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Página:A infanta D. Maria de Portugal e suas damas.djvu/101

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dizia d'ella Contando apenas tres vezes sete annos, compulsa indefessa, de dia e de noite, codices latinos, gregos, hebraicos e arabes:

Nam quum septenæ vix dum trieterides annos
Computet, indefessa, dies noctesque, Latinas
Voluere non cessat chartas, non cessat Achæas,
Moseaque & Solymos rimatur sedula vates.

Muitos auctores portugueses trocaram os papeis, caracterizando Joanna Vaz como menina-prodigio e Luisa Sigea como matrona, e professora d'aquella! Outro erro é o de representarem ambas como alumnas da Infanta. Trabalhando no seu paço, consultando a sua bibliotheca, lendo com ella escritos de poetas e historiadores, ambas fariam progressos notaveis. Tambem é possivel que assistissem ás prelecções, dadas à Infanta por summidades scientificas. Mas de lá a tratá-las de discipulas da propria Infanta ― ainda ha distancia!

158 (P. 39 l. 14, e não 16). O pae fóra principal preceptor d'ella, segundo declaração da propria Luisa (patre quo in plurimis usa sum praeceptore), fazendo-a tomar parte nas lições de um irmão mais velho, do qual diz: paribus mecum auspiciis in linguarum varietate est institutus. Mas outros mestres o haviam secundado (et latina lingua, graeca, hebrea, chaldea, nec non arabica mediocriter a patre meo caeterisque praeceptoribus erudita). Entre elles tem o primeiro logar o castelhano Alvaro Gonaez de Castro, elegantissimo humanista toledano, e o melhor biographo do Cardeal Cisneros. Outro conhecido seu que talvez ajudou a instrui-la era Alonso Garcia Matamoros. Ignoro quem se interessou em Portugal pelos seus progressos. André de Resende? Frei Francisco Foreiro?

159 Numa carta infantil que deve ser das primeiras que escreveu, ainda em Toledo, a pequena epistolographa agradece um ramo de violetas e herva cidreira que o mestre e amigo paternal havia colhido para ella no seu jardim. Muito lhe agradara o aroma. Mais suaves lhe foram todavia as flores do ingenho de Alvaro Gomez que acompanhavam o ramalhete.

160 Tambem neste caso é ella quem assevera haver-se occupado de tantas linguas, já antes de ter sido chamada a Portugal (quum tot linguarum atque aliarum artium studiis a teneris annis desudarin ac deinde in regum avla adscita fuerim). Sem isso, quem nos prestaria fé? — O chaldaïco é evidentemente a lingua semitica fallada na Syria, e não o idioma turaniano, cujos caracteres cuneiformes ainda não eram no seculo XVI objecto de estudo. Erroneamente alguns biographos da Sigea fallam do syriaco e chaldaico como se se tratasse de dois idiomas diversos!

160b (P. 59 l. 26). D'esta primeira carta ao Pontifice, ainda não procurada nos Archivos do Vaticano, sabemos pela 2.a. Não verifiquei quem é o egregio poeta-philosopho Britonius ahi nomeado, que fora em 1540 portador ou expedidor da primeira carta e persuadiu a Sigea a dirigir a segunda a Paulo III. Seria um hespanhol chamado Breton? um francês Lebreton? Ou por ventura o Eusebio, residente em Coimbra, ao qual Nicolas Antonio se refere?

161 Diogo Sigeo assignava de Toledo em vernaculo; Toletanus em obras latinas, até morrer, em 1562, ou pouco depois. Nesse anno dirigia uma carta latina a Miguel Cabedo, que o curioso encontra nas Antiguidades Lusitanicas (Ed. Roma de 1597, p. 514). A epigraphe diz: D. Sigeus Toletanus Michaeli Cabedio Regio Senatori Salutem. — E' datada de Lisboa: 4 Id. Febr. ann. salut. 1562. Desconheço ulteriores sinaes de vida.

162 Entre os seus discipulos, os mais notorios são o Principe real, D. Theodosio de Bragança e os irmãos d'est'ultimo. — Da sua actividade como mestre dos moços-fidalgos existem provas abundantes. Vejam p. ex. a Hist. Gen., Provas II 381, 382, 67; v 384, VI 620 (O Doutor Mestre Diogo).

163 A principibus rogato ac potius coarcto patre. Estou persuadida, repito-o, que foi D. Leonor quem instigou Carlos V a recommendar as pequenas latinas e o pae, aos monarcas portuguêses, sempre com o intuito de beneficiar a Infanta, sua filha.

164 Creio que admittida no paço, permaneceu entre as meninas até 1546, embora logo vencesse ordenado de dama. A pouca idade excluia a possibilidade de immediatamente lhe darem honras de mestra. E' assim que deveremos entender as palavras do flamengo Vaseu, amigo de Clenardo e relacionado com Sigeu, que «Luisa foi educada no paço regio durante muitos annos.» (Vid. Schott, Hispania Illustrata I, 593). Quanto à erudição, embora nenhuma no paço podesse concorrer com ella quanto à vastidão do saber linguistico, é quasi certo que em latinidades, incluindo composições epistolares, a Infanta e Joanna Vaz não lhe ficavam atras, e por muito que soubesse, muito mais lhe restava aprender!

P. S. — Nos livros de Moradia, Luisa figura desde 1543. E' quanto o Snr. General Brito Rebello apurou até hoje.

165 O francês e o castelhano deviam ser-lhe familiares desde a meninice. Igualmente o português, ao cabo de curto prazo. Quanto ao italiano, temos o testemunho de Resende que affirma no Epicedio, em que chorou a sua morte, ter ella fallado com grande pureza a lingua de Dante (o tusco ou etrusco), e a francesa com tal naturalidade que todos a tomavam por francesa. Os que a chama-

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