São provas do teu perjurio
O regato de crystal,
Que com suave murmurio,
Ia banhar o rosal;
Da selva o cantor alado,
Que entôou ao nosso lado
Uma endeixa festival;
A solitaria flôrinha
Que na campina brotou,
Que pouco a pouco definha
Logo que o dia expirou;
Os raios do sol ardente,
Cujo brilho no occidente
Bem depressa desmaiou.
Ai! n'esses dias, donzella,
Quantas venturas gosei!
Tua face meiga e bella
Quantas vezes osculei!
Quantas vezes fatigado,
No teu collo alvo e nevado
Minha fronte repousei.
N'esses tempos de delicias
Não sabia o que era a dôr;
Pois tu vinhas, com caricias,
Augmentar o meu amor.
Eu então, tomava a lyra,
E teus encantos, Elvira,
Me faziam trovador.
No meu dormir inquieto
Tua imagem sempre vi,
Mas em paga d'este affecto
Só despreso recebi...
Chegou, pois, a minha hora,
Porque já no mundo agora
Não posso viver sem ti.
Vou no calor da batalha
Minha morte procurar...
Entre as ballas e metralha
Vou fazer por te olvidar...
Ao menos vai algum dia
Sobre a minha campa fria
O teu pranto derramar.
Ante a cruz prostrada ó Deus,
Por aquelle venho orar
Que para longiquas terras
Partiu triste a suspirar:
Aqui na mansão dos mortos
Veio saudoso encontrar-me,
De minha mãe, junto á campa
Veio eterno amor jurar-me;
Triste adeus da despedida,
Mal pôde balbuciar!..
Partiu logo! e eil-o agora
N'alto mar a navegar!..
Mas ai! os ventos sibilam,
As vagas quebram-se iradas,
Os relampagos fuzilam
Entre nuvens carregadas!
O' que noute tenebrosa!
Abala-se a redondeza,
Tudo são ruinas, pranto,
Jaz n'um cháos a natureza!
Dá no mar ó Deus bonança,
Protege o triste amador,
Que volte à patria ditoso,
Sem que olvide o seu amor !...
Foi no céo ouvida a virgem,
Deus a tormenta findou
E um anjo d'azas brancas,
Logo na terra baixou:
Não temas, elle lhe disse,
De teu desposado a sorte;
Eu serei sempre seu guia,
Elle será teu consorte.