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ATLANTIDA

meiros cómicos para cear no Imperial uns pratos copiosos, regados a vinhos espêssos. Estávamos em meio da ceia, quando vieram chamar-me. Fora, numa tipóia, esperava por mim, uma senhora. Corri. Era Etelvina. Tinha os olhos vermelhos de chorar. — «Que é isso?» — «Entra!» — «Alguma desgraça. Viram-te?» O meu ódio desaparecia diante daquela dôr. — «Entra!» — «Mas que há?» — «Não posso falar aqui.» — «Para onde queres ir?» — «Para tua casa!» — «Não tenho casa.» — «Para o teu quarto, então.» — «Seja!» Dei a direcção. A tipóia rodou. Ela rompeu em chôro. — «Mas conta, rapariga. Se ninguêm morreu ainda, não há nada perdido. Que há?» Ela olhou-me: — «Gastão, deixei o Eusébio para sempre! Eu não sou mulher que engane o homem com quem está. Eusébio ama-me. Eu já não o amo. Seria entretanto indigna se o enganasse. Depois do seu beijo, ao voltar à casa, não tive mais coragem de o encarar.» — «Mas recusaste o beijo...» — «Sim. É porém superior às minhas fôrças. Não o posso ver. Lutei todo êste tempo em vão. Acabei por escrever-lhe uma carta, contando-lhe tudo! — «Tu fizeste isso?» —«Fiz, fui franca, disse-lhe que vinha para a tua companhia... Amanhã mandarei buscar as malas. Pronto! Esqueçamos ...»

Passou o lenço nos olhos, alisou os cabelos, como quem volta de uma dôr tremenda. — «E tua filha», indaguei atónito. — «Fica com o Eusébio. Se não a quiser, mando-a a viver com a mãe na minha casa do Lumiar, onde estão os outros». — «E o Eusébio?» [ — «]Acabou!...» Encolhido no fundo da tipóia eu não pensava, sentia apenas um Vago horror, uma incompreensão dolorosa. Ela continuou: — «A não ser que a tua simpatia fôsse brincadeira e que receies alguma coisa... — «Eu não receio nada!» — «Nêsse caso, tratarei só da minha vida...»

Senti que qualquer palavra seria inútil. O melhor era crer na fatalidade. Procurei-lhe a cinta. As minhas mãos trémulas tatearam o seu corpo. Ela caíu-me sôbre o peito, com a bôca na minha bôca, de tal modo que quando chegámos à casa onde eu tinha um quarto, os nossos desejos ardiam. Foi ela quem falou, com voz macia e íntima: — «Chegámos. Salta...» Saltei, e ia dar-lhe a mão, quando vi erguer-se da porta um vulto. Pus a mão no revólver. O vulto era Eusébio com uma criança nos braços...

— Puro melodrama, caro Gastão!

— E tão verdade como estas senhoras que entram para o teatro!