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Página:A Estação, Jornal Illustrado para a Familia (N18) 30-09-1883.pdf/11

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XII ANNO, N. 18
A ESTAÇÃO
30 DE SETEMBRO DE 1883
LITTERATURA


DUAS JUIZAS

Uma era a Devoção de Nossa Senhora das Dores, outra era a Devoção de Nossa Senhora da Conceição, duas irmandades de damas estabelecidas na mesma egreja. Qual egreja? Este é justamente o ponto falho do meu conto; não posso lembrar-me em qual das nossas egrejas era. Mas, pensando bem, que necessidade ha de saber-lhe o nome? Uma vez que eu diga os outros, e todas as circumstancias do acontecimento do caso, o resto pouco importa.

No altar da esquerda, á entrada, ficava a imagem. das Dores, e no da direita a da Conceição. Esta posição das duas imagens definia até certo ponto a das Devoções, que eram rivaes. Rivalidade nestaz obras de culto e religião não póde ou não deve dar de si se não maior zelo e esplendor. Era o que acontecia aqui. As duas Devoções brilhavam de anno para anno; o que era tanto mais admiravel quanto que o ardor fora quasi repentino e recente. Durante longos annos, as duas associações vegetaram na obscuridade; e, longe de serem contrarias, eram amigas, trocavam obsequios, emprestavam alfaias, as irmãs de uma iam, com as melhores toilettes, ás festas da outra.

Um dia, a Devoção das Dores elegeu para juiza uma senhora D. Mathilde, pessoa abastada, viuva e fresca, ao mesmo tempo que a da Conceição punha à sua frente a esposa do Commendador Nobrega, D. Romualda. O fim de ambos as Devoções era o mesmo: era dar mais alguma vida ao culto, desenvolvel-o, communicar-lhe certo esplendor que não tinha. Ambas as juizas eram pessoas para isso, mas não corresponderam ás esperanças. O que fizeram no seguinte anno foi pouco; e, ainda assim, nenhuma das Devoções pôde dispensar os obsequios da congenere. Emfim, Roma não se fez n'um dia, repetiram as devotas de ambas, e esperaram.

Na verdade, as duas juizas tinham distracções. n'outras partes; não podiam subitamente cortar por habitos antigos. Note-se que eram amigas, andavam muita vez juntas, encontravam-se em bailes, e theatros. Eram tambem bonitas e vistosas; circumstancia que não determinára a eleição, mas agradou ás eleitoras, tão certo é que a belleza não é só um ornato profano, e, posto que a religião exija principalmente a perfeição moral, os pintores não se esquecem de pôr o arrependimento de Magdalena dentro de bellas fórmas.

Vae se não quando, D. Mathilde, presidindo a uma sessão de mesa administrativa da Devoção das Dores, que era preciso cuidar seriamente de levantar a associação. Todas as companheiras foram do mesmo parecer, com grande contentamento, porque realmente não desejavam outra cousa. Eram pessoas religiosas; e, salvo a secretaria e a thesoureira, viviam na obscuridade e no silencio.

— As nossas festas, continuou D. Mathilde, tem sido muito descuidadas. Não vem quasi ninguem a ellas; e da gente que vem pouca é a de certa ordem. Vamos trabalhar. A deste anno deve ser esplendida. Hade pontificar Monsenhor Lopes; estive hontem com elle. A orchestra deve ser de primeira qualidade; podemos ter uma cantora italiana.

E foi por deante a juiza, dando os primeiros linea- mentos do programma. Em seguida, adoptaram certas resoluções: — alistar novas devotas, — e D. Mathilde indicava as suas amigas da alta sociedade, fazer entrar as annuidades atrazadas, comprar alfaias porque, ponderou a juiza, « não é bonito estarmos a viver de esmolas ».

Cousa interessante! Quinze dias depois, ou tres semanas, quando muito, a outra Devoção celebrava uma sessão da mesa administrativa em que D. Romualda exprimia eguaes sentimentos, propunha uma reforma analoga, espertava o espirito religioso das companheiras para o fim de celebrar uma festa digna dellas. D. Romualda tambem prometteu fazer entrar um certo numero de devotas abastadas e briosas.

Dito e feito. Nem uma nem outra das duas juizas deixou de cumprir o promettido. Era uma resurreição, uma vida nova; e justamente o facto da visinhança das duas Devoções serviu-lhes de estimulo. Ambas souberam dos planos, ambas tratavam de levar a cabo os seus com mais particular fulgor.

D. Mathilde, que a principio cuidava daquillo principalmente, dahi a pouco não pensava em mais nada. Não rompeu com outros habitos; mas não lhes deu mais do que se dá a um costume. O mesmo acontecia a D. Romualda. As duas associações estavam contentissimas, porque, em verdade, a maior parte das devotas não o eram só de nome. Uma dellas, pertencente á Devoção das Dores, que suppunha continuar a antiga troca de serviços, lembrou que se pedisse não sei o que á outra Devoção. D. Mathilde repelliu com desdem:

— Não; antes vendamos a ultima joia.

A devota não comprehendeu bem a resposta; era digna e spartana, mas pareceu-lhe que, em materia de religião, a confraternidade e a caridade eram as primeiras leis. Entretanto, achou bom que todas se obrigassem ao sacrificio, e não tornou ao assumpto. Ao mesmo tempo, dava-se na Devoção da Conceição analogo incidente. Dizendo uma das irmãs que D. Mathilde trabalhava muito, accudiu D. Romualda com o labio tremulo:

— Eu saberei trabalhar muito mais.

Era claro que a rivalidade e o despeito ardiam nellas. Por desgraça, tanto o dito de uma com o da outra correram mundo, e chegaram ao conhecimento de ambas; foi como lançar palha ao fogo. D. Romualda bradou em casa de uma amiga:

— Vender a ultima joia? Talvez ella já tenha as suas empenhadas!

E D. Mathilde:

— Creio, creio... Creio que trabalhe mais do que eu, mas hade ser de lingua.

PROSPERO.

(Continua.)