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Página:A infanta D. Maria de Portugal e suas damas.djvu/50

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sos ás empresas da dama conimbricense outro vulto superior aos dois citados, o proprio patriarca dos hellenistas, que havia trazido em triumpho para Hespanha e Portugal a arte de Poliziano. O venerando Aires Barbosa, mestre do Commendador Grego [1], de passagem em Coimbra, fora visitar a latina que já conhecia de fama pelos seus escriptos, movido pelo desejo de a avistar e conversar com ella. Não a encontrando, dirigiu-lhe uns versos elegantes, em que gaba o estylo suave, eloquente e castiço das suas cartas [2] (scripta tua), lamenta o mallogro do passo dado para se aproximar d'ella, e conclue conceituosamente: «de sabor doce é a maçan colhida directamente da arvore; e muito agrada a agua bebida na propria nascente.» Como todavia nem mesmo este galante implantador do gosto atheniense em terra lusitana allude á tenra idade de Joanna Vaz, concluo que em 1530 (anno da morte de Aires Barbosa), a erudita senhora já não merecia o epitheto de menina. [3]

E' quanto sei. A quem me perguntar, se era versada no idioma de Homero e no de Salomão [4] ; se uma carta sua, trilingüe, foi entregue ao Papa Paulo III, mandando-lhe este resposta benigna; se realmente casou, e quando, com Fernão Alvares da Cunha; se correm impressas varias obras poeticas d'ella, havendo outras manuscriptas; se é facto que, dotada de dulcissima voz de soprano, costumava cantar versos da sua lavra, a testa coroada de louros, de lyra na mão, qual outra Corinna, enfeitiçando além dos homens os monstros do Oceano, emmudeço sorrindo, ou respondo que o creia quem tiver a ingenuidade de jurar nas indicações contidas no Enthusiasmo Poetico do Padre Antonio dos Reys [5], ou em todas as noticias laboriosamente enfeixadas por Barbosa Machado. Incerta se metrificou, e se André de Resende allude, como creio, a poesias d'ella, [6] suspeito que esses traços todos foram irreflectidamente transferidos da biographia da Sigea para a de Joanna Vaz, por quem desejava que ambas figurassem na galeria feminina como gemeas em genio, em gloria, e na amizade da Infanta. Phantasia a que a realidade não corresponde inteiramente. Joanna foi a estrella, o Vesper da manhã, Luisa o sol glorioso do humanismo português.



Luisa Sigea. — Criança gentil, realmente extraordinaria, cuja fama reboou com rapidez, de um extremo ao outro da Europa. Luisa Sigea foi enaltecida em vida por enthusiasticos louvores, mas infamada depois de morta, com vilissimas calumnias, inventadas no seio da propria nação, á qual pertence pelo pae, e que38

  1. 147 Fernan Nunes de Guzman, Comendador da Ordem de Santiago (1553), é mais conhecido por esse titulo, que os coevos lhe deram-distinguindo assim o varão que em Alcalá e Salamanca era o mais profundo conhecedor do idioma de Homero. Hoje estimamo'-lo especialmente como collector de 6:000 proverbios peninsulares.
  2. 148 Os versos dirigidos a Joanna Vaz formam parte de um livrinho raro e precioso: Arii Barbosa Lusitani Anti-Moria, Coimbra, Santa Cruz, 1536.— Vid. p. XXXVI: Ad Johannam Vaas.
  3. 149 Calculo que ella entraria em 1530 no paço da Rainha e que nesse anno começaram os estudos de latim da Infanta D. Maria. — Do Cardeal-Infante D. Affonso sabemos que gastou sete annos nesse estudo, com mestres competentissimos como Ayres Barbosa. — E' este erudito que assim o confessa na Introducção ao livro acima citado, que dedicou ao discipulo: Hoc alterum laboris nostri munus septennio absoluimus in quo & loquendi & orandi & disserendi artem didicisti cum ceteris humanitatis munditiis. Com respeito a Joanna Vaz, ainda o seguinte: No Poema de Resende ha uma passagem que parece estar em contradicção com as phrases sobre a sua idade, pois diz, gabando os seus bons costumes, que até então passou sem culpas a sua juventude (ut sileam mores inculpateque iuventam hactenus exactam). Não seria, comtudo, inexacto traduzirmos: toda a sua juventude. P. S. — Graças ás inquirições a que procedeu o distincto paleographo a que já alludi ao fallar da letra da Infanta, sei agora (a 28 de maio de 1901) que não me enganei nos meus calculos. O 1.o livro de Moradias da Casa da Rainha em que aparece Joanna Vaz, é de 1530. Sei mais (em data de 27 de junho) que a Joanna Vaz estavam entregues e confiados em 1534 os codices e livros da Rainha D. Catharina. Vid. a laboriosa e muito interessante Memoria de Sousa Viterbo sobre A Livraria Real, especialmente no reinado de D. Manuel (p. 37), que acaba de sahir dos prelos da Academia (Lisboa, 1901).
  4. 150 Para fallar de Joanna Vaz explorei todas as fontes indicadas por Barbosa Machado, menos duas que não pude compulsar, e são: Frei Luis de S. Francisco, Prologo ás Linguas Sanctas e C. J. Imbonati, Bibliotheca Latino-Hebraica. Acho pouco provavel que estes auctores soubessem da illustre portuguesa mais do que os conterraneos e coevos. Ainda assim deixo em aberto, se por acaso apurariam noticias que desconheço sobre os seus estudos hebraicos. A este respeito lembrarei que Frei Fortunato de S. Boaventura, não satisfeito de repetir as informações de Barbosa Machado, avança no caminho das affirmações não provadas, dando por mestre a Joanna Vaz o pae da Sigea. Como Diogo Sigeo sabia e ensinava o hebraico (em Toledo pertencera ao circulo dos que trabalharam na Biblia Polyglotta de Cisneros) não é impossivel que o ensinasse a Joanna e Luisa, juntas. Tambem póde ser que de mestre figurasse Frei Francisco Foreiro, o qual, sendo conhecedor eminente das linguas semiticas, era muito do agrado dos Reis e da Infanta.
  5. 151 Escrito em tempo de D. João V (Pro epistola nuncupatoria) o Enthusiasmus foi publicado no tomo I do Corpus Illustrium Poetarum Lusitanorum. Alli diz:

    Vasia prima sedet Lysix clarissimus Aulæ
    Splendor, operta comas lauri viridante corona,
    Plectra canora manu feriens sic dulciter, immo.
    Posset ut e pelago melius Delphinas in auras
    Vellere quam vulsit quondam Citharaedus Arion
    In sua damna fera cum vidit surgere nautas.

    João de Sousa Caría, ao verter em 1731 para português as exagerações encomiasticas do Padre Antonio dos Reis, foi muito mais além na demasia dos louvores, traduzindo p. ex. splendor pela palavra portento, conforme já foi indicado por Silvestre Ribeiro na biographia da Sigea, que mais abaixo terei de citar.

  6. 152 No Poema de Resende vemos applicado a Joanna Vaz a expressão carminibus tibi nota suis isto é, «conhecida a ti, Resende, pelos seus canticos». Infelizmente, nas Obras do Eborense (1551 e 1600) lê-se: tuis. A meu vêr é erro, que os posteros emendaram com toda a razão.