Ir para o conteúdo

Página:A Esperanca vol. 1 (1865).pdf/107

Wikisource, a biblioteca livre
A esperança
107

 
Estimulo

Gosto tanto de vêr uma mulher com a cabeça pendida sobre o seio, que lhe bebe o pranto amargurado d'uma saudade indelevel! Enquanto essas lagrimas cahem sobre a cabeça d'uma criança loura, a quem ella, no justo estremecer do coração, chama, com toda a meigura, seu filho!?

Mas muito mais me apraz vel-a ainda na mesma posição, isto é, com a cabeça reclinada, deixando cahir de cima da sua janella, languidamente e por descuido, a vista sobre o lago, ao mesmo tempo que levanta com a delicada ponta dos dedos, e lança para traz os cabellos soltos, que lhe anuveam a fronte, que pensa!

Não será por ventura a mulher, que pensa, a estatua da melancholia? Dae-lhe as vestes, fartas, alvacentas e diaphanas d'uma virgem grega, apontae-lhe as veredas ignoradas d'uma vetusta floresta, e direis depois, se ao vêl-a, pensativa, calcando com a vista e comos pés as folhas, que o inverno findo depositou no sólo, ora encostando-se pallida a um dos troncos mais agravados pelo tributo dos annos, ora divagando entre elles, apanhando de vez em quando os ramos, que descem ate lhe virem oscular a testa, se ella não é o archanjo da saudade, á espera d'uma mensagem do ceu!

E' esta força de sympathia por todas as mulheres, que se arremessam no vago das cogitações, que me leva para ti. Cuido-te pensadora, e não posso deixar de atirar-te aos pés um grão do meu tributo e sincero reconhecimento. Perdôa que um vate obscuro, quasi inteiramente ignorado, vá disturbar, por um pouco, das santas visualidades da poesia, quem se vê já involvida no transparente fumo d'uma auréolasinha de gloria.

Cuido-te pensadora — disse — e não me engano. Nunca te li na face o riso da melancholia, porque nunca te apertei a mão, que dedilha tão suaves accentos. Nunca vi correr teus dedos sobre as teclas do pianno, mas já vi os colloquios escriptos, resultantes do teu mudo fallar com a sombras do pensamento. Nunca me feriu o ouvidos a magia das tuas conversações com o vento sonóro da inspiração, e com a luz meiga das estrellas, mas já escutei d'aqui, de longe, os sons mellifluos da harpa maviosa e terna, que tu vibras.

E's scismadora, sim. Inda és mais... Traduzes em harmoniosas estrophes o resultado do teu maquinar ideal. E não desanimas, e não canças! Abençoada a mulher que é forte, no espirito, e na alma! Não descoroçoes d'ora ávante. Se fôres só, ainda que exposta ás ventanias da critica ruim e da maledicencia, que importa?.. na tua queda sómente poderá resvalar sobre ti a corôa da gloria.

Para a mulher é que foi destinada a poesia. Os antigos poetas tinha o seu Deus, mas cada um que desejasse exprimir os devaneios do pensamento ou do coração, havia de recorrer primeiro a alguma das nove irmãs. Parece impossivel até como o homem possa deixar-se escorregar no loireiral dos cysnes. Ambicioso, desregrado, inconstante, desejando misturar-se no fórum com o povo, ou subir junto aos degraus do throno para se aggregar aos validos, erguendo-se na tribuna, ou debruçando-se no pulpito, arvorando-se em legislador, ou oppondo-se ás leis que julga contrarias á sua conveniencia, devassando os mares, ou sugeitando os continentes, especulando com as operações commerciaes e com tudo, ou arando um palmo de terra, para grangear mais colheira, como pôde o homem, extenuado, com a fronte abatida, com a alma corrupta, encostar-se na lyra, senão para adormecer sobre ella, obedecendo ao pezo descommunal dos interesses materiaes, e mundanos, que todos elles o são?!

Com a mulher não acontece o mesmo. Já prendada pela natureza com dotes physicos superiores ao homem, quem poderá dizer que ella lhe é inferior nas faculdades intellectuaes. Quando