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A CABANA DO PAI THOME.
5

Os dois gentleman deram grandes gargalhadas.

— Agora, Henrique, mostrai-nos como o velho Robbins canta na igreja.

O menino fez uma cara estirada, e entoou um psalmo n'um tom fanhoso quo sustentou com um serio imperturbável.

— Bravo, bravíssimo! Que linda creança! exclamou rialoy : bade vir a sor alguma cousa, eu vol-o aílianço.

Depois batondo no b o rubro de Shelby accrescentou:

— Chegou-mo uma ideia. Dai-mo também este velhaqcote, o fica o nosso negocio concluído ; ontáo é quo se poderá dizer qao tudo se arranjon com equidade.

Neste momento abriu-se a porta mui do manso, o uma joven n estiça de vinto o cinco annos pouco mais ou menos entrou na casa de jantar.

Não era mister olhar muito para ella para conhecer que era a mãi de Ilonriquo : também linha olhos negros e guarnecidos de compridas pestanas, e anneis de cabellos prelos o assotinados. Suas faces trigueiras se coloriram com jeve vermelhidão, a qual augraentou quando percebeu que o desconhecido a contemplava com audaciosa e franca admiração : trajava um vestido que lho ficava muito hem ; os perfeitos contornos de suas formas, suas mãos delicadas, seus pás pequeninos não podiam escapar á attenção do negociante, costumado a appreciar á primoira vista as qualidades do um artigo feminino.

— Que quereis, Elisa? disso Shelby á mestiça, quo olhava (tara elle com hesitação.

— Procurava Henrique, senhor.

— O rapazinho correu para ella, e mostrou-lho apresa, quo guardára no regaço do seu vestido.

— Levai-o, respondeu Shelby.

Elisa retirou-se precipitadamento levando o filhinho nos braços.

— Por Jupiter! exclamou o traficante do escravos com enthusiasmo. E’ uma creatura magnifica 1 Quando quizerdes, farei a vossa fortuna com esta mulher na Nova-Orleans. Tenho visto dar milhares do dollars por mulheres quo não teom nem metado da sua formosura.

— Não tenho tenção do fazer a minha foi tuna Cornelia, disse Shelby sercamente: o, para fazer mudar do conversa, desrolhou nova garrafa e perguntou ao son cnmjm — nheiro quo tal achava o vinho.

— Delicioso ! disse o mercador d’escravos ; mas vamos ! quanto quoreis por aquella mulher?

— Aquella não se vendo, senhor Ilaloy ; minha mulhor não acederia por tanto ouro como do poso ella tem.

— Ah! as mulheres sempro assim faliam, porquo são estranhas a toda a espec o do cálculos. So lho mostrassem quantas joias, quantas plumas o relogios se podem comprar com o peso em ouro do uma escrava, bom depressa mudariam de parecer.

— Eu vo-lo repito, Haley, é escusado pensar em tal; disso que não, o acabou-se.

— N’esse caso, largae-mo o pequeno, disse o mercador de escravos.

— Que quereis fazer d’ello ?

— Tenho um amigo que gosta do comprar rapazinhos assim, a fim do os crear para osSmdor. São escravos de pura phantasia, que são procurados pelos ricos que dão por elles bom dinheiro. Estes rapazinhos convém para abrirem as portas, servirem á mesa, e para creados de taboa. São mui procurados, o este diabiuho quo canta e dansa havia do ter muita saida.

— Eu antes queria não o vender, disse o sr. Shelby com ar pensativo. O facto é quo sou um homem do bom coração o que me seria repugnante roubar um filho a sua mãi.

— Em verdade ! Oh ! intendo perfeitamente ; as mulheres fazem-nos passar muitas vezes bocados desagradavois pelas suas gritarias, lagrimas e lamentações ; mas, em gorai, cá me arranjo para as evitar. Bastava que mandásseis a mãi para o campo por alguns dias ; á sua volta estará tudo acabado. Vossa mulher lhe daria brincos cu um vestido novo, o que a consolaria íompletamcnle.

— Receio que assim não aconteça.

— Vereis, vereis ; estas crealuras não são como os brancos ; arranja-se-lhes a moral dirigindo-as bem. Dizem quo o commercio dos negros endurece o coração; eu cá nunca dei por isso ; mas ba gente que não sabe haver-se com similhanle trato. Tenho visto, para venderem uma «rança, arrancarem-na dos braços da mãi, que dá gritos, que se debate como louca. E’ um methodo detestável ; estraga a mercadoria, e ás vezes põe-na fóra do serviço. Na Nova Orleans vi eu uma rapariga verdadeiramento Sella estragada por causa disso. O comprador Dão tinha precisão do pequeno, a mulher apertava o filho contra o soio, resistia, soluçava ; tiraram-lb o, focharam-no, e ella enlouqueceu. Foi um prejuízo do mil dollars causado por falta de methodo : mais vale obrar sempro com humanidade ; acreditai a minha experiencia.

Depois o mercador d’escravos recostou-se na cadeira, o crusouos braços com ar de virtuosa resolução. Dir-se-biaque so julgava segundo Wilberforce.

A these que sustentava parecia interessai-o vivamente, porque, cm quanto o seu companheiro meditava doscaseando uma laranja, accrescentou novas considerações, como so fosse arrastrado pela força da verdade.

— Não deve haver louvor em liocca propria ; mas todo o mundo reconhece quo ninguém tem rebanhos de pretos mais bem arranjados, mais gordos, mais vigorosos, e o caso é que com isso tonho menos prejuízo que os meus collegas. Isto é cá o meu systoraa, cuja baso ó a humanidade.

Shelby não sabia o que havia de responder, por isso disse:

— Deveras !

— Teem escarnecido das minhas ideias ; não são goralme.nte approvadas; porém eu conservo-me fiel a essas idoias, e graças lhos sejam dadas, tiro bom lucro : pódo-so dizer que sou recompensado pelas ter.

A maneira como o negociante d’escravos comprehendia a humanidade tinha alguma coisa de tão original quo Sholby não pôde'deixar de rir. Este pequeno movimento do hilaridade animou o orador.

— E’ cousa singular, tornou elle, que não tenha podido fazer ouvir a razão a muita gente: o meu antigo socio, Thomó Loker, era um homom capaz, é verdade, mas era o diabo para os negros I linha muito bom coração, edava-lhes pancadas : era o seu systema. Eu dizia-lhe muitas vezes: Meu querido ’lhoiné, quando as vossas raparigas estão tristes, ou se poem a chorar, para que serve bater-lhes? ó ridiculo. Não fazem «kALaa}jdlorar ; a natureza o quer, e é mister ceder-lhe de uma nianêrrarrarTle-ouira. E depois com isso daes cabo das negras ; ellas affligem-stTTTtm.1 m■ ->o foias, ,.q ó o diabo para as restabelecer. Procurai ao contrario fazer-lhes a bocca doce, e loval-as por bons modos. Aqui está o que lhe eu dizia, porém ello não mo deu ouvidos, o deteriorou-me tanto as mulheres que, bem que fosse um excellente homem e um bom vendedor, vi-me obrigado a deixai-o.

— E julgaos que o vosso sysloma ó proforivol ao de Thomé ? perguntou Shelby.

— Eu vo-lo certifico. Todas as vezes que mo é possível, uvito os desgostos. Se quero vender um filho, affasto a mãi ;, longo da vista, longo do coração ; e quando o mal não tem romedio, que lhe ha de ella lazer senão acceital-o. Não ó como se se tractasse do brancos, que são creados com a idoia de conservar os seus filhos e as suas mulheres : os negros não podem contar com isto, quando são bem ensinados.

— Receio que osmeusnão estejam bem ensinados, disse Shelby.

— Seria possivel ; vós outros habitantes de Kentucky, estragacs os negros. Tendes boas intenções a seu respeito, mos « vossa benevolenciaó-lhes funesta. Os pretos foram feitos para passarem de mão em mão, para serem vendidos a Thomaz, a Ricardo, seja a quem fôr ; não é caridoso inspirar-lhes desejos quo não podem satisfazer, e que os dosviam da sua vocação. Quanto a mim, julgo que os tracto como os devo tractar.

— E’ bom estar contente de si, disse Shelby encolhondo lovemenlo os hombros.

— Então ! tornou Haley depois de um momento do silencio, que decidis ?

— Pensarei no caso, e consultarei minha mulher ; mas se quereis conduzir os vossos negocios com tranquillidade, como desejaes, não os divulgueis, senão, todos os meus rapazes ficariam em dosassocego, e havia do nos custar a aealmal-os.

— Pasta, motus! disse Haley pondo o seu albernoz ;