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DO INSTITUTO DO CEARÁ


A mulher deste, senhora respeitabilissima, adoéce gravemente de um parto arriscado.

O marido extremoso esgota rapidamente e debalde todos os recursos medicos, que então eram escassos.

Quasi diante de um cadaver, a gratidão e a caridade acordam no coração bemfazejo do ex-caixeiro da pharmacia franceza a tão piedosa quanto arrojada resolução de restituir a vida á quem quasi que já não a tinha mais.

E não é para admirar tanto a temeridade quanto a felicidade.

Com pasmo geral a illustre enferma restabelece-se, graças á feliz applicação dos remedios e aos inexcediveis cuidados do improvisado medico!

Por isso um dos maiores medicos da França disse n’um discurso publico que nas molestias ordinarias os enfermeiros sabiam tanto como os medicos, nas extraordinarias os medicos não sabiam mais do que os enfermeiros.[1]

Gouvêa então não só grato a tamanho serviço, como convencido de que seria um beneficio á humanidade aproveitar a aptidão medica do caixeiro, já seo amigo, com empenhos seos e do tenente-coronel Conrado, presidente da Commissão Militar, conseguio do Protomedicato do Recife licença para Ferreira abrir botica nesta capital, e á sua custa mandou vir d’aquella praça os medicamentos necessarios.

Ferreira abrio botica na mesma casa, em que veio a morrer;[2] e desde logo a fortuna começou de sorrir-lhe.

Era em modestas proporções a mesma versão de Desmares, que de simples ajudante do grande oculista Schiel attingio á celebridade depois da importantissima cura que opérou no conde de Syracusa, restituindo-lhe perfeita a vista compromettida.


  1. Conselheiro Bastos, “Medico do Deserto
  2. Casa terrea, de 3 portas, n. 24 da. actual Praça do Ferreira, antiga Municipal, outr’ora de Pedro II. Pertence hoje ao espolio do finado pharmaceutico capitão Pedro Nogueira Borges da Fonseca.