Sousa Viterbo sobre A Livraria Real, especialmente no reinado de D. Manuel (p. 37), que acaba de sahir dos prelos da Academia (Lisboa, 1901).
150 Para fallar de Joanna Vaz explorei todas as fontes indicadas por Barbosa Machado, menos duas que não pude compulsar, e são: Frei Luis de S. Francisco, Prologo ás Linguas Sanctas e C. J. Imbonati, Bibliotheca Latino-Hebraica. Acho pouco provavel que estes auctores soubessem da illustre portuguesa mais do que os conterraneos e coevos. Ainda assim deixo em aberto, se por acaso apurariam noticias que desconheço sobre os seus estudos hebraicos. A este respeito lembrarei que Frei Fortunato de S. Boaventura, não satisfeito de repetir as informações de Barbosa Machado, avança no caminho das affirmações não provadas, dando por mestre a Joanna Vaz o pae da Sigea. Como Diogo Sigeo sabia e ensinava o hebraico (em Toledo pertencera ao circulo dos que trabalharam na Biblia Polyglotta de Cisneros) não é impossivel que o ensinasse a Joanna e Luisa, juntas. Tambem póde ser que de mestre figurasse Frei Francisco Foreiro, o qual, sendo conhecedor eminente das linguas semiticas, era muito do agrado dos Reis e da Infanta.
151 Escrito em tempo de D. João V (Pro epistola nuncupatoria) o Enthusiasmus foi publicado no tomo I do Corpus Illustrium Poetarum Lusitanorum. Alli diz:
Vasia prima sedet Lysix clarissimus Aulæ
Splendor, operta comas lauri viridante corona,
Plectra canora manu feriens sic dulciter, immo.
Posset ut e pelago melius Delphinas in auras
Vellere quam vulsit quondam Citharaedus Arion
In sua damna fera cum vidit surgere nautas.
João de Sousa Caría, ao verter em 1731 para português as exagerações encomiasticas do Padre Antonio dos Reis, foi muito mais além na demasia dos louvores, traduzindo p. ex. splendor pela palavra portento, conforme já foi indicado por Silvestre Ribeiro na biographia da Sigea, que mais abaixo terei de citar.
152 No Poema de Resende vemos applicado a Joanna Vaz a expressão carminibus tibi nota suis isto é, «conhecida a ti, Resende, pelos seus canticos». Infelizmente, nas Obras do Eborense (1551 e 1600) lê-se: tuis. A meu vêr é erro, que os posteros emendaram com toda a razão.
153 Primeiramente aqui não significa «antes de ninguem». Não foi Nicot quem lhe conferiu o nome romantico de Aloysia. Nem tão pouco João Vaseu, que o usou no seu Chronicon (Hispania Illustrata, I, 593). Inventor do termo foi o papa Paulo III em 1556, ou antes um dos seus secretarios. Bembo? ou Sadoleto? — Ainda assim, os latinistas peninsulares, não podendo ter conhecimento do Breve do pontifice, utilizaram até 1566 as formas Loysa, Luisia e Ludovica.
154 O poema Sintra foi impresso em 1546 (?) 1566, 1781, 1862 e 1880. O titulo completo vae na Nota 181.°
155 Modernamente um erudito musicographo castelhano, F. Asenjo Barbieri, tentou impugnar a origem francesa dos Sigeos, por causa do apellido Toletenus que viu apposto ao nome Diogo Sigeo num rarissimo opusculo sobre acentos musicaes, impresso em Lisboa (1560) e dedicado ao Cardeal-Infante D. Henrique. Satisfeitissimo por assim restituir á Hespanha um varão illustre, esqueceu chamar á auctoria os contemporaneos de Diogo e a propria Luisa. Aliás, teria encontrado entre os primeiros um conhecido que em vida do pae o chamou francês de nação. Fallo do celebre erasmista palentino, o Arcediago de Alcor, Alonso Fernandez de Madrid que se occupou da gentil Luisa, o «monstruo da natureza», na sua Historia de Palencia. Quanto a essa, ha em uma das cartas d'ella uma passagem em que se caracteriza a si propria de «toledana de nação, portuguêsa pela criação, e oriunda de França» (quum patria essem Toletana, nutrita tamen apud Lusitanos, ac e Gallis oriunda). A essa carta, dirigida a Felipe II, ninguem poderá negar valor documental. — Conhecendo estes pormenores é facil avaliar com quanto direito uns dão a Luisa o titulo de toledana, emquanto que outros, sabendo unicamente dos louros que colheu em Portugal, a tratam de foemina lusitana. — Mais estranhavel do que a precipitação de Barbieri (Boletin Historico, 1, 53) é a de Silvestre Ribeiro, que propagou a novidade na Revolução de Setembro (N. 11:234), sem recordar-se dos trechos que acabo de explicar e fazem parte da extensa monographia, por elle proprio dedicada á gentil Aloysia Toletana. Vide Nota 185.
156 A mãe chamava-se D. Francisca de Velasco, segundo informação de Carvalho, na Corografia Portuguesa III 284. E' pois com justo motivo que muitos auctores lhe dão o nome Luisa Sigea Velasco. Parece mesmo que ella assignava assim em cartas intimas. Cf. Nota 158. Ignoro se a mãe estava viva em 1543 e acompanhou as filhas. Segundo Carvalho (III 284), tem jazigo commum com o marido, no Carmo de Torres Novas, circumstancia que, a ser veridica, fallaria a favor da hypothese.
157 Graças a apontamentos seus e alheios, sabe-se ao certo que, nascida em 1530, veio a Portugal na idade e no anno que indiquei. Bastará lembrar mais uma vez o que em 1551 Resende88