Mas n՚este mesmo instante, a physionomia de Clayton transformou-se.
Mudou. Mudou como muda uma casa illuminada quando bruscamente, se apagam todas as suas luzes. Os olhos, de repente, tornaram-se-lhe fixos, o seu sorriso gelou-se nos labios, e elle permanecia de pé. Permanecia de pé, n՚um leve balanço.
Este momento pareceu-nos outro seculo. Depois, as cadeiras dansaram, alguns objectos cahiram ao chão, e nós todos demos um salto. Os seus joelhos dobraram-se, elle cahiu para a frente, e foi Evans que o sustentou nos braços.
Não podiamos acreditar no que viamos. Durante mais de um minuto, nenhum de nós pôde articular uma palavra sensata. Com toda a evidencia, era... e comtudo não ousavamos admittil-o. Sahi da minha estupefacção titubeante, para achar-me de joelhos junto d՚elle. O collete e a camisa lhe tinham sido arrancados, e Sanderson, com a mão, certificava-se se o coração ainda batia...
Este simples facto, imprevisto, arrebatador, monstruoso, podia perfeitamente esperar que nós ficassemos menos emocionados. Já não tratavamos de comprehender. Durante uma hora, alli deixámos o seu cadaver ao comprido, e, desde esse dia, elle ficou como uma sombra negra e assustadora, atravéz da minha memoria. Clayton passára realmente para esse mundo que está lão perto e tão longe do nosso, e para lá fóra pelo unico caminho que os mortaes podem seguir.
Saber, porém, se elle passou por meio das encantações do desgraçado fantasma, ou si foi subitamente fulminado por uma apoplexia no desenrolar d՚uma peça que nos pregasse — como o inquerito nos quiz fazer crer — eis uma questão sobre a qual eu não poderia manifestar-me, um d՚esses enigmas que ficarão impenetraveis emquanto não se tiver encontrado a solução final de todas as coisas.
O que sei d՚uma maneira absolutamente certa, é que no mesmo momento, no mesmo segundo em que terminava os seus passes, elle se transformou, vacillou-se se abateu — deante de nós — morto.