e conhecimento de todos os assumptos, prudentia et omnium rerum cognitione tamquam phenix unica. Sabedora de tudo!... Mas com este dicto, lá estamos novamente no campo das hyperboles, que tento evitar.
Fundando-me em taes e em outros elogios singelos e sinceros de varões e damas que a conheceram de perto, nas obras notaveis, scientificas e amenas, que lhe offereceram, e nas poucas amostras do seu estylo cuidado que perduram, julgo que pela leitura reiterada de trechos escolhidos de litteratura sacra e profana, antiga e moderna, em linguas mortas e vivas, adquiriu uma fina percepção da arte: respeito pelas letras; noções muito variadas; um peculio basto de historietas e dictos classicos; plena comprehensão da lingua latina a ponto de entender tanto os discursos recitados por oradores como as eglogas, comedias e tragedias, representadas nos collegios de Coimbra e Evora; facilidade sufficiente para responder de improviso a embaixadores ou legados, e para redigir cartas de agradecimento e congratulações a soberanos estrangeiros. Do grego, os rudimentos, afim de perceber a terminologia scientifica e a decifrar e verificar citações no Novo Testamento, ou allusões como as de Hollanda, na Iliada e Odysseia. [1]
E francamente, não é pouco. Merecia applausos. Constituia caso inteiramente novo entre princesas nascidas em Portugal.
Ainda assim, a interpretação de João de Barros comprehende-se e não carece de todo o fundamento. Portugal havia adoptado tão tarde a reforma da educação no sentido da Renascença que a reacção seguiu a acção muito de perto — antes de o saber classico haver filtrado das camadas superiores para as inferiores, espalhando sementes para colheita futura. Na propria vida da Infanta, mais ainda, no proprio reinado de D. João III е D. Catharina, a catastrophe estalou, e deu rumo diverso tanto ao ensino publico e particular, como ás leituras e praticas da Infanta. Naquelle sentido orthodoxamente catholico, bem se vê, que procreou a austera, apagada e vil tristeza que o Vergilio lusitano lamentava, e já fora apontado como caracteristico nefasto de todos os reinos governados por estultos e monges — regnum monachorum et stultorum — pelo sabio de Rotterdam e pelo grande poeta comico português.
Pela minha parte, creio que o ponto de partida para o endoutrinamento da Infanta e seu primeiro norte, francamente liberal, inculcou-lhe um ideal philosophico superior, mas que posteriormente abalada pelos acontecimentos particulares que aniquilaram as suas aspirações mundanas, e coincidiram com a reacção jesuitica, a sua mentalidade tomou evolução mais theologica.
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- ↑ 107b Na livraria da Rainha D. Catharina havia uma grammatica portuguesa, manuscripta, totalmente desconhecida (Principios da lingua portuguesa), uma grammatica latina, tambem inedita (Vide Nota 127); um Abecedario em grego, datado de 1540; oito exemplares da Arte de Lebrija, comprados em 1541.