A physiognomia que a gravura apresenta, é realmente sympathica, muito embora nada ahi lembre a inspiração de quem, fallando, commove e enthusiasma as massas, nem dos arrobos extaticos de uma noiva do Senhor. Muito pelo contrario, o olhar é um tanto absorto, calmo, e, para assim dizer, «virado para dentro», como de quem, reflectindo, palpita attento, á espera das palavras em que o cerebello, depois de lenta elaboração inconsciente, irá condensando as sensações que recebeu. Póde ser que me engane, mas affigura-se-me que, abrindo ella a bocca e fallando em prosa portuguesa, as palavras proferidas não sahiriam faceis, em rapidas catadupas de elegantes phrases feitas, mas antes vagarosas e graves, tendo um cunho individual, isto é, reproduzindo com sinceridade e singeleza o que a propria mente lhe iria dictando.
E aquella mão que segura o calamo, bem talhada, como em geral a mão portuguesa, escreveria pausadamente, em caracteres fortes, distinctos apenas pela sobria clareza dos traços, muito parecidos aos que se distinguem na carta da Infanta D. Maria, apophtegmas moraes ou trovas muito sentenciosas, no gosto e estylo pesado dos Dictos da Freira que devemos a D. Joanna da Gama, outra contemporanea e irmã em Minerva de Hortensia, que viveu e morreu no mesmo ambiente.[1]
Faltam-nos, infelizmente, os meios de averiguarmos se esta diagnose — pensierosa — é veridica, ou se por ventura, nos opusculos que escreveu em romance vulgar poderia descobrir-se, contra a minha espectativa, aquella arte de argumentar e a allocução correcta, pela qual a Hortensia romana ganhou a causa que defendia [2], orando em presença dos triumviros, e foi acclamada, não unicamente em honra e homenagem ao seu sexo (non tantum in sexus honorem)[3].
Nada resta das obras da Hortensia lusitana. O douto abbade de Sever recolheu titulos vagos, de qualquer indiculo manuscripto. As Cartas varias e as Varias poesias (em latim e português), que o irmão da fallecida possuia em 1613, assim como os dialogos sobre assumptos de religião e philosophia, intitulados Flosculus theologicalis, a que já alludi, e uns oito psalmos, nacionalizados a pedido da Infanta D. Isabel de Bragança, que em 1640 entraram na livraria regia, tudo desappareceu — consequencia fatal do proverbial desleixo d'esta nação fidalga, que considera como indigna mesquinhez arrecadar e contar valores tão miudos.
Existe apenas uma carta-prologo, de poucas linhas e diminuto alcance, dirigida à sua protectora. E' preciso confessar que não prima pela fórma [4]
Concluiremos que a gloriosa antonomasia, não devendo ser en-110
- ↑ 10 Joanna da Gama, freira em Evora depois de ter enviuvado, morreu em 1586. Os seus pensamentos e versos foram impressos ahi mesmo (1555) e no Porto (1872) em nova edição.
- ↑ 11 Isenção das ricas optimates de certos impostos que os questores lhes queriam lançar.
- ↑ 12 Quintiliano, 1. 1. 6. ― Valerio Maximo, VIII, 3.3.
- ↑ 13 «Vossa Alteza me ha mandado tirar os versos do Psalterio com que se pudessem pedir a Deus quatro cousas: vida e victoria para o Principe D. Duarte, seu carissimo filho e principe nosso; item que Deus o livrasse dos perigos da terra, do mar e dos inimigos. E V. A., como mais conversa com os ceos que com nós outros, me deu a ordem como compuzesse o psalmo, em o qual havia de pedir estas quatro cousas que me manda; scilicet que o Psalmo comece em louvores de Deus, o qual eu observei; porque no principio ponho um ou dois versos invitatorios ou que nos convidam a louvar a Deus, e logo um verso com que V. A. louva a Deus», etc. etc. ― Barb. Mach., 11, 629b.