inspiração: encontrareis lá a mesma poesia; tendes só a vasal-a em novas formas, porque a essencia pôl-a Deus na natureza...
Quereis ser musicos? Ha lá conservatorios nas florestas,que vos servirão de escólas e avesinhas, que serão vossas mestras...
Desejais pintar? Em cada cantinho da aldea, por mais pequeno que seja, encontrareis uma paizagem ridente, explendida, sublime; o trabalho é só copiar, porque o modello está em frente a convidar-vos as almas...
Ide là; ide lá celebrar a communhão da poesia, porque a final, pintura e musica, tudo é poesia!...
Tanto se sente na morte,
Quanto na auzencia se sente !..
Se a morte é auzencia eterna,
A auzencia é morte aparente.
Julia Castilho.
Adeus dias que breves passasteis,
Semeados de paz e ventura,
E tão cheios de meiga ternura,
Que no ceu eu julgava viver!
As caricias do pai eu gosava,
Seu amôr minha dita fazia,
A tal ponto, que até me esquecia
A longa auzencia que eu tinha a soffrer!!
Mas em breve esse dia fatal,
Repassado de triste afflição,
Appareceu, e no meu coração
Da saudade os espinhos cravou!
E tão fundos que o sangue gôteja,
E em prantos de fél convertido,
Faz trocar o prazer em gemido;
A ventura em soffrer transmudece.
E depois esta ausencia tão longa,
N'um escuro sodario envolvida,
Martyriza, apoquenta-me a vida,
Faz os dias em seculos trocar?
E qual phantasma de dor me apparece
N'estas noites que lentas se arrastam,
E nos dias tão tristes que passa,
Sem que eu possa o meu pae abraçar.
Ha de o sôpro tão triste do outomno
Congelar-se nos montes d'alem;
Ha de vir o inverno tambem
Com seu septro de ferro assentar-se
Sobre as minas que o outomno deixou!
Ha de o vento bramir furioso;
Mas depois d'este tempo horroroso
Tornará a natura a animar-se.
Findará o outomno, o inverno,
Ha de a quadra florenta findar,
Sem que o peito me venha animar
Um afago de pai adorado!!
Trocar-se-hão os espinhos em flores,
Ha de tudo contente sorrir
Sem que eu possa no peito sentir
Meu soffrer n'um sorriso trocado!
Estes bosques d'onde ora prendem
Pobres folhas perdidas da côr,
Tornaram a ter vicio e verdor,
Sem que tu, ó meu pai extremoso,
Ó lar patrio de novo regresses!...
E eu hei de esta auzencia soffrer?
Ha de o pranto amargoso correr
Sem que chegue esse tempo ditoso?
Mas no fim de tão longo soffrer,
Refulgente reluz uma esperança;
Como surge tambem a herança
Após dias de horrenda procella...
Como as ondas espomosas se acalmam
Ó depois de fermento agitar,
Tal meu peito se deixa affagar
Pela esperança risonha e tão bella.
Ante a luz que essa esp'rança difunde,
Ante esse astro de amago condão
Inda ha pranto, martyrio, afflicção,
Inda ha lento viver d'amargura!...
Mas depois de passada essa nuvem
Ha de a esperança brilhante apparecer,