Os deoses da Grecia

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Os Deoses da Grecia
por Friedrich Schiller, traduzido por Machado de Assis
Tradução de Die Götter Griechenlands. Poema agrupado posteriormente e publicado em Falenas.
Existe na Wikipédia um artigo relacionado com Die Götter Griechenlands.

Quando, co' os tenues vinculos de gozo,
O' Venus de Amathonte, governavas
Felices raças, encantados povos
        Dos fabulosos tempos;

Quando fulgia a pompa do teu culto,
E o templo ornavão delicadas rosas,

Ai! quão diverso o mundo apresentava
        A face aberta em risos!

Na poesia envolvia-se a verdade;
Plena vida gozava a terra inteira;
E o que jamais hão de sentir na vida
        Então sentião homens.

Lei era repousar no amor; os olhos
Nos namorados olhos se encontravão;
Espalhava-se em toda a natureza
        Um vestigio divino.

Onde hoje dizem que se prende um globo
Cheio de fogo, — outrora conduzia
Helios o carro de ouro, e os fustigados
        Cavallos espumantes.

Povoavão Orcades os montes,
No arvoredo Doriades vivia,
E agreste espuma despejava em flocos
        A urna das Danaides.

Refugio de uma nympha era o loureiro;
Tantalia moça as rochas habitava;

Suspiravão no arbusto e no canniço
        Syrinx, Philomela.

Cada ribeiro as lagrimas colhia
De Ceres pela esquiva Persephone;
E do outeiro chamava inutilmente
        Venus o amado amante.

Entre as raças que o pio thessaliano
Das pedras arrancou, — os deoses vinhão;
Por captivar uns namorados olhos
        Apollo pastoreava.

Vinculo brando então o amor lançava
Entre os homens, heróes e os deoses todos;
Eterno culto ao teu poder rendião,
        Ó deosa de Amathonte!

Jejuns austeros, torva gravidade
Banidos erão dos festivos templos;
Que os venturosos deoses só amavão
        Os animos alegres.

Só a belleza era sagrada outr'ora;
Quando a pudica Thiemone mandava,

Nenhum dos gozos que o mortal respira
        Envergonhava os deoses.

Erão ricos palacios vossos templos;
Lutas de heróes, festins e o carro e a ode,
Erão da raça humana aos deoses vivos
        A jocunda homenagem.

Saltava a dansa alegre em torno a altares;
Louros c'roavão numes; e as capellas
De abertas, frescas rosas, lhes cingião
        A fronte perfumada.

Annunciava o galhofeiro Baccho
O tyrso de Evohé; satyros fulvos
Ião tripudiando em seu caminho;
        Ião bailando as Menades.

A dansa revelava o ardor do vinho;
De mão em mão corria a taça ardente,
Pois que ao fervor dos animos convida
        A face rubra do hospede.

Nenhum espectro hediondo ia sentar-se
Ao pé do moribundo. O extremo alento

Escapava n'um osculo, e voltava
        Um genio a tocha extincta,

E além da vida, nos infernos, era
Um filho de mortal quem sustentava
A severa balança; e co'a voz pia
        Vate ameigava as Furias.

Nos Elyseos o amigo achava o amigo;
Fiel esposa ia encontrar o esposo;
No perdido caminho o carro entrava
        Do destro automedonte.

Continuava o poeta o antigo canto;
Admetp achava os osculos de Alceste;
Reconhecia Pylades o socio,
        E o rei thessalio as flechas.

Nobre premio o valor retribuia
Do que andava nas sendas da virtude;
Acções dignas do céo, filhas dos homens,
        O céo tinhão por paga.

Inclinavão-se os deoses ante aquelle
Que ia buscar-lhe algum mortal extincto;

E os gemeos lá no Olympo alumiavão
        O caminho ao piloto.

Onde és, mundo de risos e prazeres?
Porque não volves, florescente idade?
Só a poeira conserva os teus divinos
        Vestigios fabulosos.

Tristes e mudos vejo os campos todos;
Nenhuma divindade aos olhos surge;
D'essas imagens vivas e formosas
        Só a sombra nos resta.

Do norte ao sopro frio e melancolico,
Uma por uma, as flôres se esfolhárão;
E d'esse mundo rutilo e divino
        Outro colheu despojos.

Os astros interrogo com tristeza,
Seleno, e não te encontro; á selva fallo,
Fallo á vaga do mar, e á vaga, e á selva,
        Inuteis vozes mando.

Da antiga divindade despojada,
Sem conhecer os extasis que inspira,

D'esse esplendor que eterno a fronte lhe orna
        Não sabe a natureza.

Nada sente, não goza do meu gozo;
Insensivel á força com que impera,
O pendulo parece condemnado
        Ás frias leis que o regem.

Para se renovar, abre hoje a campa,
Forão-se os numes ao paiz dos vates;
Das roupas infantis despida, a terra
        Inuteis os rejeita.

Forão-se os numes, forão-se; levárão
Comsigo o bello, e o grande, e as vivas côres,
Tudo que outr'ora a vida alimentava,
        Tudo que é hoje extincto.

Ao diluvio dos tempos escapando,
Nos recessos do Pindo se entranhárão:
O que soffreu na vida eterna morte,
        Immortalise a musa!

Notas do tradutor, Machado de Assis

Não sei allemão; traduzi estes versos pela traducção em prosa franceza de um dos mais conceituados interpretes da lingua de Schiller.