Página:A escravidão dos negros.pdf/105

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
CONDORCET
101


Porém, é preciso nótar que, n'esse calculo consideram-se todos os negros mortos substituidos por outros comprados, e que parece provado pela expericncia que uma fazenda, que para sustentar-se não pódesse deixar de recorrer a este meio, seria muito pouco productiva. Portanto, esse calculo demonstraria antes a inutilidade do trafico de africanos do que a da escravidão.

Finalmente, observaremos que, comparando-se a cultura por meio de escravos com a realisada por brancos livres, reconhece-se: 1.° que os adiantamentos em machinas, construcções, animaes, utensilios, etc., são os mesmos para ambos os systemas de cultura; 2.° que o preço do salario imposto pela concurrencia para os trabalbadores livres é necessariamente egual, no minimo, ao custo de conservação do trabalhador, augmentado do necessario para sustentar mais ou menos uma familia, pois é com esse excesso médio dos salarios que são educadas as crianças que terão mais tarde de substituir os actuaes trabalhadores; 3.° o proprietario de escravos é obrigado egualmente a conserval-os e provêr á successiva substituição d'elles, já comprando novos, jà educando os nascidos na fazenda, o que aliás parece mais economico. Toda a questão se reduz, pois, a saber si o trabalho de um homem livre é tão superior ao de um escravo que compense pelo menos a differença entre o preço fixado pela concurrencia e o que a economia do senhor estabelece reduzindo seus escravos ao estrictamente indispensavel; ou, em outros termos, si um trabalhador livre, a quem se pagasse apenas o que custa ao senhor de escravos cada um d'estes, faria maior ou menor tarefa. Ora, é bastante verosimil que, n'essas condicções o trabalhador livre faria menor tarefa que o escravo. Esta vantagem, porém, da cultura por escravos suppõe que estes sejam tratados de modo a prevenir as mortalidades, os accidentes de quaesquer especies, as perdas de tempo, etc., que devem resultar do rigor e injustiça dos senhores; demais não se póde estabelecer a comparação d'esta cultura senão com a de um proprietario que cultiva as suas terras por conta propria, e é evidente que, para a maioria dos colonos, haveria muito maior vantagem em poder arrendar suas terras de cultivo e mesmo as machinas e construcções respectivas.

Devemos, portanto concluir que, sem decidir em absoluto qual dos dous systemas de cultura é mais vantajoso para os preprietarios, nos parece que a diffrerença à favor da cultura escrava é muito pequena para poder contrabalançar as vantagens, mesmo pecuniarias, que resultariam da liberdade.