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a campanha de canudos
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Deus, que nos dotou com uma alma perfeitamente livre, en­cerrou-a comtudo num corpo, que obedece a leis physiologicas invariáveis, comquanto harmônicas. Assim, em toda a natureza creada.

Ha liberdade para as aves, que gorgeiam simplesmente por inspiração de sua própria vontade ; como ha tambem para o homem, que pensa e se locomove a seu mero arbitrio. A ordem, porém, rege e domina o concerto melodioso das espheras, a trajectoria immutavel dos astros, o plano divinamente esthetico do universo.

E a sociedade nem um só dia teria subsistido, si a liberdade fosse por acaso a unica força a impellil-a ; porque, si a liberdade gera, a ordem no entanto ó que cria ; si a liberdade produz, ó a ordem todavia que conserva; si a liberdade tem as fulgurações do relampago que offusca num momento, a ordem diffunde a luz de um lampadario, branda mas perenne, como a que jorra do fóco deslumbrante do sol.

O que se estava passando no sertão da Bahia reclamava a maior solicitude. Havia ali um phenomeno a estudar e um pro­blema a resolver. Até a lenda ia empolgando já o caso para confundil-o e difficultal-o.

Não convinha, pois, perder um momento que fosse, encarada a questão por qualquer de suas faces e sob todos os seus aspectos.

Assim, o Governo da União, tendo recebido as communicações officiaes, àcerca das occurrencias dadas com a segunda expedição mandada a Canudos, cuidou sem demora de provi­denciar no sentido de restabelecer o império da lei, que ali fòra postergada, e de apagar a impressão lancinante produzida pelo desastre de janeiro, em todos os ângulos deste vasto paiz.

O Poder executivo da republica, muito sensatamente, en­ tendeu — que a honra da patria e o futuro das instituições cor­riam o risco de ser sacrificados nessa emergencia que, por sua gravidade, tanto a uma como a outro poderia ser fatal.

Era provável, sinão certo, que os adversários da situação política dominante viessem a lucrar com qualquer desastre, que