Os insetos brasileiros descritos pelo naturalista Georg Marcgrave (1610 – c.1644)
Argus Vasconcelos de Almeida[1]
O presente trabalho estuda os “insetos” brasileiros descritos pelo naturalista Georg Marcgrave (1610 – c. 1644) durante a sua permanência no Nordeste brasileiro, no período de 1638 a 1643. Tentou-se fazer uma comparação e análise de duas obras históricas que, presumivelmente, são de autoria de Marcgrave: o Livro VII da Historiae rerurm naturalium Brasiliae e os Libri Principis (LP). O Livro VII descreve de 75 exemplares, dos quais 65 são insetos e 12 outros artrópodos terrestres. Nos L.P. existem 58 aquarelas que representam insetos e outros artrópodos. Em relação aos insetos, podese concluir que foi numa outra série de desenhos que as xilogravuras do Livro VII foram baseadas. De acordo com pistas taxonômicas fez-se uma revisão desses insetos concluindo-se pela sua pouca representatividade regional.
Palavras-chave: Insetos, História Natural do Brasil holandês, século XVII, Georg Marcgrave
Abstract: The present work studies the “insects” described by the naturalist Georg Marcgrave (1610 – c. 1644) during your stay in the Brazilian Northeast, in the period from 1638 to 1643. Tried to do a comparison and analysis of two historical works presumably, they are authorship of Marcgrave: the Book VII of Historiae rerum naturalium Brasiliae and Libri Principis. The Book VII treats of 75 copies, of which 65 are insects and 12 other terrestrial arthropods. In L.P. there are 58 watercolors that represent insects and other arhropodos exist. In relation to the insects, it can be concluded that it was in one another series of drawings that the xilogravuras of Book VII had been based. Based on taxonomic tracks a revision was made of these insects concluding itself for its little local representation.
Keywords: Insects, Natural History of Dutch Brazil; VII century, Georg Marcgrave.
Georg Marcgrave nasceu em 30 de setembro de 1610, em Liebstad, Saxônia, filho do mestre-escola Georg Markgraf e de sua mulher Elizabeth, casados em 27 de novembro de 1609 (Whitehead, 1979). A partir dos 16 anos, obteve autorização paterna para deixar a cidade natal com o objetivo de visitar e estudar em diversas universidades européias. Segundo Taunay (1942), terminou a sua deambulação acadêmica em Leyden, na Holanda, quando a 11 de setembro de 1636, matriculou se como estudante de Medicina.
Findos os estudos, entrou em contato com Joannes de Laet (1593-1649), diretor da Companhia das Índias Ocidentais e este o fez conhecer a Guilherme Piso (Willem Pies, 1611-1678), médico do conde Maurício de Nassau (1604-1679), que havia sido nomeado governador do Brasil holandês. Segundo Pickel (1949), Laet já deveria conhecer Marcgrave dos círculos universitários e, portanto, já estaria bem recomendado quando convidado por Piso para tomar parte na expedição ao Brasil.
Marcgrave demonstrava grande interesse em conhecer o Brasil, com o principal objetivo de realizar observações astronômicas. Assim, através de Laet, conseguiu ser designado para servir, inicialmente a Piso, como assistente naturalista, e depois, a Nassau, como astrônomo e geógrafo no Brasil (Carvalho, 1909). Partiu Marcgrave da Holanda no dia 1 de janeiro de 1638, chegando à Bahia após dois meses de viagem. Chegando ao Recife, reuniu-se a Piso, então cirurgião-mor das tropas e também chefe da missão científica de Nassau. Neste período assumiu as funções de geógrafo, cartógrafo, astrônomo e meteorologista (Moulin, 1986). Em suas horas vagas, ainda coletava e estudava as plantas e animais da região.
Em suas pesquisas, Marcgrave teve o apoio de Nassau que, inclusive, mandou construir para o mesmo, numa das torres do Vrijburg (seu palácio na ilha de Antonio Vaz, no Recife), um pequeno observatório astronômico, o primeiro do Hemisfério Sul, com o objetivo principal de observar o eclipse solar previsto para 13 de dezembro de 1640 (Moulin, 1986). Ali foram realizadas as primeiras observações astronômicas e meteorológicas na América. Entretanto, a localização deste observatório numa das torres do Vrijburg, é questionada por Polman (1984), que registra a sua localização na 1ª casa de moradia de Nassau no Recife, situada onde atualmente é o cruzamento da Rua do Imperador com a 1º de março, em Santo Antonio do Recife.
Segundo a maior parte dos historiadores, no Nordeste, Marcgrave teria empreendido diversas excursões de pesquisa e coleta de material vegetal e animal. Como cartógrafo, parece ter sido um bom conhecedor das regiões do Brasil holandês, pois os próprios mapas da obra de Barlaeus, atribuídos a Franz Post, parecem ter sido cópias dos seus trabalhos cartográficos. Suas principais excursões teriam abrangido a região compreendida pelos atuais Estados de Pernambuco, Paraíba e Rio Grande do Norte, que teriam sido anotadas em um diário ou caderno de campo, hoje perdido.
Segundo Mello-Leitão (1937), dessas excursões, voltava Marcgrave ao Recife, trazendo coleções de vegetais herborizados, peles e penas de animais, exemplares taxidermizados ou mesmo vivos, enjaulados, destinados aos viveiros do horto de Nassau e insetos preparados a seco. Sob outro ponto de vista, afirma Whitehead (1979), que a maior parte de suas observações relativas à História Natural, foram realizadas nas vizinhanças do Recife ou na própria cidade do Recife, no jardim botânico-zoológico do palácio de Nassau, o primeiro fundado em moldes europeus no Novo Mundo. Aí teve oportunidade de observar espécies que não pode fazer em suas viagens. Como escreve Teixeira (1995), assim entende-se a ausência de determinados elementos da fauna regional, sobretudo em relação aos insetos, pela pobreza da sua representação. Pois a maior parte dos seus insetos e outros artrópodos terrestres, até hoje, são de ocorrência muito comum na região.
Apontando a necessidade de uma pesquisa mais profunda, este jardim zoo botânico de Nassau teve um papel muito mais importante, do que julga a maioria dos pesquisadores, como locus das descrições zoológicas e botânicas de Marcgrave (Almeida & Carvalho, 2002). Segundo Lichtenstein (1961), por precaução, todas as suas anotações foram escritas em linguagem cifrada, que depois da sua morte, deram trabalho a Laet para decifrá-las e organizá-las. Enquanto isso, Piso, por sua vez, também coletava e anotava, com especial atenção às plantas medicinais práticas médicas da região (Moulin, 1986).
Chamado de volta à Europa pela direção da Companhia das Índias Ocidentais, Maurício de Nassau deixou Pernambuco, em maio de 1644. Com ele, seguiu Piso e os demais membros da missão artístico-científica. Marcgrave, provavelmente por designação do próprio Nassau, seguiu viagem para Angola, com vistas a novas investigações astronômicas e naturalísticas, quando veio a falecer em São Paulo de Luanda, vítima de uma febre endêmica, segundo Taunay (1942) em julho ou agosto de 1644 ou como sustenta Whitehead (1979), em outubro de 1643, isto é, sete meses antes da partida de Nassau para a Europa, quando, certamente, já deveria ter tido notícia da sua morte.
Todo o material coletado por Marcgrave, bem como as suas anotações e desenhos, faziam parte da bagagem de Nassau. Interessado na rápida publicação dos trabalhos de Piso e Marcgrave, o conde destinou-os a renomados estudiosos europeus para a sua necessária organização. Assim, suas amostras, anotações cifradas e desenhos de plantas e animais, foram entregues a Joannes de Laet, que, juntando-as ao trabalho médico de Piso, acrescidos de um apêndice de sua autoria, editou em 1648 a notável obra Historia naturalis Brasiliae (Pisonis & Marcgravi, 1648). Segundo Pickel (1949), a participação de Laet foi muito maior do que a de um simples editor e organizador, pois, redigiu anotações, introduziu desenhos, quando julgou necessário, completou falhas e imprecisões descritivas. Consta que Piso, após a morte de Laet em 1649, demonstrou insatisfação com o resultado da obra e dez anos depois, já médico famoso na Holanda, edita a obra De Indiae utriusque re naturali et medica, modificando o plano original da obra, incorporando aos capítulos de sua autoria o que só a Marcgrave pertencia e citando-o como mero coletor e assistente (Taunay, 1942).
Durante os séculos XVIII e XIX, o material de Marcgrave, foi estudado por uma série de notáveis naturalistas, entre os quais, o próprio Lineu, que descreveu inúmeras espécies animais e vegetais; Lichtenstein, que identificou os vertebrados, em memórias publicadas entre 1814 e 1826 e as plantas por Martius, no 70 volume dos Anais da Academia da Baviera, entre 1853 e 1855 (Mello-Leitão, 1937).
Como enfatiza Whitehead (1979) os primeiros registros da fauna e flora do Brasil, foram realizados por amadores: cronistas coloniais dos séculos XVI e XVII. Entretanto, com Marcgrave, a pesquisa sistemática da biota brasileira, pela primeira vez foi empreendida por um cientista profissional, treinado, com financiamento direto e publicação garantida dos seus resultados.
Por outro lado, além do seu papel colonial e suas funções na missão científica, Marcgrave pode ser considerado como um verdadeiro representante da cultura científica da Renascença, acumulando todos os saberes sistematizados da época em que viveu. Deve-se a este jovem sábio, que trabalhou com tanto afã como estivesse pressentindo a própria morte prematura, o primeiro levantamento sistematizado da nossa fauna e flora.
Em relação aos insetos, Marcgrave fez diversas observações de campo, registrou algumas datas e localidades, criou, colecionou e observou-os sob “vidro de aumento”, em diversas oportunidades, constituindo-se assim, nos primeiros seres vivos no Novo Mundo examinados sob um instrumento ótico de aumento. Entretanto, escreveu as suas notas num estilo sóbrio, seco, quase cartorial, de levantamento descritivo desses produtos irrelevantes da natureza, como eram considerados os insetos na época. Como escreve Teixeira (1995), todo o seu texto é marcado pela ausência de maiores discussões teóricas candentes da época, como a origem da biota americana e sobre as teorias da geração dos seres vivos. Julga Whitehead (1979) que em seu texto não há lugar para qualquer observação filosófica em relação ao seu próprio sistema classificatório, sendo igualmente imune em relação às histórias fantásticas correntes sobre animais fabulosos.
Além das descrições lineanas e de seus discípulos nos séculos XVIII e XIX, os insetos de Marcgrave foram objeto de estudos de Lane (1942), por ocasião da edição brasileira da obra de Marcgrave, em parte por Boeseman et al. (1990) e mais recentemente pelo zoólogo Hitoshi Nomura na sua obra abrangente sobre a “História da Zoologia no Brasil: século XVII”, 2ª parte, que é dedicada exclusivamente à identificação zoológica dos animais descritos por Marcgrave, baseado exclusivamente na edição brasileira de 1942.
Com a recente edição brasileira dos Manuais ou Libri Principis e do Theatrum rerum naturalium Brasiliae, além do Miscellanea Cleyeri (Teixeira, 1995), uma nova luz foi lançada sobre o problema da identificação das espécies marcgravianas. Em relação aos insetos, tornou-se imperioso um estudo comparativo entre as xilogravuras do Livro VII da Historiae rerum naturalium Brasiliae com a iconografia redescoberta na Biblioteca Jaguelônica da Universidade de Cracóvia.
É intenção do presente trabalho contribuir no esclarecimento deste problema, através de um estudo analítico-comparativo entre as representações e descrições dos insetos e outros artrópodos terrestres existentes no Livro VII da Historiae rerum naturalium Brasiliae e na possível iconografia que serviu de fonte para as xilogravuras e descrições.
A formação científica de Marcgrave deu-se ainda sob a influência da História Natural quinhentista. A sua obra é marcada pela influência de zoólogos renascentistas como Edward Wotton (1492-1555), fiel seguidor da classificação aristotélica, autor da obra De differentiis animalium, que exerceu profunda influência sobre Gesner (1516-1565) e Aldrovandi (1522-1605), que teve conseqüências marcantes nas classificações biológicas ao longo da história da Biologia. Além de Thomas Mouffet, autor da obra Insectorum sive minimorum animalium theatrum, editada em Londres em 1634. Esse conjunto de zoólogos renascentistas era completado por Rondelet (1505-1556), discípulo de Aldrovandi e um pioneiro nas pesquisas de zoologia marinha; Pierre Belon (1517-1564), um dos fundadores da ornitologia e autor de um dos primeiros ensaios de investigação em anatomia comparada e Giulio Cesare Scaliger (1484-1558), cuja estreita relação com a História Natural foi por conta da sua tradução da “História dos Animais” de Aristóteles e do “Tratado das Plantas” de Teofrasto (Nordenskiöld, 1949).
Para a História Natural de então o conceito de inseto era muito mais abrangente do que hoje é compreendido. Como insetos (insectum) eram considerados todos os invertebrados de corpo segmentado. O próprio termo “inseto”, até hoje possui uma carga de conotação depreciativa, como registrado em todos os dicionários e enciclopédias, num plano absolutamente secundário, os termos associados, tais como: “porqueiras”, “imundícies”, “vermes” e “bichos”. Os misteres do “naturalista” passam a ser então uma atividade reconhecida e prestigiada pelos organizadores das grandes navegações e conquistas.
Na Holanda além da já existente e exitosa Companhia das Índias Orientais, é fundada em junho de 1621 a Companhia das Índias Ocidentais, que segundo Teixeira (1995), se dá ao término da trégua com a Espanha, com a tarefa de centralizar as operações na África e América. Após uma série de ações fulminantes em territórios coloniais portugueses e espanhóis, chega a vez do Nordeste do Brasil em 1630. Após uma frustrada tentativa de tomar Salvador em 1624, a Companhia passou a empenhar esforços para tomar Pernambuco, região favorável aos interesses mercantis holandeses, por causa da cana-de-açúcar.
De acordo com Albertin (1985), em 1636 foi designado, pelos diretores da Companhia das Índias Ocidentais, para o cargo de governador geral do território holandês no Brasil: o Conde João Maurício de Nassau-Siegen, que assumiu um conceito muito diferente de sua função de administrador da colônia. IsSo fica patente pela organização da sua comitiva, da qual faziam parte, além de soldados e oficiais do governo, também cientistas e artistas, entre os quais: Piso, Marcgrave, Plante, Cralitz, Eckhout, Post e Wagener.
O Livro VII, que trata dos insetos de Marcgrave, é parte da obra original Historia naturalis Brasiliae (Pisonis & Marcgravi, 1648), editada em Amsterdã, tendo como divisão a Historiae rerum naturalium Brasiliae (“História das coisas naturais do Brasil”), que está, por sua vez, dividida em oito livros: os três primeiros tratando das plantas; o quarto, dos peixes; o quinto, das aves; o sexto, dos quadrúpedes e serpentes; o sétimo, dos insetos e o oitavo, que trata da região e dos seus habitantes indígenas. A obra de Marcgrave, acrescentada da obra de Piso (De medicina Brasiliensi) e o apêndice de autoria de Laet (De Tapuys et Chilensibus), formam o todo da obra. No Livro VII são descritos 75 exemplares de artrópodos, sendo 65 insetos e 12 outros artrópodos terrestres. Existem 29 xilogravuras no texto, sendo 23 de insetos.
Os comentários sobre o Livro VII na edição brasileira de 1942 são de autoria do entomologista Frederico Lane (1901-1979), baseado nas descrições lineanas e sobre os estudos de Montoya sobre línguas indígenas de 1876. Grande parte dos insetos e outros artrópodos terrestres foram identificados até suas espécies, com base no exame das xilogravuras e textos descritivos. Contudo, as identificações de Lane (1942), apresentam algumas lacunas e imprecisões, principalmente em nível dos taxa superiores de classes, ordens e famílias.
Mais recentemente, com a redescoberta da iconografia, os desenhos dos insetos foram, em parte, comentados por Boeseman et al. (1990), examinando o material de Leningrado e, de uma forma muito geral e baseada exclusivamente na edição brasileira de 1942, por Nomura (1996).
Os insetos e outros artrópodos terrestres estão numerados segundo a edição brasileira de 1942, seguida da denominação original de Marcgrave, da sua possível identificação zoológica e comentários. As xilogravuras comentadas são todas do Livro VII da “História das coisas naturais do Brasil” comparadas com as aquarelas dos Libri Principis.
Inseto que aparece com freqüência nos jardins, bosques e campos, nos meses chuvosos. Tem dois dedos de comprimento, a cabeça como os olhos tem o tamanho de um grão de ervilha e é de forma redonda; os olhos de figura de elipse são muito grandes. A bôca, quando aberta, é bem grande; o lábio inferior ou maxila inferior é bifurcada no meio; a superior é integra. Na bôca, encontra-se quatro dentes falciformes, os dois superiores são mais fortes e guarnecidos cada um de quatro aguilhões; os inferiores só têm um aguilhão, na extremidade. Sôbre a bôca, no alto da cabeça, encontram-se duas protuberâncias pequenas, como se houvesse uma fronte bifurcada, e dois cornichos finíssimos. O tórax e o ventre formam um contínuo de dedo e meio de comprimento, da grossura de uma fava medíocre; ao mesmo se acha anexa uma cauda do comprimento de um dedo e quarto, formada de onze juntas, de uma figura de pirâmide trilateral, curva na extremidade. Junto ao dorso, achamse quatro asas, duas de cada lado, que sempre se acham estendidas lateralmente, quer êste inseto esteja voando, quer assentado. Cada asa mede quase dois dedos de comprimento e, na maior largura, meio dedo; elas constam de uma membrana dura, lustrosa, grisalha, entrecortada de veiazinhas. Cada asa tem, na extremidade, em direção à parte anterior, uma mancha alongada, de um fusco escuro; cada uma também adere ao corpo por meio de uma dupla articulação, como se fosse uma dupla roldana e por isso as traz sempre extensas em linha reta; pode levantá-las para cima ou para baixo, mas não dobrá-las ou voltá-las para trás; quando voa, produz um sussurro. Os olhos são de cor punícea; o resto da cabeça e a cauda são de um vermelho carregado; o tórax e o ventre são também vermelhos carregados com uma mescla de preto e branco; as mesclas são; as pernas são fuscas. Êste inseto procura alimento, pousando nas flores. Os belgas denominam êste inseto, “Een spaensche inffzow”. Êste inseto me parece ser o mesmo descrito e pintado por Scaligero, Hist. Anim. Lib. VI, e declara que é chamado Coroculum pelos adriáticos e Monachettam pelos taurinenses. Êle pensa que êste inseto corresponde ao efêmero de Aristóteles, mas não conseguiu nada de certo dos escritos de Aristóteles. No mês de Julho de 1640 vi inúmeros insetos nos campos da mesma cor do que acima foi descrito, mas com umas manchas redondas e pretas, nas asas, uns também tinham o corpo fusco; alguns, esverdeados. (Marcgrave, 1942, p.254).
Esta minuciosa descrição, não deixa dúvidas, tratam-se de exemplares de libélulas (Odonata), tão comuns na Zona da Mata e litorânea do Nordeste, principalmente em Pernambuco, nos “meses chuvosos”, como registra Marcgrave, devido a presença de água no ambiente. A morfologia da cabeça está descrita com muita precisão e também a do abdome, com sua forma de “pirâmide trilateral”. As asas e a coloração fornecem os principais elementos de identificação: assim, o primeiro exemplar descrito, com sua cor de “vermelho carregado”, deve tratar-se de Orthemis discolor (Burmeister, 1839), até hoje comuníssima na região. Sua provável representação nos L.P., está na p.117 (v.2), onde é denominada de “Jaçatína”[8]. O segundo exemplar, que Marcgrave escreve ter observado no campo, em revoada, no mês de julho de 1640, com umas “manchas redondas e pretas, nas asas”, deve tratarse do libelulídeo Erytrodiplax umbrata (Linnaeus, 1758), que possui tais manchas nas asas, quando adultos já maduros, embora que tais manchas sejam, mais precisamente, em forma de barras, à distância do vôo, poderiam ser perfeitamente descritas como arredondadas.
Como objetivo geral do presente trabalho, tentou-se fazer a comparação e análise de duas obras históricas que contém textos e figuras de insetos e outros artrópodos terrestres que, presumivelmente, são de autoria de Marcgrave: o Livro VII do “História das coisas naturais do Brasil” e os dois volumes dos Libri Principis. O Livro VII trata de 75 exemplares, entre os quais, 65 são insetos propriamente ditos e 12 outros artrópodos terrestres. Existem 29 figuras (xilogravuras) no texto, entre as quais, 23 representam insetos e apenas 6 outros artrópodos terrestres.
Nos L.P., praticamente não há textos descritivos, existem rápidas anotações de aspectos curiosos sobre os animais, feitas por um leigo, que, historicamente, são atribuídas ao próprio Nassau, já que presumivelmente, foram feitos para seu uso e entretenimento. Nos L.P. existem 58 aquarelas e desenhos de insetos e outros artrópodos terrestres[22].
Tendo-se como hipótese a grande probabilidade de que os desenhos e aquarelas tenham sido feitos no Brasil e certo que as xilogravuras foram elaboradas na Holanda, por ocasião da publicação da Historia naturalis Brasiliae, em 1648 e de que as primeiras serviram de modelos para as segundas, de acordo com a nossa análise: apenas 18 “insetos” são descritos e figurados no Livro VII com possíveis modelos nos L.P.; 17 são descritos, mas não são figurados, porém, existem possíveis representações destes nos L.P., totalizando 35 relacionamentos; 11 são descritos e figurados no Livro VII e não possuem modelos ou representações nos L.P.; 29 são descritos e não figurados e não possuem modelos ou representações nos L.P., totalizando 40 exemplares e, finalmente, 23 aquarelas são exclusivas dos L.P. e não existem no Livro VII.
Se as primeiras serviram de referência para as segundas, como explicar a ocorrência de 11 exemplares descritos e figurados no Livro VII, sem modelos ou representações nos L.P.? Como explicar a existência de 23 aquarelas exclusivas dos L.P. que nada tem a ver com o Livro VII?
Do ponto de vista iconográfico, o exame das reproduções das aquarelas dos Libri Principis indica que há um considerável número de desenhos que possui um mesmo estilo simplificado e padrão esquemático que devem ser de autoria de Marcgrave, como ele mesmo declarou numa de suas cartas escritas em português (Whitehead, 1979, p.434). Entretanto, existem algumas aquarelas que possuem um estilo diferente das demais, mais sofisticado, como elevado padrão de qualidades artísticas, nas proporções das figuras, na elegância do traço, no sombreamento e uso de cores. Características observadas, por exemplo, nas figuras dos insetos: “Panamaguaçú”; “Quijitinga”; “Panamá”; “Panáme”; “Cacicacyguaçú” e “Tataurána”, que provavelmente sejam da autoria de Albert Eckhout.
Quando as xilogravuras do Livro VII são comparadas com as reproduções das aquarelas dos Libri Principis, torna-se evidente que, embora alguns insetos e outros artrópodos tenham seus possíveis modelos ou representações daí, não são exatamente as aquarelas que serviram de fonte para a elaboração das xilogravuras. Pois, é improvável que algumas das xilogravuras tenham sido copiadas das aquarelas, pela presença de algumas discrepâncias nas minúcias e orientação das figuras, cujo gravador não teria condições de criar por fantasia ou imaginação.
Enfim, tratam-se dos mesmos “insetos”, mas não dos seus respectivos modelos, como afirmam Boeseman et al. (1990), estudando os desenhos de Lenigrado, para quem as xilogravuras foram baseadas em desenhos anteriores ou traçados subsequentes às pinturas e desenhos feitos por Eckhout, Wagener e pelo próprio Marcgrave. Horkel, citado pelos mesmos autores, acreditava que os originais dos desenhos foram realizados com base em esboços de campo e que os L.P. haviam sido feitos na Holanda, entre 1644 e 1645, baseados em cópias dos originais de Marcgrave. A hipótese de que as aquarelas não tenham servido de fonte para as xilogravuras, foi levantada pela primeira vez por Whitehead (1979) quando achou plausível que estas, poderiam ter sido baseadas em esboços feitos a lápis. Esta hipótese também é compartilhada por Albertim (1985).
Consequentemente, pelo menos em relação aos insetos, é possível concluirse que foi numa outra série de desenhos não coloridos que os gravadores de Hackium-Elzevirium basearam-se para a confecção das xilogravuras.
Daí se compreende a dificuldade do organizador da Historia naturalis Brasiliae em escolher os desenhos correspondentes a cada texto descritivo, que, algumas vezes, mostram notáveis discrepâncias, revelando a pressa com que foram organizadas por Laet, para dar conta da tarefa designada por Nassau. Nota-se que alguns grupos, desde muito reconhecidos pelos naturalistas quinhentistas, como naturais e facilmente identificáveis, como o dos coleópteros e lepidópteros, por exemplo, estão baralhados no Livro VII. Outros, com as designações indígenas estropiadas, em relação às das aquarelas, quase sempre corretamente grafadas. Algumas figuras foram importadas de outros autores, como no caso mais flagrante, da aranha caranguejeira de Clusius, além do caso mais evidente da virtual autoria de Marcgrave do desenho do mosquito “Nhatiu”, que não existe nas representações das aquarelas dos L.P., bem como 11 xilogravuras de insetos e outros artrópodos que, seguramente, não possuem modelos ou representações nos L.P.
Em relação ao conteúdo dos textos descritivos, o que mais chama a atenção é que Marcgrave não tenha reconhecido algumas lagartas que descreveu e desenhou como larvas de lepidópteros. Pois se ele mesmo descreveu a metamorfose completa da lagarta do maracujazeiro, chegando mesmo a criar crisálidas em cativeiro, como não identificar as suas lagartas como estádios jovens de borboletas e denominá-las de “vermes”?
Quanto à representação geral dos insetos e outros artrópodos no Livro VII e também nos L.P., constitui-se numa reduzida amostra da rica e diversificada entomofauna nordestina, mesmo para os dias atuais, quando grande parte dos nossos ecossistemas naturais foi ou está sendo devastada.
Ocorrem registros de difícil compreensão, como é o caso do gafanhoto Tropidacris cristata, com atual distribuição geográfica ao Norte do Brasil, que parece ter sido facilmente coletado e descrito vivo no campo, pelo naturalista.
Finalmente, deve ser enfatizado que os principais insetos úteis ou nocivos, inúmeras vezes referenciados pelos cronistas coloniais dos séculos XVI e XVII no Nordeste, despertaram pouca ou nenhuma atenção de Marcgrave.
Assim, acredita-se que grande parte dos insetos e outros artrópodos descritos no Livro VII foram observados, desenhados, criados e coletados nos jardins do Horto do Palácio de Friburgo no Recife, do qual o próprio Marcgrave deve ter sido um dos planejadores e organizadores.
Pelo menos em relação aos insetos, não predominou o critério de utilitarismo nos levantamentos dos produtos naturais da terra, sendo representados, com menos esforço, os que estavam mais à mão.
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Notas
[editar]- ↑ Professor Adjunto do Departamento de Biologia da UFRPE. E-mail: argus@ufrpe.br
- ↑ Na nota correspondente, Laet o denomina de gafanhoto, citando o gênero Mantes de Thomas Mouffet. Em Pernambuco e Paraíba é conhecido como “põe-mesa”.
- ↑ É uma das poucas figuras não coloridas dos L.P., apresentando uma posição invertida e com as pernas mais arqueadas e sem as pontuações dos élitros representadas na xilogravura. A denominação do desenho é “Enéma”. É conhecido na região como “besouro de chifre”.
- ↑ Apresentam realmente a semelhança com uma face humana, na parte dorsal do abdome, principalmente nos exemplares vivos, que ocorrem comumente nos jardins, onde armam suas grandes teias entre os galhos e caules das plantas.
- ↑ Em nota correspondente ao texto, Laet confunde este elaterídeo com um buprestídio. A edição brasileira grafa erradamente o nome de Mouffet, escrevendo Mousset, confundindo a letra f latina por s.
- ↑ O texto descritivo é bastante claro e revela a prática da alfinetagem de insetos, quando se refere a dureza do seu corpo quando da tentativa de alfinetá-lo.
- ↑ É uma aquarela de estilo e qualidade superiores às demais, revelando um outro traço provavelmente de Eckhout.
- ↑ Muito semelhante a denominações populares deste inseto na Amazônia: “Jacina” ou “Jacinta”, como registradas por Lenko & Papavero (1996)
- ↑ De acordo com Mello (1986, p.100), o desenho desta aranha consta da obra de Laet na edição de 1630, que por sua vez foi retirada de Clúsio, da sua obra póstuma Curae Posteriores, que por sua vez, recebeu o desenho de um certo Jan van Uffele que a desenhou de um exemplar observado na Bahia em fins do século XVI. Whitehead (1979: 437) também afirma que, o desenho da caranguejeira foi tirado da obra de Clusius por Laet, para servir de modelo da xilogravura do Livro VII.
- ↑ Wagener (1964, prancha 90 a) parece ter também representado esta lagarta, tanto na figura, quanto na descrição, quando se refere a “lagarta verde”.
- ↑ A principal questão é: por que este desenho não está representado na iconografia? Como já desconfiava Whitehead (1979), que talvez tenha havido uma outra série de desenhos não coloridos que serviram de modelos para as xilogravuras.
- ↑ No final, pela primeira vez questiona o conceito de geração espontânea de Aristóteles em relação a estes artrópodos.
- ↑ Seguramente, este é o primeiro assinalamento dessa espécie para o Nordeste, já que esta, tem uma distribuição geográfica ao Norte do Brasil, nos Estados do Amazonas, Pará, Rondônia e Mato Grosso. Entretanto, nos dias atuais, já ocorreu assinalamento da presença dessa espécie no Município de Moreno, Pernambuco, atribuída pelos autores a causas acidentais (Hora & Almeida, 1994). Conclui-se, portanto, que a área de distribuição geográfica da espécie, há séculos atrás, era muito mais ampla do que é hoje.
- ↑ Constituia-se num dos principais tormentos relatados pelos colonizadores nas regiões costeiras do Brasil. Marcgrave descreve também o seu mais usado processo de extração e tratamento.
- ↑ Marcgrave registra a entomofagia dos negros, mas nada escreve sobre os indígenas, onde este hábito era mais comum e até hoje praticado, durante as revoadas de tanajuras, logo após a ocorrência das primeiras chuvas do ano.
- ↑ Moscas assinaladas por Marcgrave como ocorrentes em Camaragibe e Trapussú (e não “Taprassú” como está escrito na edição brasileira de 1942, que deve ser o rio Tapiruçú, no atual município de Serinhaém, PE).
- ↑ A chave para a compreensão da descrição marcgraviana foi a da cor do “cinábrio”, que segundo Calvet (1934), corresponde a coloração vermelha escarlate do sulfeto de mercúrio (AgS).
- ↑ Nota de Laet. Fizemos menção dêste inseto na descrição da Índia Ocidental, lib.I, cap. 4 conforme estas palavras. Não merece fé o que narra Oviedo e outros acêrca do Cucuyo, do gênero dos escarabeus, isto é, que emite tanta luz através dos olhos e lados, donde procedem as asas, que dissipa como lâmpadas as trevas da noite, e dão aos homens a possibilidade de ler ou escrever. Dizem também que os indígenas da América Espanhola usavam dêste inseto como meio de iluminação e até de afugentar ao Níguas, espécie de mosquitos molestíssimos. (Laet, 1942, p.258).
- ↑ Deixa-se de entender a denominação de “caracol” dada a este inseto na abertura do texto, Marcgrave seguramente, não iria cometer este engano; muito provavelmente, deve tratar-se de um erro de tradução, já que a forma, tamanho e hábitos do inseto, estão corretamente descritos.
- ↑ Destaca-se, mais uma vez, a referência ao uso de um “vidro de aumento” para examinar o inseto, que deveria ser uma espécie de lupa manual.
- ↑ Estas abelhas nativas não foram descritas e nem citadas por Marcgrave e sim por Laet, com base em informação dos tapuias coletadas por Jacob Rabbi. Do ponto de vista benéfico e utilitário, estes insetos são os mais referenciados pelos cronistas coloniais dos séculos XVI e XVII e também por Piso, que descreve os hábitos e utilidade de um bom número de abelhas nativas. Por que estes insetos, tão comuns no Nordeste brasileiro, não teriam chamado a atenção de Marcgrave?
- ↑ Reproduções de aquarelas de um conjunto de 22 insetos e um aracnídeo são apresentadas nos L.P. que não existem no Livro VII, cujas figuras, identificações e comentários são tratadas por Almeida & Carvalho (2002).