A HISTORIA DO FANTASMA INEXPERIENTE
— A coisa não vaе mal, — concedeu quando o outro terminou. — Você guardou ás mil maravilhas o segredo, mas falla um pormenorzinho.
— Já sei, — respondeu Clayton, — e creio que lhe poderei dizer qual.
— Então?
— Este, — replicou succintamente Clayton, retorcendo e avançando as mãos d՚um modo exquisito.
— Sim.
— Foi este que elle esqueceu, — explicou Clayton. Mas como é que você?...
— Nada comprehendo na quasi totalidade d՚esta historia, e especialmente pelo modo por que você a inventou, — declarou Sanderson, — mas essa série de gestos, eu a conheço. (Reflectiu um momento). E՚ uma série de gestos, — continuou, — que se ligam a um certo ramo da Maçonaria esoterica... Você, provavelmente, os... ou então... (Meditou novamente). Não acho que haja inconveniente em revelar-lhe o gesto exacto. Afinal de contas, se o conhece, muito bem, se não, tanto peior.
— Nada mais sei além do que o pobre diabo me permittiu obeservar n՚aquella noite, — assegurou Clayton.
— Vamos tentar, haja o que houver, opinou Sanderson, collocando o cachimbo na chaminé, com muito cuidado.
Depois, com rapidez, pôz-se a gesticular.
— D՚este geito, não é? — perguntou Clayton imitando-o.
— E՚ assim, effectivamente, — approvou Sanderson, agarrando o cachimbo.
— Ah! agora posso fazer toda a série, em ordem, — disse Clayton.
De pé, proximo ao fogo que morria, sorriu-nos a todos, mas eu pensei surprehender uma certa hesitação no seu sorriso.
— Se principio... — balbuciou.
— No seu logar, eu não principiaria, — interrompeu Wish.
— Bah! que perigo póde haver? — exclamou Evans. A materia é indestructivel. Com certeza não pensam que tolices d՚este genero vão levar Clayton para o mundo das sombras. Ensaie, Clayton! Por mim, não ponho objecção n՚isso; experimente até que os seus braços não aguentem mais.
— Não concordo de modo algum com essa opinião, disse logo Wish, levantando-se e pondo a mão no hombro de Clayton. Você obrigou-me a dar credito á metade d՚essa historia e não faço questão de vel-o executar essa arte.
— E՚ bôa! Vejam! Eis o credulo Wish desnorteando, — disse eu zombando.
— Sim, tenho medo! — respondeu Wish com uma seriedade real e muito bem representada. — Estou persuadido que, indo até o fim d՚essa mimica, desapparecerás.
— Ora! não desapparecerá mais do que eu ou você! — exclamei. — Não ha para os homens senão um unico modo de desapparecer do mundo, e antes d՚isso, Clayton ainda tem trinta annos de vida. Aliás... Que fantasma daria elle,! Acham que?... Interrompeu-me um brusco movimento de Wish. Pòz-se a caminhar entre as cadeiras, e logo, estacando de subito deante da mesa:
— Clayton, você é um imbecil!
Clayton com um ar divertido na physionomia, respondeu-lhe sorrindo:
— Wish tem razão, disse, — e vocês todos erram. Irei até o fim d՚estes passes, e quando o meu ultimo gesto cortar o ar... prompto! este tapete ficará deserto, toda a sala, aqui, representará o papel do mais perfeito assombro, e um senhor de noventa e cinco kilos, despeitavelmente vestido, irá cahir pesadamente no mundo das sombras.
Estou certo d՚isso, e vocês o estarão em breve. Recuso-me a discutir mais largamente. Que a experiencia se faça!
— Não! — gritou Wish, dando um passo para a frente.
Clayton levantou de novo os braços para repetir os passes do fantasma.
N՚este instante, como comprehendem, todos estavamos n՚uma grande tensão de espirito, um tanto perturbados com a attitude de Wish. Tinhamos os olhos fixados em Clayton, — eu, pelo menos, com uma especie de rigidez comprimida, como se da nuca á cintura, o meu corpo estivesse transformado n՚uma barra de aço. No entretanto, com uma gravidade imperturbavel e serena, Clayton abaixava-se, sacudia-se d՚um lado para outro, agitava as mãos e os braços na nossa frente. Quando se approximou do fim, os meus dentes entrechocaram-se. O ultimo gesto, — já o disse? — consistia em extender os braços completamente, atirando a cabeça para traz. Quando afinal chegou a este derradeiro gesto, não ousei nem mesmo respirar: apprehensão ridicula, com certeza, mas todos sabem a impressão que dão estas historias de apparições. Era depois do jantar, n՚uma casa velha, obscura e exquisita. Conseguiria, por acaso?...
Permaneceu assim, com os braços abertos, a cabeça cahida para traz, resoluto e sorridente na claridade da lampada suspensa, durante um instante prodigiosamente longo. Nós ficamos immoveis e presos durante este momento que nos pareceu um seculo. Depois, dos nossos peitos exhalou-se um ruido que era ao mesmo tempo um suspiro de allivio e um “não” tranquillisador, porque visivelmente elle não desapparecia. Tudo aquillo não eram senão tolices! Contára-nos uma historia extravagante, chegando quasi a convencer-nos, e era tudo.