Os ultimos dias de Pompeia/Prologo
PROLOGO
Uma festa em casa de Arbace o Egypciano
A orgia ferve com toda a sua intemperança. O Falerno, o Capri, o Veliterno escorre a rios trabordado das amphoras lacradas a longos annos, nas copas doradas..... O bacchanal augmenta..... As coroas de rosas que adornavam as cabeças dos convidados desfolhavam-se e desfaziam-se com os movimentos descompostos das mulheres e dos homens já ebrios..... O ar do salão, pela prolongada demora das pessoas, pelas numerosas flammas dos castiçaes e pela fumaça cheirosa que se elevava dos tripodes de ouro, tornava-se sempre mais abafado.
Arbace, o sacerdote de Isis, a Deusa Egypcia, deu um jantar aos seus amigos, pondo em tal occasião em evidencia uma opulencia só digna de um imperador romano.
Para proporcionar aos convidados uma nova diversão elle diz ao gigantesco escravo negro que lhe estáva ao lado: « Ha uma vendedora de flores cega que se chama Nydia que dança muito bem ao som da harpa eolica que ella mesmo toca..... Corres á taberna de Burbio a procural-a e conduze-a aqui..... ».
A taberna de Burbio... — É uma bodega escura e humida, ennegrecida pela fumaça das lampadas a oleo.
Os gladiadores, gente destinada ao maladouro para o publico recreio, alli commettiam os maiores excessos procurando esquecerem-se no vinho e no canto as poucas horas que, talvez, os separavam de morte atroz...
O dia inteiro, em vão, tinha procurado quem comprasse as grinaldas de rosas que ella entrançava com os seus dedinhos.

Nem um só vintem a desgraçada tinha podido ganhar!
É facil immaginar o que a pobresinha ia receber por isso.

— Talvez lá a minha escrava poderá ganhar alguma cousa, pensou o bruto... e intimou a Nydia de seguir com a harpa o negro que devia acompanhal-a a casa de Arbace.
O nome de Arbace era triste synonimo de vicio para as raparigas de Pompeia, e ella, cega, já se via no meio d՚aquella gente ebria, excitada no maximo grau, a commetter as maiores iniquidades.
Ella tentou resistir, mas, um ponta pé do homem ignobil fez-lhe lembrar que taes escrupulos, a elle pouco importavam.
Os presentimentos de Nydia não eram errados. Depois de ter dançado ella sentiu um braço que lhe apertava seu delicado corpo. O movimento impudico tinha sido feito por Arbace. A cega gritando evadiu-se d՚aquella casa onde só reinava a devassidão.
Burbio, porém, em casa de quem correndo ella voltou, achou estupido semelhante fuga e, sendo para o mesmo pouco pratico tal acto, sem misericordia começou a espancar a pobre cega...
O atheniense Glauco... — Glauco tinha passada a noite com outros rapazes, companheiros de pandega, na casa de Julia, uma bellissima e riquissima cortezã pompeiana.
Julia tinha grande sympathia pelo bello Glauco e n՚aquella noite ella quiz tel-o sempre ao seu lado....
O jovem grego, porém, não pensava na Julia. Na sua memoria vagava ainda a lembrança de um dia já passado e de uma flôr secca que elle guardava n՚um cofre como se fosse uma joia de grande valor.
Glauco e os amigos tinham sahido da casa de Julia e se dirigiam para o lado do mar, quando, passando diante da taberna de Burbio, ouviram os gritos da pobre cega...
— Aqui se bate uma mulher — exclamou Glauco — e, sem mais nem menos, seguindo o impulso da sua generosidade, entrou na taberna seguido pelos companheiros.
Elle propoz ao taberneiro de comprar-lhe a escrava. Burbio acceiton logo de boa vontade, considerando o offerecimento munifico que lhe fora feito.
A cega commoveu-se vivamente pelo acto generoso e pela voz harmoniosa do jovem atheniense! Uma sensação nova que ella nunca até então tinha provada, abalou n՚um momento as fioras da sua alma de sonhadora.....

Glauco levou a sua casa a moça e lhe disse: — « Estás aqui como em tua casa, fazes o que queres porque ninguem te desrespeitará..... » —
Aquellas palavras feriram o coração de Nydia... A coitadinha tinha pensado que o atheniense a tivesse comprada por se ter enamorado das suas graças delicadas !...
E, pelo contrario, agora elle lhe revelava claramente que o motivo de tal acto generoso não era amor, mas compaixão !.....
E Nydia chorou... Chorou como por um sonho dorado que se evaporasse.....
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