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Página:A Esperanca vol. 1 (1865).pdf/301

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A Esperança
301

 

São provas do teu perjurio
O regato de crystal,
Que com suave murmurio,
Ia banhar o rosal;
Da selva o cantor alado,
Que entôou ao nosso lado
Uma endeixa festival;

A solitaria flôrinha
Que na campina brotou,
Que pouco a pouco definha
Logo que o dia expirou;
Os raios do sol ardente,
Cujo brilho no occidente
Bem depressa desmaiou.

Ai! n'esses dias, donzella,
Quantas venturas gosei!
Tua face meiga e bella
Quantas vezes osculei!
Quantas vezes fatigado,
No teu collo alvo e nevado
Minha fronte repousei.

N'esses tempos de delicias
Não sabia o que era a dôr;
Pois tu vinhas, com caricias,
Augmentar o meu amor.
Eu então, tomava a lyra,
E teus encantos, Elvira,
Me faziam trovador.

No meu dormir inquieto
Tua imagem sempre vi,
Mas em paga d'este affecto
Só despreso recebi...
Chegou, pois, a minha hora,
Porque já no mundo agora
Não posso viver sem ti.

Vou no calor da batalha
Minha morte procurar...
Entre as ballas e metralha
Vou fazer por te olvidar...
Ao menos vai algum dia
Sobre a minha campa fria
O teu pranto derramar.

 
 
SUPPLICA D'UMA VIRGEM
 

 

Ante a cruz prostrada ó Deus,
Por aquelle venho orar
Que para longiquas terras
Partiu triste a suspirar:

Aqui na mansão dos mortos
Veio saudoso encontrar-me,
De minha mãe, junto á campa
Veio eterno amor jurar-me;

Triste adeus da despedida,
Mal pôde balbuciar!..
Partiu logo! e eil-o agora
N'alto mar a navegar!..

Mas ai! os ventos sibilam,
As vagas quebram-se iradas,
Os relampagos fuzilam
Entre nuvens carregadas!

O' que noute tenebrosa!
Abala-se a redondeza,
Tudo são ruinas, pranto,
Jaz n'um cháos a natureza!

Dá no mar ó Deus bonança,
Protege o triste amador,
Que volte à patria ditoso,
Sem que olvide o seu amor !...

Foi no céo ouvida a virgem,
Deus a tormenta findou
E um anjo d'azas brancas,
Logo na terra baixou:

Não temas, elle lhe disse,
De teu desposado a sorte;
Eu serei sempre seu guia,
Elle será teu consorte.