia importa modificação, violar é desobedecer ao preestabelecido. Assim, não ha violação contra as leis geraes dos climas, eis o que não padece duvida.»[2]
Inexplicavol contradicta, esta, que investe com todas as conclusões da meteorologia moderna! Basta saber-se que sendo as leis geraes de um clima as que se derivam das relações astronomicas — as proprias oudulaçõos dos isothermos, indisciplinadamente recurvos, mas que seguiriam os parallelos se respeitassem aquellas leis, são um attestado da violação.
Nem precisavamos exemplificar o predominio permanente das causas particulares ou secundarias na constituição climatica do qualquer paiz. De Santos, cujo clima equatorial é uma anomalia em latitude superior a do tropico, á Groelandia coberta de gelos fronteira ás paragens benignas da Noruega, encontrariamos esplendidos exemplos.
Ainda recentemente no bello livro sobro a psychologia dos inglezes, Boutmy assignala o facto de ter a Inglaterra, no parallelo de 52°, temperatura egual a 32° do lat., dos Estados Unidos.
Quem quer qur acompanhe num mappa o isothermo do 0°, partirá da frigidissima Islandia, avançará para o sul, numa curva caprichosa, para a Inglaterra, que não tocará; torcerá depois para o extremo norte da Noruega; o volverá do novo ao Sul o so approximará, nos mezes frios, do Pariz o de Vienna — que assim so ligam, máo grado latitudes muito mais baixas, á enregelada terra polar.
E o viajante quo perlonga a nossa costa, do Rio á Bahia, demandando o Equador, não vai tambem por uma linha quasi inalteravel, traduzindo geometricamento um regimen constanto, espelhado na uniforme opulencia das mattas que ajardinam o littoral vastissimo?
Mas se parar em qualquer ponte e avançar para o occidente, por um parallelo, pela linha dofinidora, astronomicamente, da uniformidade climatica, deparará transcorridas poucas dezenas de leguas habitats inteiramente outros.
Não estão, nestes exemplos, que multiplicariamos se quizessemos, palmares violações das leis geraes dos climas?
Uma contradicção apontada pelo mesmo critice, diz elle:
«...veja á pag. 70 os dizores categoricos: Não temos unidade de raça. Não a teremos, talvez, nunca. E á pag. 616 lá está a preposição de que em Canudos se atacava a rocha viva da nossa raça.»
Neste salto mortal de 616 - 70 = 540 paginas é natural que se encontrem cousas disparatadas. Mas quem segue as considerações que alinhei acerca da nossa genesis, se comprehende quo de facto não temos unidade de raça, admitto tambem quo nos varios caldeamontes operados eu encontrei ne type sertanejo nina sub-categoria ethnica já formada (pag. 108) liberta polas condições historicas (pag. 112) das exigencias do uma civilisação de emprestime que lhe perturbariam a constituição definitiva.
Quer isto dizer quo nesto composto indefinivel — o brazileiro — encontrei alguma cousa que é estavel, un ponte do resistencia recordando a molocula integrante das crystall isações iniciadas. E era natural que, admittida a arrojada e animadora conjectura de que estamos destinades à integridade nacional, eu visso naquelles rijos caboclos, e nucleo de força da nossa constituição futura, a rocha viva da nossa raça.
Rocha viva... A locução suggero-me uni simile eloquente.
De facto, a nossa formação como a do granito surge de tres clomentos principaos. Entretanto quem ascende per um corro granitico oncontra es mais diverses elementos: aqui a argilla pura, do foldspath decomposto, variamento colorida; além a mica fraccionada, rebrilhando oscassamento sobre o chão; adcante a arona friavol, de quartzo triturade; mais lengo o bloce moutonné, de apparencia erratica; e per toda a banda a mistura desses mesmos olomentos com a addição de ontros, adventicios, formando o incaracteristico solo aravel, altamente complexo. Ae funde, porém, romovida a camada superficial, está o nucleo compacte o rijo da podra. Os elementes esparses, om cima, nas mais diversas misturas, porque o sole exposte guarda até os materiaos estranhos trazidos polos vontos, alli estão, em baixo, flxos numa dosagem segura, o resistentes, e intogros.
Assim a modida que aprofunda o observador so approxima da matriz do tode defluida, do local. Ora o nosso caso é identico — desde quo sigamos das cidades de littoral para es villarejos do sertão.
A principio uma disporsão estoutecadora do attributes, quo vãe do todas as nuancos da côr a todos os aspectos do caracter. Não ha distinguir-se o brazileiro no intricado mixto do brancos, negros e mulatos de todos os sangues e do todos os matizes. Estamos á superficie da nossa gens, ou melhor, seguindo á letra a comparação de ha pouco, calcamos o humus indefinido da nossa raça. Mas entranhando-nos na terra vemos os primeiros grupos fixos — o caipira, no sul, e o tabaréo, ao norte — onde já se tornam raros o branco, o negro e o indio puros. A mostiçagem generalizada produz, entretanto, ainda todas as variedades das dosagens dispares do cruzamento. Mas á medida que proseguimos estas ultimas so attenuam.
Vai-se notando maior uniformidade do caracteres physicos o moraes. Por fim, a rocha viva — o sertanejo.
Mas não fujo ainda a nova objecção, porque
«se tivemos inopinadamente resurgida e armada em nossa frente uma sociedade velha, uma sociedade morta, galvanisada por um doudo, so tivemos aquillo (continua o critico) não se comprehendo como na guerra de Canudos se ataeasso a rocha viva da nessa raça.»
Ao fallar em sociedado morta, roferi-mo a uma situação exeepeional da gento sertaneja corrompida por um nueleo do agitados (pag. 206). O mesmo parallelo feito na mosma pagina com estados identieos de entros povos, delata-lho o earaetor exeopcional. Do modo algum onunciei uma proposição geral o permanento, senão transitoria o especial, reduzida a um fragmento de espaço — Canudos — o a um Intervallo de tempo — o anno de 1897.
Nada mais limpido. Eneontrariamos perfeito similo nessa mysteriosa isomoria, mercè da qual corpos identicamonto constituidos, com os niesmos atomos nun arranjo semelhanto, apresentam todavia propriedades diversissimas. Assim pensando — e que se não irritem domais as sensitivas do nosso moio scientifico coin mais osta arrancada foroz do nopholibatismo — ou voje, e todos podem ver, no jagunço um corpo isomero do sertanejo. E comprehendo que Antonio Consolheiro ropontasso como uma «Integração de caraetores differoneiaos, vagos o Indefinidos, mal percobidos quando dispersos pela multidão» — o não como simples easo pathologico, porque a sua figura do pequeno grando homem so oxplica precisamonto pela circumstancia rara do syuthotisar do uma maneira empolganto o suggestiva, todos os erros, todas as crendicos o superstições, quo são o lastro do nosso temperamonto.
A propria caatinga alli assume aspecto novo. E uma melhor caracterisação talvez a definisse mais acertadamente como a paragem classica das caatanduras, etc., pag. 229.
Isto tambem suggorin reparos. Prostadios amadoros ostromecendo por todas as corollas da botanica apisondas pelo men nopholibatisnio scientifico (eterno labéo!) puzerani embargos ao dizer, doutrina (sic) erronea do livro.
E pontificaram «caatinga (matto ruim) é o resultado não do terreno mas da seccura do ar, ao passo quo as caatanduras são florestas chloroticas (matto doento) resultante da porosidade e da seccura do solo.»[3]
Adoravel objecção. Começa insurgindo-se contra o tupi; terniina insurgindo-se contra o portuguez.
Caatinga (matto ruim!)... Caatanduva (matto doente!)...
Florestas chloroticas... Chlorose de uma planta siguificando, em vernaculo, o seu «ostiolamento», isto é, alteração morbida determinada pela falta da luz, são originalissimas aquellas mattas nas regiões braziloiras onde vegetam em pleno fustigar dos soes!
Quanto á colebre doutrina, duas palavras. A discriminação dos aspoetos da nossa flora, é ainda um problema que aguarda solução clara.
Obsorvando que o aspecto principal da caatinga (matto branco) é o de un cerrado rarefeito o toluiço; e que o da caatanduva (matto máo, aspero, doente) ó o de uma matta enfezada e dura, tracei a phraso combatida porque a florula indicada, diversa da quo prepondera no sertão, me desponton aos olhos realmente com a ultinia apparencia.
Notaram-se, em todas as paginas, termos que varios críticos caracterisaram como invenções on gallicismos imperdoaveis. Mas forani infelizes cou os que apoutaram. Cito-os e defendo-os.
Esbotenar — esboicelar, esborcinar. (Novo Diccionario da Lingua Portugueza, de Candido Figueiredo).
Ensofregar — tornar sofrego. (Dic. Cont.º, de Aulete).
Preposterar — inverter a ordein do qualquer cousa. (Idem).
Impacto — mettido á força. (Idem).
Refrão — consideraram-no gallicismo. Replico com a phrase de um mestre, Castillio: «Eis o eterno refrão com que nos quebram o bichinho do ouvido.»
Inusitado — tambem se considerou francozismo. Em latim, inusitatus.
Não notaram outros. Antes considerassem á pag. 296, linha 6.ª, a deploravel tortura de um verbo intransitivo que sucessivas revisões não libertaram; e outros que exigem mais seria mondadura.
«...Mercenarios inconscientes.»
(Pag. VI). Estranhou-se a oxpressão. Mas devo mantel-a: mantenho-a.
Não tive o intuito de defender os sertanejos porque este livro não é um livro de defesa; é, infelizmente, de ataque.
Ataque franco e, devo dizel-o, involuntario. Nesse investir, apparentemente desafiador, com os singularissimos civilisados que nos sertões, deante de semi-barbaros, estadearam tão lastimaveis selvatiquezas, obedeci ao rigor incoercivel da verdade. Ninguem o negará.
E so não temosse envaidar-me on parallelo que não mereço, gravaria na primeira pagina a phrase nobremente sincera de Thucydides, ao escrever a historia da guerra do Peloponeso — porque eu tambem, embora sem a niesma visão aquilina, escrevi
«sem dar ceredito ás primeiras testemunhas que encontrei, nem ás minhas proprias impressões, mas narrando apenas os acontecimentos de que fui espectador ou sobre os quaes tive informações seguras.»
Euclydes da Cunha.
27 — 4 — 903.