A festa das Dores foi realmente bonita; muita
gente, boa musica, excellente sermão. A egreja estava
ornada com um luxo desconhecido dos parochianos.
Alguns entendidos da materia calcularam
as despezas e subiram a um algarismo muito alto.
A impressão não se restringiu ao bairro, foi a
outros; os jornaes deram noticia minuciosa da festa
e o Apostolo trouxe o nome de D. Mathilde, dizendo
que a esta senhora era devido aquelle esplendor.
« Folgamos de ver, concluia aquelle orgão religioso,
folgamos de ver que uma senhora de tão superiores
qualidades emprega uma parte da sua actividade no
serviço da Virgem Santissima ». D. Mathilde mandou
transcrever a noticia nos outros jornaes.
Não é preciso dizer que D. Romualda não foi á festa das Dores; mas soube de tudo, porque uma das zeladoras foi espiar e contou-lhe o que houve. Ficou passada e jurou que havia de metter D. Mathilde n'um chinello. Quando, porém, leu nos jornaes a noticia transcripta do Apostolo, a irritação não teve mais limites. Não todos os nomes feios, mas aquelles que uma senhora educada pode dizer de outra, esse disse-os D. Romualda fallando da juiza das Dores — pretenciosa, velhusca, tola, intromettida, ridicula, namoradeira, e poucos mais. O marido procurava aquietal-a:
— Mas, Romualda, para que hade você irritar-se tanto assim?
— Quero irritar-me, bradava ella.
E batia o pé, amarrotava a folha que tinha na mão. Chegou ao extremo de dar ordem para não receber mais o Apostolo; mais a ideia de que podia merecer da folha alguma justiça, quando chegasse a festa da Conceição, fel-a retirar a ordem.
Dalli em diante, não se occupou de outra cousa, senão de preparar uma festa que vencesse a das Dores, uma festa unica, admiravel. Convocou as irmãs, e disse-lhes francamente que não poderia ficar abaixo da outra Devoção: era preciso vencel-a, não egualal-a; egualal-a era pouco.
E toca a trabalhar na collecta de donativos, na cobrança de annuidades. Nas ultimas semanas, o commendador Nobrega quasi não pôde occupar-se de outra cousa, senão de ajudar a mulher nos preparos da grande festa. A egreja foi armada com uma perfeição que excedia a da festa das Dores. D. Romualda, a secretaria, e duas zeladoras não saliam de lá; viam tudo, fallavam de tudo, corriam tudo. A orchestra foi a melhor da cidade. Estava de passagem um bispo da India; alcançaram delle que pontificasse. O sermão foi incumbido a un benedictino de fama. Durante a ultima semana trabalhou a imprensa, annunciando a grande festa.
D. Mathilde caiu em mandar para as folhas algumas mofinas anonymas, em que arguia a juiza da da Conceição de ser dada á charlatanice e á inveja. Respondeu D. Romualda, tambem anonymamente algumas cousas duras; a outra voltou á carga, e recebeu nova replica; e isto serviu ao esplendor da festividade. O effeito não podia ser maior; todas as folhas deram uma noticia, embora curta: o Apostolo trouxe um longo artigo, dizendo que a festa da Conceição fora das melhores que se tinham dado no Rio de Janeiro, desde muitos annos. Citou tambem o nome de D. Romualda como o de uma senhora distincta pelas qualidades de espirito como digna de apreço e louvor pelo selo e piedade. « Ao seu esforço, concluia a folha, devemos o prazer que tivemos no dia 8. Oxalá muitas outras patricias possam imital-a! »
Foi uma punhalada en D. Mathilde. Trocaram-se os papeis; ella agora é que deitava á outra os nomes mais crucis de um vocabulario elegante. E jurava que a Devoção das Dores não ficaria vencida. Imaginou então umas ladainhias aos sabbados e contractou uma missa especial aos Domingos, fazendo annunciar que era a missa aristocratica da parochia. D. Romualda respondeu com outra missa, e uma pratica, depois da missa; além disso, instituio um mez de Maria, e convidou a melhor gente.
Esta luta durou uns dous annos. No fim delles, D. Romualda, tendo dado á luz uma filha, morreo de parto, e a rival ficou só em campo, Vantagem do estimulo! Tão depressa morreo a juiza de Conceição, como a das Dores sentiu affrouxar o zelo, e já a primeira festa esteve muito aquem das anteriores. A segunda foi feita com outra juiza, porque D. Mathilde allegando cançaso, pediu dispensa do posto.
Um parochiano curioso tratou de indagar, se alem das causas de estimulo religioso, alguma outra houve; e veio a saber que as duas damas, amigas intimas, tinham tido uma pequena questão, por causa de um vestido. Não se sabe qual dellas ajustára primeiro um córte de vestido; sabe-se que o ajuste foi vago, tanto que o dono da loja imaginou ter as mãos livres para vendel-o a outra pessoa.
— A sua amiga, disse elle à outra, já aqui esteve e gostou muito delle.
— Sim?
— Muito. E quiz até leval-o.
— Pois é meu.
Quando a primeira mandou buscar o vestido, soube que a amiga o comprára. A culpa, se a havia, era do vendedor; mas o vestido era para um baile, e no corpo de outra fez maravillas; todos os jornaes o descreveram, todos louvaram o bom gosto de uma senhora distincta, etc. Dali um resentimento, algumas palavras, frieza, separação. O parochiano, que, além de boticario, era philosopho, tomou nota do caso para contal-o aos amigos. Outros dizem que era tudo mentira delle.
Prospero.