teve, como tantos outros, finura bastante para emmudecer gelada deante do magestatico sosiego do impassivel monarca; ou se este, desejoso de comprar corações, nem mesmo a avistou, contentando-se com as informações e recommendações dos influentes que a metteram na lista dos que mereciam uma tençasinha. O certo é que no dia da partida de Elvas, depois da visita á casa de D. Catharina de Bragança, Felipe II doou a Hortensia uma pensão annual de 15$000 reis, «havendo respeito ás suas letras e sufficiencia», «pera se melhor poder sustentar e recolher — mercê da qual se passou alvará, com força retroactiva, oito meses mais tarde, a pedido do principe-cardeal, Alberto d'Austria, o vice-rei. Quinze mil reis, exactamente a tença de Camões!
Publico o alvará de Felipe II, que o sr. D. José Pessanha obsequiosamente procurou para mim na Torre do Tombo. Acha-se ahi no livro 45.o, entre os conhecidos pela designação D. Sebastião e D. Henrique (a fl. 217, v.). E diz:
«D. Felippe, etc. Faço saber aos que esta carta virem, que, havendo respeito ás lettras e sufficiencia de Publia Hortensia de Crasto e a m'o pedir o Principe-Cardeal, hei por bem de lhe fazer mercê que ella haja e tenha de minha fazenda, em cada um anno, quinze mil réis de tença, pera se melhor poder sustentar e recolher; os quaes começará a vencer de 28 dias do mez de fevereiro d'este anno pre sente de 581 em deante. Pelo que mando aos vèdores de minha fazenda que lhe façam assentar os ditos quinze mil réis de tença no livro d'ellas e despachar dos ditos 28 de fevereiro em cada um anno a parte onde d'elles haja bom pagamento. E por firmeza do que dito é, lhe mandei passar esta carta de padrão, por mim assignada e sellada com o meu sello pendente.
«Baptista de Guerra a fez. ― Elvas, a dois de novembro, anno de 1581. — Eu, Manoel Pessoa, a fiz escrever.»
Para onde iria? E' provavel que «se recolhesse», sem proferir votos monasticos, visto que ninguem falla de Soror Hortensia, ou lhe conhece o novo nome religioso. Barbosa Machado diz que teve sepultura no claustro dos Agostinhos d'Evora (vulgo da Graça). E' provavel que nesse mosteiro passasse o resto dos seus dias — discursando, escrevendo e entoando no officio divino o canto-chão, sem corromper nem mudar um ponto do antigo, «attenta, mesurada, devota e grave», como exigia o severo Azpilcueta Navarro ― até adormecer, em 1595, na paz do Senhor, tendo, portanto, como a Infanta D. Maria, Joanna Vaz e Luisa Sigea um santo e bom fim, apesar dos maus prognosticos com que o povo ameaça, zombando, ou com seria malquerença, a mulher que sabe latim [1].»
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- ↑ 21 Ainda ha pouco, F. A. Coelho, que tambem se referiu a Hortensia nos seus interessantes estudos sobre a Historia da instrucção popular (Revista do ensino, X, p. 64), citou o proloquio popular, e mais alguns dictados sobre o mesmo assumpto.